Com contrato já aprovado, filial do museu na cidade cria mobilizações, na visão de César Maia, de base políticas. Especialistas apontam “brechas no casco do Titanic cultural”Por Deborah Rocha
31/01/2003
Anti-Gugg
A começar pelo nome oficial – Museu Guggenheim-Hermitage-Kunsthistorisches-Rio – a filial carioca do renomado museu continua engasgada na garganta de muitos políticos adversários da decisão do prefeito César Maia. Apesar de ter recebido apelidos carinhosos, como Gugg-Rio ou Gugue, o movimento contra o novo museu, de acordo com o O Globo, ganhou força nos últimos dias, semana em que o conselho diretor da Fundação Guggenheim aprovou o contrato para a construção da filial do museu na cidade.
Segundo o jornal, no dia 28 deste mês, um ato na Câmara Municipal marcou o envio de uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pedindo que o governo federal não ceda o terreno na zona portuária para a construção do prédio. No texto, políticos contrários à obra dizem que a implantação do projeto vai exigir um investimento inicial de mais de R$ 1 bilhão, o que compromete a “já precária situação de nossa rede cultural”. Com mesmo argumento, no dia 29, um protesto promovido pelo PT, PSB e PCdoB no píer da Praça Mauá reuniu manifestantes contrários ao museu.
Titanic cultural
O Partido dos Trabalhadores, segundo informa o O Globo, encomendou ainda a duas especialistas uma análise do estudo de viabilidade preparado pela Fundação Guggenheim. A museóloga Maria de Lourdes Parreiras Horta, diretora do Museu Imperial, e a historiadora Maria Inez Turazzi, doutora em arquitetura e urbanismo pela USP, dissecaram as mais de 30 páginas do documento. Os comentários das duas técnicas são demolidores.
A filial é recheada de metáforas náuticas, já que o projeto do arquiteto francês Jean Nouvel lembra um navio atracado no cais. Maria de Lourdes e Maria Inez dizem que o empreendimento é “um grande naufrágio anunciado, megalômano e mal planejado”. Escrevem ainda que não é preciso muito pessimismo para se prever a herança que os cariocas vão receber na próxima década: “Uma grande carcaça enferrujada no fundo da Baía de Guanabara.”
Marca Rio
No relatório, as duas apontam várias “brechas no casco” do que chamam de “Titanic cultural” e criticam a taxa que o Rio terá que pagar pelo uso da marca Guggenheim. A má situação financeira do grupo leva a dupla a perguntar: “Qual seria o valor da ‘marca Rio’, que deveria hipoteticamente ser paga pela Fundação Guggenheim à cidade, considerando-se o valor agregado à sua marca internacional, que se amplia com a abertura de outras filiais e o aumento do público?”
SubserviênciaElas acreditam que a parceria entre a prefeitura e a fundação vai garantir a saúde financeira e empresarial do grupo americano, mas vai comprometer as finanças da cidade. E questionam a “inadmissível situação de subserviência” do governo municipal em um modelo de acordo que “dá plenos poderes de gestão e de política cultural a um organismo estrangeiro, no usufruto de equipamentos adquiridos e construídos com o dinheiro público”.
Política
De acordo com O Globo, a carta ao presidente Lula e o protesto promovido na Praça Mauá são liderados por adversários políticos do prefeito, que é do PFL. O nome que encabeça o manifesto é o do vereador Mario Del Rei, líder do PSB da governadora Rosinha Matheus. Também assinam o texto cinco secretários do partido e vários políticos do PT, do PCdoB e do PSC.
O prefeito Cesar Maia vê motivações políticas no movimento. “É uma mobilização de base política tendo em vista as eleições de 2004 e o impacto desta decisão. O Guggenheim é um projeto múltiplo de renovação urbana, identidade internacional, centralidade cultural e desenvolvimento econômico”, argumenta o prefeito ao jornal.
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