Presidente da Agência Nacional do Cinema afirma que a produção nacional também precisa de espaço na TV e nas salas de exibição, mas é preciso saber “qual o nível de intervenção”Por Israel do Vale
Enviado especial a Brasília
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15/10/2003
O cineasta Gustavo Dahl participou ativamente do processo de discussões que levou à criação do Gedic, o Grupo Executivo para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica, embrião da Ancine, a Agência Nacional de Cinema. Está à frente da agência desde sua implantação, no ano passado _ainda, portanto, sob o governo Fernando Henrique Cardoso. Sua permanência no novo quadro é incerta. Para ele, que reconhece a necessidade de revisão dos rumos e acredita poder contribuir com as novas diretrizes, a principal questão agora é saber “qual o nível de intervenção que se quer na área do conteúdo audiovisual brasileiro na televisão”.
Cultura e Mercado – O que o sr. considera que muda a partir de agora no trabalho de vocês?
Gustavo Dahl – Acho que a modificação está sinalizada, mas ainda não está formalizada. Então a primeira coisa necessária é a formalização do sinalizado. Segundo: a agência executa políticas. Quem define políticas é o Conselho Superior, agora do Cinema e do Audiovisual. É preciso que essas políticas sejam definidas. O que muda é esta espécie de indefinição que se estende desde janeiro. Ela [a política] estando definida, o processo avança. Avançam etapas. Eu acredito que todo mundo já percebeu que é necessário redesenhar o modelo. Isso nas estatais, no Ministério da Cultura, na própria Ancine. Então eu sinto muito mais que são portas se abrindo do que se fechando. Agora, a gente precisa ver por onde vão esses caminhos. Eu acho que de qualquer maneira, há uma ampliação da abrangência conceitual da Ancine e uma elevação da interlocução política, afinal estavam aqui o presidente da República, o chefe da Casa Civil, os ministros. A gente sente que a atividade cresce.
C&M – Há uma mudança de status?
GD – Eu acho que há uma… Não. Status nunca faltou. Você imagina: uma agência vinculada à Casa Civil da Presidência da República tinha muito status e o Conselho Superior de Cinema tinha presença do ministro. O que houve é, digamos assim, uma ampliação desses espaços. É um espaço geográfico mais amplo que é ocupado.
C&M – Quando o sr. fala em redefinição de rumos, está se referindo a quê?
GD – Primeiro, é preciso saber qual o nível de intervenção que se quer na área do conteúdo audiovisual brasileiro na televisão. É preciso saber qual será a modificação nos mecanismos de fomento nas estatais, que tanto o ministro Gushiken como o ministro Gil sinalizaram. Eu acho que, sobretudo, a gente já sabe que é preciso uma intervenção na área da distribuição e é preciso fazer com que a exibição cresça. Então, você precisa de espaço na televisão, na exibição, na distribuição, uma modificação da produção e uma inserção do cinema brasileiro dentro da sociedade. É uma política nova.
C&M – Em que isso é diferente do processo que vinha sendo conduzido? Se eram pontos importantes, não deveriam…
GD – Não é uma diferença, é uma transformação. O processo vinha sendo conduzido em relação, sobretudo, ao cinema e à televisão por assinatura. E vai continuar. Agora se agregam novos pressupostos e novas áreas de atuação.
C&M – O sr. vê disposição das emissoras abertas em terem maior abertura para abrigar o cinema nacional?
GD – Eu não tive ainda um contato… Não participei dos contatos com a televisão. Agora, de qualquer maneira, graças à importância que a televisão adquiriu este ano para o cinema brasileiro, com praticamente 95% dos resultados obtidos ligados a ela, a gente sente que é preciso reequilibrar a situação.
C&M – A Ancine foi consultada nesse processo de mudança para Ancinav?
GD – Não. Não, porque ele ainda… O projeto de lei colocado pela Casa Civil em consulta pública e para encaminhamento ao Congresso trata só da Agência Nacional de Cinema. Em relação a uma mudança efetiva, ela hoje foi adiada, então eu acredito que a partir de agora a Ancine possa ser consultada.
C&M – Não seria importante que…
GD – Eu acho que a Ancine tem uma contribuição a dar. A Ancine está dentro do relacionamento com as agências [reguladoras]. O governo optou por este caminho. Você viu o presidente Lula falando da questão do pluralismo, dizendo que o governo não sabe tudo, nem pode tudo. Eu acredito que o processo termina incorporando várias contribuições.
C&M – Uma das implicações insinuadas pela mudança para Ancinav é o término dos mandatos. O sr. acha que…
GD – Isso é uma coisa que precisa ser vista do ponto de vista jurídico. Eu acredito que um tratamento diferenciado para a Ancine poderia criar um precedente perigoso em relação a outras agências. A Ancine pode perfeitamente ser transformada sem ser distinta. Que se agreguem atribuições e competências a ela. Agora, de qualquer maneira eu acho que processo inclui o legislativo também. Não é só um processo executivo. Mesmo a medida provisória não se define só no executivo. Não é com dois tapas que se…
C&M – O seu sentimento é de que o comando da Ancine vai ser mantido ou deve mudar?
GD – Isso você tem que perguntar para quem tem a caneta na mão. Eu estou só dando minha contribuição.
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