A construção de espaços culturais requer o planejamento de suas manutenções, e não apenas o objetivo interesseiro na inauguração
A edificação de equipamentos culturais, que supostamente oferecerão uma programação de qualidade levando cultura à periferia, freqüentemente é considerada sinônimo de uma política cultural descentralizada. Seria ótimo que as cidades pudessem contar com uma infra-estrutura cultural realmente descentralizada onde não houvesse apenas a descentralização de ações, mas principalmente do poder de decisão, proporcionando suporte e fortalecendo a produção das culturas e conhecimentos das comunidades julgadas incultas.
Ninguém é contra o belo, contra espaços bem estruturados para as manifestações culturais ou ainda contra a proteção de patrimônios históricos ou arquitetônicos. Muitas cidades não possuem infra-estrutura cultural física e investimentos públicos na construção ou mesmo na adaptação de espaços para fins culturais são mais do que bem-vindos, desde que tais investimentos sejam revertidos para a população contemplando a diversidade, o diálogo e a convivência. Outras cidades já contam com razoável estrutura, porém o fetiche do lançamento da pedra fundamental e da inauguração é priorizado em detrimento da manutenção e do uso de espaços já existentes.
As conseqüências de iniciativas que utilizam o dinheiro e o direito público irresponsavelmente são edifícios novos e belos sem orçamento previsto para seu funcionamento e manutenção, com suas paredes de vidro sem quem as limpem, seus jardins franceses sem quem os cuidem. Equipamentos onde a discussão da forma precedeu a discussão do uso, resultando não poucas vezes em palcos sem tomadas, salas sem ventilação, auditórios sem cadeiras, programações discrepantes da realidade de seus possíveis freqüentadores. Espaços mortos. Iniciativas onde os objetivos ficam para depois, inventados quando e se questionados. A previsão de recursos financeiros, materiais e humanos básicos é ignorada da mesma forma com que saber para que serve o serviço é o que menos importa. Não será apenas a construção e o desejo da implantação de uma programação de qualidade (conceitualmente vaga) que dará vida ao local.
Testemunhamos equipamentos depauperados, em péssimas condições, interditados e mal utilizados, enquanto os dirigentes de plantão estão sempre tendo idéias espetaculares para novas construções que, mesmo quando necessárias, não são planejadas física e financeiramente para durar mais do que até as próximas eleições, ocasião em que o recém-eleito sempre alegará uma herança caótica. Inconcebível é quando o mesmo governante ou partido continua no poder e quanto mais gestões consecutivas mais a ‘casa cai’.
Mas a solução é simples: sempre surge alguém com a idéia da captação de recursos privados, como se fosse o primeiro a pensar no assunto. Afinal, basta ter em mãos o projeto de reforma e, como num passe de mágica, a comoção contagiará o empresariado da cidade que não medirá esforços para a reconstrução de um monumento público que não foi cuidado pelo próprio dono. Sem projeto de uso, portanto sem uso, e sem estratégias de sustentabilidade.
Assim acontece também com cinemas, funerárias e ex-moradias (sempre das classes nobres da cidade) tombadas sem que haja estratégias de preservação. Os anos passam e os patrimônios materiais vão sendo desprotegidos e literalmente tombados!
Implantar ações vinculadas a estruturas físicas demanda um trabalho prévio que vai além do conceito arquitetônico. E para resultados transformadores, maiores que o simples consumo de produtos de qualidade, há que se considerar a realidade do entorno.
O espaço utilizado para realizações pessoais, amiguistas ou eleitoreiras precisa ser ocupado pela articulação e participação dos envolvidos nas questões culturais, dos gestores aos beneficiários. A construção nunca deveria preceder discussões e decisões sobre o uso, e estas não podem ser realizadas entre as paredes dos gabinetes.
Simone Zarate