A necessidade da organização de informações para a gestão de políticas culturais ainda vem sendo ignorada
Nesta oportunidade proponho a reflexão e o debate sobre a delicada questão da (des) informação que assola a gestão de políticas de cultura, e cuja necessidade de coleta e organização é uma preocupação que, felizmente, vem conquistando espaço na política federal e no terceiro setor. Mesmo porque, dificilmente há gestão sem informação sobre seu objeto.
Este é um assunto complexo, longe de se esgotar nestas superficiais observações, mas que, independente deste ou daquele objetivo, é deficiente nas esferas locais. Essa deficiência é causada por motivos que passam pela dificuldade em coletar e sistematizar, pela intenção do desconhecimento (em alguns casos, conveniente), pela cultura das “caixas-pretas” presentes no serviço público e pela falta de importância destinada à organização das informações, que pode ser deixada para depois assim como outras ações subsidiárias da gestão.
As carências de informação na área pública vão das básicas e internas (para que servem, para quem são destinados e qual o real alcance dos serviços), às mais complexas, que por ignorância ou sob a justificativa de serem dispendiosas financeiramente têm sua necessidade ignorada (pesquisas de práticas culturais, atuação do terceiro setor nas cidades, dinâmicas do mercado). Há de se convir que uma pesquisa considerada cara pode ser coberta pelo custo de um show de médio porte.
A lacuna causada pela deficiência ou ausência de informações internas também faz com que sejam implantados “novos projetos”, semelhantes aos de gestões anteriores, sem avaliação e conseqüentes ajustes para sua melhor sustentação. Na melhor das hipóteses, existem vagas lembranças na mente de pessoas que porventura tenham testemunhado o desenvolvimento do projeto, porém, geralmente insuficientes e fragmentadas.
Mesmo a valiosa coleta informal, como a realizada por agentes culturais em conversas com frequentadores de espaços culturais e de seu entorno, quando não sistematizadas e registradas, perdem-se no tempo. Memórias não são eternas…
Considerando as informações externas, além do trabalho realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte (1º Diagnóstico da Área Cultural de Belo Horizonte), presenciamos algumas iniciativas isoladas como a realização de Censos Culturais que mapeiam a produção e equipamentos culturais, mas raramente presenciamos a potencialização e mesmo a utilização das mesmas. Dentre os motivos causadores, nossa velha conhecida “descontinuidade de projetos iniciados na gestão anterior”.
Além das informações internas e externas necessárias à gestão, também testemunhamos a ausência de informações da gestão para a população, da gestão com a população e da população sobre a gestão.
Raramente vemos a tão discursada transparência sendo posta em prática. E não se trata de divulgação da programação ou de números resultantes da “multiplicação dos públicos”, mas dados sobre a distribuição de orçamento dentro das secretarias, projetos, seus objetivos e reais resultados, e na outra ponta, a avaliação dos cidadãos sobre o trabalho realizado, informações estas de fundamental importância para que haja a também tão falada participação popular.
Também não se trata da redução ou limitação dos resultados de ações culturais a números ou palavras, mas de subsídios indispensáveis quando estamos intervindo em determinado setor (e políticas públicas são intervenções, preferencialmente legitimadas por diálogos com seus beneficiários).
De qualquer modo, seja qual for a informação a ser organizada temos que saber por que e para quem a queremos organizar, pois disso depende sua sistematização, ou teremos pilhas e pilhas de papéis ou bytes e bytes de arquivos de dados sem uso.
Sem informação, a tomada de decisões e definição de prioridades são realizadas às cegas, daí a necessidade de atenção, por menor que seja, à sua organização. Um serviço silencioso, quase invisível, por vezes dolorido, e que necessita planejamento e reflexão para resultados em longo prazo, porém de fundamental contribuição àqueles que desejam realizar um trabalho construtivo e participativo.
Simone Zarate