Gilberto Gil dá aula para alunos de produção cultural

Universidade Federal Fluminense, em Niterói, recebeu o ministro para uma aula magna e conversa com os alunosNo dia 2 de maio, o Ministro da Cultura Gilberto Gil proferiu uma aula magna para os alunos do curso de Produção Cultural da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Rio de Janeiro.

Entre outros assuntos, Gil falou sobre os desafios do produtor cultural no contexto da globalização, a importância da dimensão econômica da cultura e a profissionalização do setor cultural.

Gil apontou que um dos desafios da globalização é buscar perspectivas mais humanistas e menos economicistas, e incluir a cultura como elemento central nos modelos de desenvolvimento: “Para centenas de milhões de pessoas ao sul do Equador, a parte mais nítida da globalização ainda é a da concentração da riqueza e das oportunidades reais no norte, enquanto, na sua vizinhança e arredores, se concentram a pobreza, os desequilíbrios ambientais e a hegemonia cultural alheia. O fiasco da adesão e rejeição à globalização demonstra que, para além das estratégias ideológicas, devemos buscar um novo caminho baseado na percepção simultânea de que a globalização, além de inexorável, traz oportunidades significativas. Nesse processo, a cultura pode ser o principal fator de desenvolvimento e equidade no país”.

Sobre a economia da cultura, o ministro disse que “cultura gera renda, emprego e bem estar. No Brasil, a cultura representa 5% do PIB nacional, é significativo. Nos EUA, esse índice é de 7%. Estamos diante de um ativo fabuloso, com enorme potencial não realizado. As atividades culturais são hoje em dia as que mais empregam, as que melhor pagam e as que mais exportam e mais crescem entre as atividades econômicas e devem ser peça chave para o desenvolvimento do país”.

Ele também disse que o objetivo maior do produtor cultural é ser exportador: “Me parece óbvio que podemos e devemos atuar primordialmente como produtores e exportadores de conteúdos culturais, e não apenas como consumidores.”

Em uma conversa para responder perguntas dos alunos, estes aproveitaram a ocasião para pedir o apoio do Ministério da Cultura para a criação do Conselho dos Produtores Culturais e a inclusão da graduação nos editais de concursos relacionados à cultura. Gil respondeu: “É normal que haja essa mistura entre os formalizados e não-formalizados, mas esta é uma questão que deve ser avaliada em debate nacional, assim como ocorreu em outros setores”. Ele afirmou que iria incluir o curso de Produção Cultural como uma das áreas de formação recomendadas nos editais de concursos a serem realizados pelo MinC.

Leia a seguir a fala do ministro:

Bom dia a todos.

É um prazer estar aqui, na Universidade Federal Fluminense, para falar a vocês, e ouvir vocês, sobre um tema estratégico para o Ministério da Cultura.

Quero agradecer publicamente o convite e parabenizar a UFF por manter este pioneiro curso de graduação em gestão e produção cultural.

Um dos desafios centrais para o fortalecimento da produção e da difusão de bens e serviços culturais no Brasil é a capacitação de profissionais. Os ativos culturais brasileiros constituem a grande riqueza deste país. Mas ainda não fomos capazes de rentabilizá-los e maximizá-los o bastante.

Um dos obstáculos que enfrentamos é a falta de profissionais capacitados. O que não deixa de ser positivo: há um vasto mercado de trabalho para vocês.

Creio que a universidade pública pode e deve desempenhar um papel importante nesta seara, a exemplo do que a UFF já faz há alguns anos.

Mas eu falei de cultura como ativo econômico, de um lado, e de ativo social, de outro. A que estou me referindo? Seria correto chamar a cultura de ativo?

E o que isso tem a ver com vocês?

Bem… Acho que tem tudo a ver. Vocês são ou serão fundamentais no processo de desenvolvimento da economia da cultura no Brasil.

Trata-se de um processo estratégico para a cultura brasileira e para todos nós que de algum modo atuamos no setor, seja na criação, seja na gestão.

Trata-se, ainda, de um processo estratégico para o conjunto da sociedade brasileira, na medida em que cultura gera renda, emprego e bem-estar.

