Ética, Estado, Arte e Mercado

Foto: Ian B. Line
Já não me lembro a última vez que escrevi este artigo da Vila Mariana, em São Paulo, onde vivo e trabalho. Os últimos foram de Belo Horizonte, Buenos Aires, Nova Iorque e agora Recife, por ocasião do seminário da Fundação Joaquim Nabuco intitulado A Crise na Cultura e a Cultura na Crise. Ontem mesmo já postei no Twitter do CeM (yes, sucumbimos!!) algumas novidades trazidas pelo José Luiz Herencia, secretário de políticas culturais do MinC.

As outras viagens foram por conta do webdocumentário Te Están Grabando, que estou realizando em parceria com a RAIA – Rede Audiovisual Iberomericana, que em breve deverá mostrar a cara e abrirá para participação, depois de alguns meses de incubação e planejamento. Tudo isso na âmbito do Divercult, tocado na Espanha pela Fernanda Martins e aqui no Brasil pela Roberta Milward. Sobre isso, acabo de publicar um trecho da entrevista que fiz com Vincent Carelli, diretor de Corumbiara e fundador do Video nas Aldeias, algo que precisa ser difundido e comemorado por todos nós.

Fiz essa introdução cabotinesca para anunciar que faremos algumas mudanças na página inicial de Cultura e Mercado, disponibilizando informações dessas duas iniciativas (Twitter e Te Están Grabando), que são relacionadas ao conteúdo do site. Em breve disponibilizaremos uma nova página de autores, sempre querendo ampliar cada vez mais a rede de colaboradores que promovem conosco o debate público sobre políticas culturais.

Mas o assunto da semana é crise. Em minha fala no seminário, tentei apresentar quatro dimensões para a questão da crise financeira em sua relação com a cultura: a crise Ética, do Estado, da Arte e, por fim, do Mercado Cultural.

Nas próximas semanas quero falar sobre cada uma dessas dimensões, para não amontoar, num único texto corrido, assuntos que merecem melhor cuidado e dedicação. Neste primeiro, quero falar um pouco sobre a minha opção de multidimensionar a crise, com receio de tornar sua análise pontual e desvinculada das mazelas do nosso processo civilizatório.

Confesso que fico um tanto incomodado com a opção da grande mídia de abordar a crise por um viés exclusivamente economicista, para não dizer financista. Parece que tudo não passou de um acidente e que isso poderia ser evitado se não fosse este ou aquele fator isolado. O capitalismo global em nenhum momento está sendo colocado em jogo. Está protegido por uma couraça que, todos sabemos, não passa de uma simples manutenção de códigos e sistemas garantidores de privilégios de uma casta cada vez mais reduzida, que comanda e controla a informação e a circulação monetária no mundo.

Fiquei muito feliz com a opção de Isabela Cribari, da FUNDAJ e do economista Stefano Florissi, de abordarem a crise por sua dimensão cultural e humana. Cristiane Olivieri, também participante do debate, fez uma instigante abordagem setorial que devo comentar e compartilhar em outra ocasião.

Como um conjunto pré-concebido de códigos e comportamentos, a economia global se manifesta de maneira cada vez menos linear, consequência, sobretudo, dos novos processos de sociabilidade e mediação simbólica proporcionados pelos novos instrumentos e tecnologias digitais.

Se os meios de comunicação de massa conseguiram desconetar o ser humano da verdade, substituido-na pelo que é apenas plausível ou possível, ditado por quem possui credibilidade ou verosimilhança, vemos agora uma apropriação voraz do simulacro, por meio de redes socioculturais, blogs, second-lifes e produtos derivativos, provocando uma implosão do sistema de mediação e um choque de credibilidade.

O que poderá acontecer com a civilização, que insiste em considerar conhecimento e/ou conteúdo cultural como mera commodity, quando ela se deparar com a verdade? Não a verdade absoluta, que – como acreditava Gandhi – continuará sendo uma busca, mas algo menos encoberto, filtrado, mediado como na era da media. 

O simples estilhaçamento dos vidros de proteção, que blindam o ser humano e o afastam da realidade nua e crua, já nos permitiria encontrar novas possibilidades de transição para um mundo menos monocromático e desprovido de verdades absolutas.

Resta-nos saber se esses mesmos meios serão absorvidos e controlados ou se consolidarão de maneira definitiva como instrumentos de cidadania e participação democrática.

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