Hollywood aposta no crescente mercado consumidor chinês

Durante anos, o herói nacional das telonas chinesas, conhecido como Monkey King, teve de competir com a crescente influência de um camundongo norte-americano chamado Mickey Mouse. Enquanto Walt Disney e outros estúdios estrangeiros tentavam entrar no mercado cinematográfico chinês e uma nova Disneylândia ia sendo construída em Shangai, a influência de Mickey se fortalecia. Mas Monkey King ainda tinha cartas na manga.

A China é hoje o segundo maior mercado de cinema do mundo, só fica atrás dos Estados Unidos. O país tem uma indústria nacional em ascensão, que produz desde dramas históricos até comédias românticas. Porém, os grandes lucradores deste mercado são blockbusters vindos de fora.

Ainda que a maior parte dos filmes seja pirateada durante a estreia e assistida pela internet ou em DVDs ilegais, as classes em ascensão estão cada vez mais dispostas a desembolsar dinheiro por uma noite no cinema.

Em 2011, a venda de ingressos na China cresceu mais de 30% em relação ao ano anterior, para mais de US$ 2 bilhões, de acordo com a MPAA (Motion Picture Association of America). O número de salas de cinema na China dobrou em cinco anos para aproximadamente 11 mil. Nesse passo, a receita da bilheteria chinesa pode ultrapassar a americana até 2020.

Apesar do forte crescimento do mercado, que faz brilhar os olhos da indústria americana, o país asiático não irá conceder o acesso que Hollywood deseja. Até recentemente, apenas 20 filmes estrangeiros podiam ser exibidos em cinemas chineses a cada ano. Em fevereiro, o número aumentou para 34, isso, no entanto, se as 14 obras extras forem apresentadas em formato 3D ou large.

Para garantir que seus filmes sejam exibidos na China, os estúdios americanos estão utilizando outra estratégia: procurando parceiros chineses. Co-produções não são classificadas como importação e, por isso, não precisam obedecer à cota. Além disso, elas têm mais sorte com a distribuição pelo país.

Já existem co-produções em andamento. O estúdios Disney anunciaram recentemente sua primeira parceria com a DMG Entertainment, em Beijing, para produzir o terceiro filme da franquia “Iron Man”, estrelada por Robert Downey Jr. Semanas atrás, durante visita ao Festival Internacional de Cinema de Beijing, o diretor James Cameron disse estar procurando por oportunidades no país para possíveis sequências do filme “Avatar”, realizado por ele.

A película continua sendo a maior bilheteria de todos os tempos na China (e no mundo). O público chinês também nutre simpatia por outro filme do diretor, “Titanic”: a versão 3D da obra, lançada há pouco, levou US$ 105 milhões nas duas primeiras semanas de exibição, o dobro do que arrecadou no mesmo período na América do Norte.

No entanto, os acordos entre Hollywood e a China ficaram marcados por uma acusação de corrupção. Em 24 de abril, a agência de notícias Reuters informou que a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA iniciou uma investigação sobre supostos pagamentos ilegais de estúdios americanos a oficiais chineses.

Além desta, existem outras dificuldades na China. Da barreira da língua para contratar o elenco – cujo uma porcentagem tem de ser chinesa – até a adaptação dos filmes, que em alguns casos tem que evitar ofender o país, mesmo quando os filmes não são co-produções. O exército invasor em um remake de “Amanhecer Violento” (Red Dawn, 1984) foi trocado de chinês para norte-coreano na pós-produção.

Mas fazer um filme que agrade, ao mesmo tempo, o público chinês e o ocidental é uma tarefa complicada. O remake de “Karate Kid” de 2010 trocou o karate japonês pelo Kung Fu. Mesmo assim o filme teve um mau desempenho na China, onde a audiência não comprou a versão bully de um garoto chinês.

Além disso, existe a dúvida sobre o que a necessidade de aprovação do governo chinês vai fazer à qualidade das co-produções feitas para o mercado americano. Dan Mintz, diretor da DMG Entertainment em Beijing e co-produtor de “Iron Man 3”, descreve a China como a salvação de Hollywood e, ao mesmo tempo, seu pior pesadelo.

As futuras co-produções não serão necessariamente gravadas no país, mas devem ser financiadas por capital chinês. Os filmes co-produzidos serão avaliados por censores nas fases de roteiro e pós-produção. As obras devem obedecer aos trâmites sob o risco de serem devolvidas, o que seria um suicídio visto de um olhar mercadológico, numa indústria onde nove-décimos do lucro vem das receitas do box-office (nos EUA, este número é perto de 30%).

O discurso do governo chinês sugere que o novo mercado doméstico precisa de proteção contra importações americanas, pelo menos por tempo suficiente para que ele se fortaleça.

O remake de “Havoc in Heaven” em 3D, estrelado por Monkey King, estreou em janeiro e arrecadou apenas US$ 8 milhões nas bilheterias, enquanto “Kungu Fu Panda 2”, da Dreamworks, fez mais de US$ 90 milhões. Apesar do camundongo ser comercialmente poderoso, o macaco tem burocratas a seu lado. E, por enquanto, eles são mais fortes.

Para ler a versão original da reportagem, em inglês, clique aqui.

*Com informações da revista britânica The Economist

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