Estamos diante de um ativo fabuloso, com enorme potencial não-realizado. E estamos diante de um contexto extremamente favorável. A globalização e o avanço tecnológico criam oportunidades fantásticas para que o Brasil incorpore a cultura ao seu projeto de desenvolvimento pleno.

As atividades culturais são, hoje em dia, as que mais empregam, melhor pagam, mais exportam e mais crescem, entre as atividades econômicas.

E, como eu disse, vivemos num país que está longe de aproveitar boa parte de seu potencial neste campo, como os EUA e a Europa, por exemplo.

Nos anos 90, os países emergentes consumiram boa parte de suas energias sociais no embate autofágico entre duas estratégias de desenvolvimento opostas: globalização a qualquer preço x rejeição da globalização.
Uma década depois, os entusiastas de cada time ainda falam em vitória, ou “saldo positivo”. Para convencer seus interlocutores, apresentam dados parciais e ambíguos que exigem benevolência para serem apreciados.

Os resultados evidenciam o fiasco da adesão e da rejeição. Há diferenças regionais, êxitos momentâneos e fatores contextuais a considerar, mas o fato é que, de modo geral, as duas estratégias mostraram-se aquém da tarefa.

A face mais nítida da globalização, para centenas de milhões de pessoas ao Sul do Equador, ainda é a da concentração da riqueza e das oportunidades reais no Norte, enquanto na sua vizinhança (e arredores) se concentram a pobreza, os desequilíbrios ambientais e a hegemonia cultural alheia.

Onde e quando os acertos superaram os erros, produziu-se no máximo um crescimento econômico de fôlego curto. Onde e quando se deu o contrário, o impacto foi perverso: mais pobreza e desperdício, menos competitividade.

Adesão e rejeição foram, portanto, incapazes de induzir, nos países emergentes, processos inclusivos e sustentáveis de desenvolvimento. Ou seja: algo mais do que surtos de crescimento e euforias eventuais.

O fiasco demonstra que, para além das estratégias ideológicas, devemos buscar um novo caminho, baseado na percepção simultânea de que a globalização, além de inexorável, encerra oportunidades significativas.

Não apenas a globalização, mas também a fatia ascendente do capitalismo, que acelerou e ampliou incrivelmente o fluxo de capitais, idéias e pessoas, em meio à consolidação do novo “Império”: a economia do conhecimento, baseada em inovação, criatividade e trabalho imaterial.

Eis o desafio vital que os países emergentes, como o Brasil, enfrentam atualmente. Como atuar de modo soberano e inteligente na globalização e na economia do conhecimento, aproveitando as chances de sucesso existentes?

Como transformar os ciclos de crescimento econômico que alguns países do Sul experimentam atualmente em processos progressivos de desenvolvimento, reduzindo desigualdades internas e entre os hemisférios?

Como estimular dinâmicas que impulsionem as economias e ao mesmo tempo não esgotem ou desperdicem recursos humanos e naturais, distribuam renda, expandam a cidadania e produzam, acima de tudo, bem-estar?

Como fazer com que a globalização seja um movimento de descentralização econômica, de equilíbrio social e ambiental, de polifonia cultural e intelectual, de interdependência positiva? Como fazer, de fato, uma governança global?

O que estamos tentando fazer, no Ministério da Cultura do Brasil, é dar respostas satisfatórias a essas perguntas, ainda que em pequena escala, ainda que em termos experimentais, ainda que na esfera do simbólico.

A diferença para a estratégia da adesão está no “como” e no “para quê”. Trata-se de enfrentar o desafio, inventando e praticando uma nova globalização, um novo desenvolvimento, uma nova biopolítica do comum.

A cultura e a produção artística têm uma contribuição decisiva neste campo. Podem estar no coração de uma estratégia renovadora de inserção eficaz dos países emergentes na globalização e na economia do conhecimento.

As trocas internacionais de bens e serviços culturais movimentaram, segundo a ONU, cerca de 1,3 trilhão de dólares em 2005. No Brasil, a economia da cultura responde por 5% do PIB; nos EUA, 7%.

É a atividade econômica em que os países emergentes apresentam maior diferencial competitivo, em quantidade, qualidade, diversidade e intensidade, com uma incomparável capacidade de reciclagem e renovação.

É ainda a atividade econômica que apresenta o maior potencial de crescimento nos próximos anos, segundo vários estudos.

