Instituto Casa do Choro terá sede fixa após 10 anos

Até 1969, ano em que sofreu um fulminante ataque cardíaco na porta de casa, em Jacarepaguá, Jacob Pick Bittencourt, conhecido de todos por Jacob do Bandolim, tinha uma preocupação megalomaníaca em documentar suas gravações e preservar a história do choro.

Mesmo atraindo crescentemente o interesse de jovens, o gênero surgido em meados do século 19 – com o “pai” Joaquim Callado, entre outros – ainda é visto por muitos como uma “música do passado”. O País inteiro o pratica, com seus diferentes sotaques. São Paulo tem uma cena fortíssima, Brasília orgulha-se do lendário Clube do Choro, mas é o Rio que se gaba de ter uma instituição voltada exclusivamente em ensinar o choro a novas gerações e passar sua tradição adiante.

Seguindo o exemplo de Jacob, o Instituto Casa do Choro, responsável legal pela Escola Portátil de Música (EPM), iniciou recentemente as obras de sua nova sede. O casarão, situado no número 38 da Rua da Carioca, no Centro, havia sido cedido à instituição pelo Estado do Rio, por meio do Termo de Uso de Imóvel, em outubro de 2009. O contrato estabelecido com o governo é de 20 anos, com possibilidade de ser renovado. “As obras, felizmente, começaram agora. Temos um terço da verba conseguida com a Petrobras para a reforma. Se conseguirmos toda a verba, sem ter de parar as obras por falta de dinheiro, a previsão é de inaugurarmos a Casa do Choro no segundo semestre de 2012, mas ainda estamos atrás de mais patrocinadores”, diz a cavaquinista Luciana Rabello, uma das fundadoras da Escola Portátil de Música.

O trabalho não será pouco. Apenas a fachada será mantida, já que o imóvel é tombado. Por dentro, todo o espaço, hoje sucateado, será reerguido.

Uma década itinerante. A EPM surgiu em 2000, idealizada por Luciana, Mauricio Carrilho, Celsinho Silva, Pedro Amorim e Alvaro Carrilho com o objetivo de reunir jovens aos sábados para ensiná-los a linguagem do gênero da maneira que se deve, em uma roda de choro.

Coincidentemente, carregando no nome a pegada “portátil”, desde seu surgimento a escola foi levada de um lado para o outro, passando por diversas sedes improvisadas. Os encontros começaram na Sala Funarte. No ano seguinte, em 2001, professores e aprendizes tiveram de deixar o espaço, que passaria por reformas. De lá, seguiram para a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Até ali, continuava sendo um oficina de choro, sem ser um projeto formalizado e sem remuneração pra nenhum professor. Diante do imenso número de alunos, tivemos que profissionalizar mesmo e criamos a Escola Portátil de Música, que se tornou um projeto, incentivado pela Rouanet”, conta Rabello.

Depois, a EPM seguiu para o câmpus da Uni-Rio, na Urca, local que ainda receberá grande parte das aulas de instrumento da escola. “A sede vai abrigar parte das atividades da EPM. Não poderemos levar tudo pra lá porque não há espaço físico. Vamos manter parte das atividades na Uni-Rio, sobretudo porque a EPM é, por força de convênio, curso de extensão na graduação em música da universidade”, diz a cavaquinista.

À Casa do Choro caberão os cursos profissionalizantes e os teóricos, além do centro de pesquisa com mais de 10 mil partituras para consulta do público em geral e grande quantidade de material sobre a história do gênero. A sede também terá um teatro, um estúdio de gravação e um espaço para as rodas de choro.

Desde sua fundação, a EPM já recebeu cerca de 8 mil alunos. Para este ano, são 930 matriculados, entre eles muitos jovens que decidem encarar tal seara pela diversão, mas que também (mesmo que de forma inconsciente) carregam a tocha do choro adiante. “Fico muito satisfeita por não ficarmos sentados esperando uma ação paternalista do Estado. Claro que não ter nenhum respaldo objetivo e financeiro permanente é ruim porque não temos estabilidade e a cada ano ficamos à mercê de patrocínio para continuar. O choro sempre foi a mais importante escola de músicos do Brasil. A EPM é a nossa forma de contribuir para a formação de novos músicos de fato brasileiros”, explica.

À espera de patrocinadores a nova sede é uma aula de preservação do patrimônio e fundamental para que as futuras gerações saibam um dia quem foram Pixinguinha, Jacob, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Radamés Gnattali, K-Ximbinho, Joaquim Callado, Patápio Silva, Garoto, Sivuca, Villa-Lobos, entre tantos outros pilares da música brasileira.

*Com informações do Estadão.com 

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