Os mercados audiovisuais da Europa e dos Estados Unidos disputam uma queda de braços. A razão do embate é a possível inclusão do setor na zona de livre comércio entre os países que integram a Comissão Europeia e os EUA.
Um movimento liderado pela França está reunindo assinaturas contra o acordo. Sob o título “A exceção cultural não é negociável”, a carta já possui mais de seis mil signatários, entre eles, cineastas do continente, como Michael Haneke, Pedro Almodóvar, Constantin Costa-Gravas e Thomas Vinterberg, e também diretores não-europeus como Walter Salles e David Lynch.
No documento, o grupo pede aos chefes de Estado dos países da comissão que se posicionem de forma contrária à inclusão e mantenham a política vigente na Europa há vinte anos. A exceção cultural é um sistema que oferece subsídios, incentivos fiscais e cotas para salvaguardar a produção local de cinema, TV e música da competição feroz com produtos norte-americanos e de língua inglesa.
Na frança, o market share (ou a fatia de mercado) que os filmes americanos atingem gira em torno dos 50-60% – diferente do Reino Unido, por exemplo, onde a penetração é de 90%.
Em artigo feito para o jornal britânico The Guardian na última semana, a colunista de política e crítica de cinema Agnès Poirier comentou o caso. “O contraste reside nos pontos de vista: os EUA encaram o cinema e as artes como indústrias de entretenimento que geram lucro; para a Europa, a cultura é produto das ideias que vão além do restrito valor comercial”, escreveu.
Agnès conta que o conceito de “exceção cultural” foi transformado em “diversidade cultural” e adotado pela Unesco em 2005 por meio de convenção assentida por 185 países, exceto EUA e Israel. “A diferença é que, vinte anos depois, a Europa tem um estado mais fraco”, advertiu.
Segundo o jornal Financial Times, a intenção da Comissão Europeia e do primeiro-ministro do reino Unido, David Cameron, é que a Europa ponha à mesa todas as opções possíveis, deixando a possibilidade de proteger setores-chave para o final das negociações.
Em recente carta à Comissão Europeia, Nicole Bricq, ministra do Comércio Exterior da França, alertou para “os riscos que a recusa de excluir explicitamente os serviços audiovisuais do âmbito [das negociações] representaria para o próprio início das tratativas”.
O diálogo entre os países europeus em busca de um consenso continua em curso.
*Com informações dos jornais Financial Times, The Guardian, El Pais e O Globo.
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