Como o Brasil vai se situar neste cenário? Me parece óbvio que podemos e devemos atuar primordialmente como produtores e exportadores de conteúdos culturais, e não apenas como consumidores.

Ao lado da biodiversidade, a semiodiversidade constitui o grande patrimônio, a maior riqueza de países como o Brasil, obra e graça de uma história pródiga na mistura de genes e de valores, de saberes e de hábitos.

Como em outras atividades, o problema aqui é passar de fornecedor de matéria-prima e mão-de-obra para fornecedor de produto industrializado de alto valor agregado. Deixar de ser só locação, e de exportar diretores, para exportar filmes capazes de conquistar os mercados internacionais.

Filmes que tenham a nossa cara, que carreguem nossos valores, nossas vivências, nossos sentimentos. Que gerem emprego, renda, diversão e senso de pertencimento, aqui: e que espalhem o Brasil way of life no mundo.

Para isso, devemos desenvolver aqui uma indústria cultural própria, dinâmica, plural e inclusiva, baseada em criadores, meios e valores singulares, com grande capacidade de produção e distribuição, assim como de intercâmbio. Mais produção significa menor custo e mais consumo.

Os bens culturais, como se sabe, são produtos especiais, que associam valor material e simbólico, impactando outros produtos e atividades econômicas, estimulando a inovação e qualificando o capital humano das sociedades.

Além disso, as novas tecnologias digitais transformam profundamente a produção e a difusão de bens culturais, barateando custos em todos os elos de suas cadeias produtivas, reduzindo percursos e ampliando o seu alcance, permitindo um ambiente colaborativo, comum, a exemplo do software livre.

As atividades culturais geram renda e emprego em grau crescente. A globalização e a tecnologia derrubam barreiras para a circulação de seus produtos, que são ambientalmente corretos e resultam em prazer e identidade. O conceito de “duplo win” encaixa-se perfeitamente aqui.

Há algo que tenha mais a cara de uma nova globalização, de um novo desenvolvimento, de um novo capitalismo, do que a economia da cultura? Do que filmes, games, peças, músicas, quadros, softwares e objetos “crossover”, que incorporam várias mídias, ou linguagens, na mesma obra?

Há algo que tenha mais a cara de uma era do conhecimento, de um processo dinâmico de colaboração, de diferenciação, de inovação e de agregação de valor, do que a economia da cultura? Do que design, arquitetura e moda?

Os obstáculos macroecômicos e macropolíticos para o desenvolvimento pleno dos países emergentes, no início do Século 21, indicam claramente que o remédio para os males da democracia é mais (e melhor) democracia.

E o remédio para os males do capitalismo, do mesmo modo, talvez seja mais (e melhor) capitalismo: igualdade de oportunidades, isonomia competitiva, valorização do espírito empreendedor, inclusão ao consumo e à produção.

Quando incentivamos a economia da cultura no Brasil, valorizamos os artistas e os eventos locais, apoiamos a exportação de bens culturais brasileiros, promovemos a inclusão digital, fomentamos a participação e estimulamos o software livre e a flexibilização dos direitos autorais e da propriedade intelectual, o que nos anima é isso: uma estratégia.

Uma estratégia de desenvolvimento para os países emergentes, baseada nas expressões culturais, nos produtos criativos, que entenda e aproveite a globalização e os fenômenos correlatos da contemporaneidade, para resultar em bem-estar e equilíbrio, para superar a estagnação e a intolerância.

Se você quer ser universal, fale de sua aldeia. Retomo literal e simbolicamente o conselho de um célebre escritor russo para resumir a idéia central desta fala. Para serem globais, os países emergentes devem ser o que são. Devem atuar no teatro planetário com seu próprio script.

Para suscitar novos processos de desenvolvimento, com uma perspectiva mais humanista e menos economicista, devem valer-se de seus ativos, da criatividade e da energia social de sua gente, de seus valores e expressões, de suas empresas e produtos, de sua subjetividade, livremente, transformando-os em vetores globais de ampla circulação.

A cultura pode ser o principal fator de desenvolvimento e de equidade no Brasil de amanhã. E este amanhã tem que ser construído a partir de hoje. Há vagas. Muitas vagas. Mas também há pressa. Quem se habilita?

Muito obrigado.

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