Daniele Dal Col está há 13 anos no mercado de arte, trabalhando em galerias, orientando coleções, prestando consultoria para artistas e galerias. Entre 2011 e 2012 trabalhou como consultora da Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Projeto Latitude) e escreveu o manual de importação e exportação de obras de arte para a instituição. Atualmente é sócia da Galeria Superfície, em São Paulo (SP).
A partir do dia 15 de abril, ela estará no Cemec apresentando o curso Gestão de Carreira para Artistas Visuais. Com duração de três meses, em encontros semanais, as aulas têm como proposta desenvolver no artista visual competências de gestão, decisórias e de comunicação, para que além do desenvolvimento do trabalho artístico, ele também esteja preparado para administrar a sua carreira.
Em entrevista ao Cultura e Mercado, Daniele fala sobre as principais dificuldades dos profissionais dessa área em fazer a gestão de suas carreiras e o que tem sido feito de mais interessante no mercado internacional.
Cultura e Mercado – A cultura vive em um eterno dilema entre criação e comercialização. Há artistas que ainda têm dificuldades em encarar que sua arte faz parte de um mercado, que segue determinadas regras econômicas para se desenvolver. Nas artes visuais, essa questão parece estar mais bem resolvida, vide os valores astronômicos que um trabalho pode render. Tendo isso em vista, o que um artista dessa área deve ter em mente ao começar um processo de gestão da sua carreira?
Daniele Dal Col – Não acredito que este dilema entre criação e comercialização seja forte como já foi um dia, as novas gerações estão cada vez mais à vontade com isso, mas ainda assim há dúvidas e equívocos. O artista entende que em um mercado que se organiza cada vez mais ele também deve se organizar. Entende que além de criar, ele deve saber cuidar de outros aspectos da sua carreira. Mas nem sempre sabe como. Ele vai ter que saber como lidar com o mercado. Quais são os seus direitos e deveres, o que é responsabilidade dele e o que é do outro. É exatamente neste contexto que se se insere o curso. Mesmo que ele tenha alguém que faça isso por ele, é importante que ele entenda o que está sendo feito até para saber se estão cuidando bem ou não dos seus interesses.
CeM – No curso você fala sobre a função do mercado da arte como rede socioeconômica. O que quer dizer com isso?
DDC – A função do mercado de arte como rede socioeconômica define, valida, mantém e reproduz a categoria cultural de arte, legitimando a sua autoridade. O mercado de arte é composto por uma série de instituições interdependentes (escolas, museus, galerias, sistemas comerciais de mercado e profissões) e todos participam na construção de um sistema global. O mercado de arte é, portanto, parte do nosso sistema de profissões. Entretanto esta rede no Brasil ainda precisa se profissionalizar, como já acontece no mercado americano – por exemplo -, que é altamente profissionalizado.
CeM – De maneira geral, os artistas visuais brasileiros têm conseguido fazer uma boa gestão das suas carreiras? O que falta?
DDC – Percebo que alguns artistas são gestores natos. Mas a maioria tem muitas dúvidas e nestes anos que tenho acompanhado vários deles, de diferentes idades, em momentos diferentes em suas carreiras, percebo que as dúvidas muitas vezes são as mesmas e que a dificuldade vem de um entendimento errado de parte dos assuntos que são importantes. Eles tendem a entender como “burocracia” uma série de coisas que não se referem diretamente ao produzir e por esse motivo não dão a devida atenção a esses assuntos, ou os evitam. Isso dá certo enquanto eles são mais jovens. Passado um tempo o artista tem que se organizar também. Tem que abrir empresa, tem que dar nota. Tem que fazer uma exportação de obras e a galeria não vai querer se envolver. Ele tem que saber como agir.
CeM – Quais são as principais dificuldades que o artista visual encontra ao começar a se organizar profissionalmente: questões jurídicas/burocráticas, organização de material, conhecimento de leis de fomento…?
DDC – As questões burocráticas – abrir firma, dar nota, como declarar as entradas no IR – são as que mais geram dúvidas entre todos eles. Entre os mais jovens, os editais e prêmios também geram inúmeras dúvidas. Além disso, a maneira de negociar as participações quando entra em uma galeria, precificação de obra, são todos assuntos que geram muitas dúvidas.
CeM – O que podemos aprender com o mercado estrangeiro no que diz respeito às relações de trabalho no mercado das artes visuais?
DDC – Acho que o mercado internacional é mais organizado que o nosso porque já iniciou esses processos há mais tempo. Nós estamos dando passos importantes, mas ainda há muito a fazer. Os primeiros passos nessa direção foram dados em 2007, através da criação da ABACT/Projeto Latitude, que encomendou uma pesquisa sobre o mercado de arte Brasileiro, é só depois disso que se teve ideia do tamanho desse mercado e do seu funcionamento. E estamos apenas falando da associação de galerias, lá fora existem inúmeras outras iniciativas que eu considero muito interessantes, os artistas têm suas associações, existem iniciativas como o nolongerempty.org que utiliza espaços urbanos que não estão sendo usados para exposições e também venda. As exposições de graduação são boas portas de entrada dos artistas nesse mercado, há colecionadores que compram em grupo e dividem a coleção entre eles, os bancos têm linhas de crédito para aquisição de obras de arte, enfim… uma série de coisas que ainda podem ser feitas.
Clique aqui para saber mais sobre o curso que Daniele Dal Col apresenta no Cemec.