Ferida aberta, ferida cutucada

A crise nas políticas culturais não é um privilégio da esfera federal. Leonardo Andrade reflete sobre São Bernardo do Campo

Em São Bernardo do Campo, um grupo de artista resolveu cutucar uma ferida para ver no que vai dar. Todos (referência àqueles que lidam com a cultura e suas esferas artísticas na cidade) sabem que a ferida existe; que ela está aberta e que não será curada se não for remexida, lavada e esterilizada. Com certeza alguns pontos e um tratamento a médio e longo prazo serão necessários. Mas nenhum douto interessado quis pegar sua maleta e mexer nessa “pereba”. Não, até há algumas semanas atrás.

A ferida da qual se fala aqui é a forma como a cultura é gerida pelo poder público municipal. Não sendo tratada como política pública, as ações na cidade são resumidas a oficinas culturais em um modelo questionável, ou ultrapassado e na compra de espetáculos. Para um município com uma das maiores arrecadações do estado de São Paulo – para 2008 o orçamento é de R$ 2,2 billhões – parece muito pouco o que se faz pela cultura.

Em tempos em que se discute a reformulação da Lei Rouanet e financiamento público da cultura, uma das mais ricas cidades de São Paulo ainda tem perfil um tanto provinciano e atrasado. Não se abrem editais para a cultura e a impressão é a de que a contratação de artistas é feita segundo critérios pouco democráticos, do tipo balcão de armazém. Falta um mecanismo eficaz de apoio e promoção da cultura na cidade e não se vê um debate aberto para que esse cenário se modifique.

Claro que, a falta de posicionamento e articulação da classe artística na cidade corrobora para a situação. Menos crítica e provocação, isso é um alerta para que ela se mobilize e cobre uma ação clara do poder público. Enquanto em outros palcos a inconformidade é coisa intrínseca ao artista, em São Bernardo ela parece ter dado lugar à conformidade e conforto. Conformidade da qual sair, iria requerer grande esforço; conforto, com o pouco que se obtém vendendo espetáculos subvalorizados, como se arte se limitasse a um produto de balcão. Nesse cenário, pouco se faz além de entretenimento. Pois é fácil, rápido e não exige o tempo da arte – salvo as raras e dignas exceções.

Mas voltemos ao início dessas linhas e falemos daqueles que cutucaram a ferida. Estão aprendendo que os primeiros são os que dão a cara à tapa e se machucam. Mas não importam os machucados se o fruto é doce, importam? O grupo de teatro Cia As Marias se levantou e literalmente enfiou o dedo na ferida e goela abaixo do Departamento de Cultura de São Bernardo – que faz parte da estrutura da SEC (Secretaria de Educação e Cultura).

Levantou-se e hoje é retaliado por esse mesmo departamento. Uma das “Marias” seria contratada para realizar uma certa exposição sobre Clarice Lispector em abril. Até o mês passado o discurso oficial era “Será com você ou não será”. Após o início da contenda entre Departamento de Cultura e Cia As Marias, o discurso mudou radicalmente para “Com essa ‘Maria’? Sem chance!”.

Nenhuma surpresa nisso não fosse o tom revanchista da ação. Coisa coerente é a administração pública abrir um edital e, de forma clara e aberta, definir um artista para realizar determinada obra. No caso em questão, não houve edital e a escolha ocorreu via curadoria do projeto que indicou – por experiência anterior – quem deveria realizá-lo.

O Departamento de Cultura acatou e depois de negociações com os artistas estava pronto para fechar o contrato. Nesse ínterim entra a Cia As Marias para cutucar o doente. Como a artista plástica “quase” contratada é também uma Maria, os enfermeiros, ou o Departamento de Cultura de São Bernardo não gostou e deu ordem para a retaliação. Resultado, a exposição sobre Clarice Lispector vai acontecer, mas sem a Maria e diferente daquilo que, inicialmente e há muito tempo, imaginavam seus curadores.

Deflagra-se nisso provincianismo, falta de gestão e planejamento. Deflagra-se também a necessidade urgente desse município, uma das maiores arrecadações do estado de São Paulo, tratar a cultura como ela deve ser tratada. Cultura não é entretenimento, tão pouco produto de balcão de armazém. Cultura nos envolve a todos e determina nosso pensar, nosso agir, nosso fazer. A ferida aberta só vai começar a cicatrizar quando o poder público, artistas, intelectuais, acadêmicos e demais interessados promoverem um debate aberto a fim de definir um projeto para a cidade. Felizmente, a ferida cultural em São Bernardo jorra pus. O que quer dizer que há agentes benéficos agindo no local. Então, que eles se multipliquem, combatam a inflamação e deixem as marcas apenas como lembrança do que foi e não mais deverá ser.

Leonardo Andrade

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