?Uma equipe de agentes da CIA e do FBI, e de informantes do submundo hollywoodiano, secunda Jack Valenti na tarefa de controlar a presença audiovisual dos EUA no planeta?Um dos homens mais poderosos dos EUA, logo também do mundo, tem nome que lembra os de personagens em O poderoso chefão, de F.F. Coppola. É um texano baixinho, que usa salto carrapeta nos sapatos e tinge os cabelos já escasseantes. Chama-se Jack Valenti, presidente da Motion Picture Inc. (MPA), para onde foi catapultado após exercer as funções de assessor de Imprensa de Lyndon Johnson. Mais que respeitado, é temido, em razão de uma contundência sem papas na língua, em geral utilizada em tons ameaçadores, quando não atendidas suas demandas por agentes de governos estrangeiros. Nos últimos dias, divulgou-se que mandara carta virulenta ao presidente do México, acusando Vicente Fox de favorecer uma prática irregular de protecionismo: o país associado ao Nafta ousara sobretaxar em US$ 0.09 (nove cêntimos de dólar) o preço do ingresso em salas de cinema, como estímulo à produção de filmes nacionais!
Valenti conhece o mundo inteiro e já esteve no Brasil algumas vezes, sempre recebido em audiência por nossos presidentes, salvo pelo general Ernesto Geisel, que não gostava do seu jeitão de gringo arrogante. A entidade que dirige há mais de três décadas é empresa multinacional, sindicato patronal, sobretudo centro de confabulações tático-estratégicas. Uma equipe de agentes da CIA e do FBI, ativos e inativos, e de informantes do submundo hollywoodiano, ativíssimos sempre, secunda-o na tarefa de controlar a presença audiovisual dos EUA no planeta. Nesse e noutros sentidos, é figurão imprescindível à execução da política externa da Hiperpotência. Herdeiro ideológico de Teddy Roosevelt, J. Edgar Hoover, John Foster Dulles e Vernon Walters, anda de porrete na mão direita e segura uma cenoura na esquerda. Dá com o pau no focinho dos resistentes ou premia-os com o legume, se cordatos.
Durante muito tempo, confirmou no Rio de Janeiro o seu representante mais bem sucedido, Harry Stone, apelidado por nós mesmos de “embaixador de Hollywood?. Foi, na verdade, mais que isso: representou interesses governamentais muito importantes. A prova é que teve como padrinho de casamento o presidente Juscelino Kubitschek; conduziu o marechal Costa e Silva em visita ao seu país; e lá organizou também estrondosa recepção a Fernando Collor. Agradou de todas as maneiras nosso estamento caudatário, cumprindo melhor que ninguém missões de elevadíssimo teor diplomático ? tudo, em troca da dominação do mercado audiovisual no Brasil e da remessa de lucros esfuziantes para a matriz.
Valenti, admiradíssimo em Washington, dá as cartas, pudera, colocando-se bem ao gosto americano de prezar conquistadores vitoriosos. Há algum tempo, incursiona pela China, aproveitando-se como qualquer tycoon das aberturas econômicas inauguradas por Teng Hsiao-ping (Deng Xiaoping) em 1978. Bem antes dos anos-90, já tomara a nau globalizante, segurando-lhe o leme com desenvoltura. É mais um guerreiro do capitalismo selvagem que militante do Espírito dos Pais Fundadores, iluminados em congresso, na Filadélfia de 1776. Sua rede de informações e contra-informações em todos os quadrantes assegurava, na virada do Milênio, um predomínio americano de 83% das imagens sonorizadas na Terra. E uns 16% americanizantes. Em nosso Brasil, a proporção no primeiro semestre do ano passado, em blockbusters/filmes normais, foi de 98/1.4%! O que então sobrou para nossos filmes independentes foi a poeira de um dechiz: 0.6%! Num mercado audiovisual de quase 1700 salas, só O homem Aranha foi lançado com 609 cópias, enquanto outros ?colossos? ocupavam somados cerca de mil telas!
Que importância tem esse senhor para nós? Simples a resposta, que nem precisa de análises profundas de antropologia cultural, relações internacionais ou comércio exterior. Basta que sintonizemos nossos televisores em quase todas emissoras abertas ou redes por assinatura, visitemos uma videolocadora, leiamos um programa de filmes em cartaz nos circuitos exibidores, brinquemos com vídeo-jogos ou digitemos imagens em movimento na Internet. Nem todos sabem, mas Valenti é o verdadeiro Big Brother, que George Orwell previra certinho para entrar em cena 19 anos atrás. Livre-comércio é, para ele, a liberdade assegurada a qualquer tipo de operação da MPA. No seu universo não há soberanias, constituições ou culturas alheias. Eis como se tornou o retrato-falado do alquimista criador de um fenômeno que instigou Roberto Rossellini desde jovem: o espectro do medo que ronda as pessoas, no caso as que vivem de imagens cine-tele-videofonográficas.
Faz alguns meses já, nossas autoridades lidam, até policialmente, com ?indícios? de cartelização do gás de cozinha e investigam o comércio de vergalhões de ferro. Mas ninguém ousa chamar às falas do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) as distribuidoras americanas de produtos audiovisuais, tratadas como se fossem brasileiras, inclusive nos segmentos publicitários. Se o capitalismo, mesmo regulado, vive à procura incessante de brechas e desvãos legais para instalar-se na concorrência mais-que-imperfeita, o desregulado jorra enxurradas monopolizantes sem estio. Todas as batalhas contra as referidas empresas foram até hoje perdidas. Inundam um mercado sem barreiras, descumprem legislações mandatórias e infringem regras comezinhas do comércio de bens e serviços. Sabemos os que se ocupam do assunto no Brasil ou se interessam pela cultura e sanidade mental do seu povo que o ?eixo do Mal? não se restringe apenas à Coréia de Kim Jong-il, ao Iran de Khameney ou ao Iraque de Saddam Hussein. Nem todos males vêm para o Bem, senão os mostrengos hollywoodianos estariam para sempre banidos de telões, telas e telinhas, rumo ao inferno, deixando nossa gente em paz.
Arnaldo Carrilho, 65, diplomata, é diretor-presidente da Riofilme S.A.
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