Informe pós-crise - Cultura e Mercado

Informe pós-crise

?A TV hegemônica tinha interesse em criar uma turbulência na área levando ao enfraquecimento de Gushiken?Acabamos de passar por mais uma turbulência política na área cinematográfica e estamos prestes a retomar o diálogo organizado do cinema com o Governo, contornando o desconforto da situação vivida e partindo para a retomada de nossas ações.

Causado por uma grande demora na concretização das ações do novo governo para reinício das atividades cinematográficas, quanto aos incentivo através das empresas estatais, procurou-se por alguns caminhos fazer ver ao governo que qualquer paralisação do cinema, ou mesmo retardamento das ações, traria prejuízos pelo hiato que poderia provocar neste momento auspicioso que vive o cinema brasileiro em sua retomada do diálogo com o público e pela cumplicidade crescente que a sociedade brasileira tem demonstrado com relação à nossa produção cinematográfica. Para isso, contatamos diversas instâncias governamentais, chegando mesmo a ter um encontro com o presidente do PT, José Genoíno, que se comprometeu a nos apoiar.

Mais um desencontro se deu entre as visões dos cineastas, provocado pela entrevista que Cacá Diegues deu ao Jornal o Globo criticando o que denominou de ?dirigismo? do governo, esboçado na orientação que a Secom recomendava às empresas estatais na escolha dos projetos culturais para incentivar. Nessas orientações falava-se também da exigência de contrapartidas sociais dos projetos a serem aprovados. Essas recomendações se transformaram em normas divulgadas nos sites da Eletrobrás e de Furnas.

A visibilidade que O Globo deu a essa polêmica, reforçada pela cobertura da TV Globo em horários nobres, surpreendeu a classe cinematográfica que, num primeiro momento, atribuiu esse interesse no fato de projetos da Globofilmes estarem passando na BR por um reexame do montante a ser destinado, propondo em um dos casos redução pela metade.

No entanto análise mais fundamentada a partir de informações privilegiadas nos trouxe a seguinte informação: a TV Globo era o único dos canais que não havia aceito os novos procedimentos da Secom, introduzidos pelo [secretário de Comunicação e Gestão Estratégica Luiz] Gushiken, segundo os quais se estabelecia o montante correto ao qual o market share da emissora fazia jus, ou seja 50% do bolo total da verba publicitária, e não os 75% que ela vinha recebendo indevidamente. Além disso, o ministro também suprimiu o chamado BV, Bônus de Venda, que é uma espécie de gratificação que a emissora repassa às Agências, com isso conseguindo a Secom levar a uma grande economia para os cofres públicos.

Daí, segundo essas análises, a TV hegemônica tinha interesse em criar uma turbulência na área levando ao enfraquecimento do [secretário] Gushiken para facilitar suas negociações. E o cinema acabou oferecendo a oportunidade para isso, e recebeu aquela cobertura desproporcional, que levou o presidente Lula a reunir extraordinariamente os dois ministros, da Cultura e da Secom, ordenando que solucionassem a crise. Os dois, reunidos com Cacá e alguns cineastas do Rio de Janeiro, acertaram que a política cultural para os incentivos ficaria sob a responsabilidade apenas do MinC, combinaram de pedir às estatais que retirassem do site os critérios anunciados e aguardassem, e fosse iniciado um trabalho do MINC de consultas e propostas para reformular os critérios a serem discutidos com as Estatais.

Na quarta-feira passada, o presidente da Eletrobrás marcou uma reunião com os cineastas, na sede da empresa, na qual participaria também o Presidente de Furnas.

Cheguei a tempo de participar, juntamente com Murilo Salles, Luiz Carlos Barreto, Paula Barreto, Marieta Severo e Marco Nanini. O Presidente da Eletrobrás, considerou que tudo havia sido deflagrado porque ele havia exposto as normas para a seleção dos projetos no site, possibilitando o conhecimento da classe. Agora havia sido retirado o conteúdo. […]Além dos presidentes das estatais, estavam [presentes] alguns assessores, inclusive o responsável pelos projetos sociais que cuidaria das decisões quanto à sua aprovação. Por diversas vezes esse diretor reiterou que considerava os critérios criticados como corretos. O Presidente da Eletrobrás informou que a empresa deve ter por volta de R$17.000,000,00 para investir em projetos culturais neste ano, nos diferentes segmentos culturais. Participaram também o ministro em exercício, Juca Ferreira, e o assessor do Ministério, Paulo Miguez.

Em minha intervenção, reafirmei nossas propostas de transparência de critérios, democratização do acesso aos incentivos, regionalização da aplicação dos recursos, desconcentração nos proponentes, etc. Realcei nossa grande preocupação de que pudesse haver um atraso no andamento nas decisões sobre aprovação dos projetos, causando a paralização de nossa atividade.

Como eu estava convocada pela SAV (Secretaria do Audiovisual) para no dia seguinte participar de uma reunião na delegacia do MinC no Rio, com representantes do Canal Brasil, da Anatel, do Conselho de Comunicação Social e de membros da Comissão de Televisão do CBC, tive que pernoitar no Rio e fui nessa noite à assembléia que os cineastas que haviam participado da reunião com os dois Ministros convocaram para a classe artística em geral, com a participação do ministro em exercício e do assessor especial do MinC. Na assembléia, os diferentes setores da Cultura apresentaram suas proposições ao Ministério.

No dia seguinte, surgiu a manifestação de quase 50 cineastas que contestavam os termos da entrevista do Cacá ao jornal e desautorizava os cineastas que estiveram com os dois Ministros de representá-los, afirmando que apenas as entidades tinham delegação para fazê-lo e consideravam legítima a exigência do governo para a contrapartida social.

O MinC manifestou a disposição de encontrar-se com os representantes desses cineastas, e dispôs-se a marcar imediatamente uma reunião. Durante a exposição que o Secretário Orlando Senna realizou no Festival do Ceará, os cineastas presentes solicitaram unanimemente que as reuniões do MinC, fossem realizadas sempre em Brasília, por ser a capital política. O secretário comentou que poderiam também ser realizadas reuniões regionais nos diferentes Estados.

Ainda nessa reunião foi proposto que se estabelecesse o modus de representação da classe para interlocução efetiva com o MinC e que fosse através do CBC, garantindo a presença regional. O Secretário afirmou que vê também a necessidade de levar-se em consideração algumas representações de personalidades.

Tudo parece que se encaminha para uma solução. No entanto permanece a questão: retomar imediatamente os investimentos nas atividades e projetos e eventos audiovisuais para não abrir hiato nocivo à continuidade do sucesso que vínhamos vivenciando neste momento.

Copyright 2003. Cultura e Mercado. Todos os direitos reservados.

Assunção Hernandes

Acessar o conteúdo