I Fórum Nacional de TVs Públicas, que vai até o dia 11 em Brasília, firma-se como espaço privilegiado e aberto de participação para mudanças na história da televisão no Brasil.
Começa nesta terça-feira, 8 de maio, e estende-se até sábado, 11, o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em Brasília. O que vem sendo formulado articuladamente entre associações de televisões educativas, comunitárias, universitárias, entre outras entidades, Ministério da Cultura, Radiobras e Casa Civil desde agosto do ano passado, será debatido nesta semana. Do debate, deverão surgir resoluções acabadas e outras tantas que serão encaminhadas.
Não bastasse questões ligadas a novas tecnologias, como a migração para o sistema digital, tanto na produção quanto na transmissão da programação, há outras demandas da agenda política que são reivindicações históricas e que ainda não foram debatidas numa plenária com a dimensão deste fórum que ora se realiza, como a proposta da criação de uma Rede de Tvs Públicas, por exemplo. “Existe uma grande demanda por debater TV Pública em todo o Brasil. Isso estava retesado, pois não existia diálogo”, contextualiza Adriano D’Angelis, que foi coordenador do Fórum de TVs do Fórum Social Mundial de 2005 e hoje dirige a TV Brasil – Canal Integración, projeto dos três poderes do Estado exibido na América do Sul.
A quem serve a mídia?
Os diversos atores envolvidos no debate apresentam questionamentos antigos e novos do setor que perpassam questões ligadas à função social da mídia, ao modelo de TV pública existente e o desejado, ao impacto das novas tecnologias e ao modelo de TV digital adotado pelo Brasil. A deputada federal Mariângela Duarte (PT – SP), por exemplo, questiona “a quem serve a mídia, considerando que ela é uma concessão pública e não propriedade de alguns poucos?”
A grande questão do momento é que tipo de modelo de TV Pública queremos? “Qual modelo dialoga com os desafios que temos hoje? Quando se fala na criação de uma TV Pública, dizem muito que essa TV precisa ser criada a partir das estrutura já existentes. A questão é como conectar tudo isso”, acredita D’Angelis.
O coordenador de Cultura Digital do MinC, Cláudio Prado, afirmou, em entrevista ao repórter Carlos Minuano, que “é preciso olhar para as possibilidades de interatividade de comunicação e de regulação da canalização de uma forma totalmente nova, usando as possibilidades que a tecnologia traz para aumentar e democratizar o acesso à informação estabelecendo um novo paradigma nas comunicações e no acesso”.
Mas quem acha que o Fórum de TVs Públicas é um evento circunscrito a estes quatro dias de debate em Brasília, engana-se. De acordo com a organização, em sua primeira fase preparatória, o processo do Fórum permitiu a elaboração de um diagnóstico dos diversos segmentos do campo público de televisão, cuja síntese foi reunida na publicação do Volume 1 do Caderno de Debates.
Na segunda etapa, visando ampliar o arco institucional envolvido no debate, foram criados 8 Grupos Temáticos de Trabalho para aprofundamento da discussão em torno do diagnóstico produzido. O resultado desta etapa é expresso nos relatórios finais dos GTs, que estão disponíveis na publicação do Volume 2 do Caderno de Debates – Relatórios dos Grupos Temáticos de Trabalho (leia a versão integral).
Com base nas discussões precedentes, dezenas de associações e entidades definirão os rumos de uma nova TV Pública. “Uma série de organizações que vêm debatendo a democratização da comunicação do Brasil viram uma possibilidade real de dialogar nesse momento. A sociedade espera que surja a partir de agora uma nova relação entre a TV Pública e ela”, diz D’Angelis.
TV multimídia
O fórum abre, já nesta sua primeira edição, a possibilidade de acompanhamento e interação virtuais por meio de um portal (acesse aqui) que permite aos usuários a criação de blogs multimídia para acumularem propostas e repercussões sobre os temas dos grupos de trabalho. Uma destas contribuições, já no ar, vem em forma de um video intitulado “A televisão não será revolucionada?” e traz alguns elementos para o debate: “você não escolhe mais o que quer ver. Você vê o que lhe mostram, o que querem que você veja”, afirma a moça do vídeo em sua razão. “O povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe”, já disse Gil. “Se alguém tirar da Nick (canal de desenhos estadunidense), chore!”, grita Bob Espoja aos prantos. E “nós só mostramos o que está acontecendo no país”, tenta justificar Datena sobre um Brasil Urgente!
“Este Fórum é de fundamental importância, ele nasce de lacunas que surgiram no processo de criação da TV digital brasileira que omitiu várias questões em seus debates. Discutimos exaustivamente que modelo de televisão queremos. Afinal, o que é uma TV pública digital? Ela não é uma conseqüência direta e natural da TV analógica, assim como o computador não foi conseqüência da máquina de escrever”, afirma Cláudio Prado, um dos representantes do MinC no comitê gestor da TV digital.
Segundo ele, não se pode olhar para a TV que existe no ar hoje como se ela fosse continuar a mesma, “isso seria retrógrado, seria pensar de uma maneira absolutamente burra”. No caso da TV pública, Prado acredita ser necessário aproximar a televisão e a internet, buscando uma simbiose entre elas: “Não há mais razão tecnológica para separar uma coisa da outra. A TV Pública precisa ser conjugada com a Internet”.
Diálogo aberto
Adriano D’Angelis não esconde seu otimismo: “o mais importante é que percebemos que estamos no processo de amadurecimento da democracia. Os níveis de participação são diferentes, mas todos têm a possibilidade de se organizar e participar desse processo. O debate não será mais uma vez retesado”.
Segundo ele, isso poderia acontecer em qualquer momento da história recente. Mas seria inegável entender que houve percepção e vontade de alguns setores desse governo (Ministério da Cultura, Radiobrás e Casa Civil), sem tirar o crédito e toda a responsabilidade da sociedade civil pela articulação.
A TV Brasil, gerenciada pela Radiobras, tornou-se um exemplo, sem querer ser o único, que surge da perspectiva de que gerar uma grade de programação não significa ter de produzir todo o conteúdo. “Não precisamos criar tudo novo, basta identificar o que tem de melhor em tudo. Depois de um mapeamento, é só organizar”, pontua Adriano.
A rede de colaboradores composta pela TV Brasil é de TVs educativas, comunitárias, públicas, privadas com fins públicos, cinematecas, produtores independentes, universitárias, de todo o Brasil e América do Sul. “Temos que partir de uma reflexão de TV Pública com a reflexão do Estado e não de um governo, para avançar na relação com a sociedade, com mecanismos de diálogo. Isso vem de uma reflexão de que uma rede pública precisa de visão do Estado enquanto representação da sociedade”, acredita o diretor do projeto no ar desde 2005.
Para participar do Fórum basta efetuar cadastro no Portal do Fórum Virtual (acesse aqui). A cobertura multimídia detalhada dos debates pode ser vista no site da Agência Brasil (acesse aqui). Cultura e Mercado acompanhará à distância os principais debates do Fórum.
Carlos Gustavo Yoda