Gil deixou o Ministério da Cultura. Bem mas que isto ele deixou um Ministério da Cultura. Glauber Piva escreveu em seu blog, não sem registrar suas críticas, que Gil foi o primeiro ministro da cultura do Brasil. Justo reconhecimento. Por feliz coincidência, aos seus 18 anos, com sua maioridade, o Ministério passou a ter seu primeiro ministro e em estilo espetacular. Dez responsáveis pela cultura estiveram à frente do ministério ou da secretaria (nos tempos de Collor) entre 1985 e 1994. Não há ninguém capaz de sobreviver à tamanha instabilidade. A longa ausência do estado e de políticas culturais nacionais, orquestrada por Weffort entre 1995 e 2002, bloqueou ministério e ministro, subsumidos ao deus mercado. Afinal, o documento mais difundido à época dizia ser a cultura um bom negócio.
Veio Gil e discordou. Sem medo e sem ouvir ponderadas recomendações, tornou o Ministério aberto e abrangente. Não ao estado ausente. Não ao autoritarismo que, no Brasil, sempre associou intervenções culturais potentes e regimes ditatoriais. Sim a um estado atuante, capaz de formular e implementar não só políticas culturais nacionais, mas políticas democráticas e públicas, sempre em construção tensa e criativa com a sociedade. Não a instabilidade. Sim ao desenvolvimento de políticas de Estado, que transcendam governos. As três tristes tradições das políticas culturais nacionais – ausência, autoritarismo e instabilidade – estavam colocadas em cena e foram enfrentadas. Era e é preciso dar estatura à cultura e ao Ministério dentro e fora do governo. Gil personalizou a transversalidade e a centralidade da cultura na contemporaneidade. Poeticamente, em seus discursos programáticos ele anunciou: “fazer políticas culturais é fazer cultura”. Ele inaugurou o Ministério da Cultura e foi, em plenitude, seu primeiro ministro.

O melhor reconhecimento do rico itinerário são críticas que podem e devem ser formuladas. Agora existe ministério e suas políticas. Agora podemos ter um novo ministro da cultura, que trilhe e aprimore as largas veredas abertas. O Plano Nacional de Cultura (PNC), nosso primeiro plano em tempos democráticos, e o Sistema Nacional de Cultura (SNC), neste horizonte adquirem centralidade. Elas não são, por certo, as duas políticas mais criativas. Neste lugar podem estar os Pontos de Cultura, o DOC-TV e diversos outros imaginativos programas do Ministério. Mas o PNC e o SNC são os de maior envergadura para inaugurar as políticas de Estado no campo da cultura e colaborar na consolidação do Ministério. Elas estão a requerer um tratamento, articulado e prioritário.

A luta, lembrada por Gil em seu ato de despedida, em prol de pelo menos um por cento do orçamento nacional para a cultura tem que ser continuada e ampliada. Mas outro salto, arriscado, precisa ser realizado. A herança neoliberal de superdimensionar as leis de incentivo, substituindo políticas de financiamento e mesmo políticas culturais, não pode estar esquecida.

Juca, companheiro de Gil desde o início desta aventura, precisa “estar atento e forte” para enfrentar os velhos desafios e outros, muitos outros, que emergem com naturalidade da circunstância de que agora temos um Ministério da Cultura. Como nosso primeiro Ministro se foi tocar a cultura, que Juca, com experiência e sabedoria, possa gerir a cultura, embalado pela música de nosso ex-ministro.


Secretário de Cultura do Estado da Bahia. Professor e Coordenador do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da UFBA.

2Comentários

  • SILVIO MARCOS DIAS SANTOS, 6 de agosto de 2008 @ 10:12 Reply

    Parabenizo Rubim pela excelente matéria. É autor de vários trabalhos que só reforçam o compromisso que tem com a cultura, num país marcado por tantas diferenças e forças que sempre se opuseram à democratização desse bem social. Compartilho com ele o entendimento de que Gil foi muito importante nesse processo.

  • Fernando Caseiro, 7 de agosto de 2008 @ 0:14 Reply

    Não tenho intenção de defender a atuação de ninguem do governo anterior, mas, acho que o Rubim esta fazendo uma avaliação equivocada da atuação do Ministro Weffort. Vejo sua gestão como um alicerce de um Ministério da Cultura que não existia. Mesmo sem recuros orçamentarios por conta das crises sistemicas que o mundo vivia na época, ele criou ou incentivou leis, programas e projetos que a classe cultural convive até hoje. Ele não se deixou levar pela ficção cultural esboçada para ludibriar intelectuais, mesmo que brilhantes, de visão romantica e ultrapassada da cultura.

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