
“E pensar não é somente ‘raciocinar’ ou ‘calcular’ ou ‘argumentar’, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece” (Jorge Larrosa Bondia)
Fato genuíno na cena contemporânea é o da juventude que se manifesta com reverberação notável por espaços para intervenção e expressão em suas comunidades, sobretudo quando pensamos cultura e educação como um encontro vivo – possível, palpável e obrigatório – não precipitando a uma condição utópica, pois, ao contrário, pode ser real e extremamente salutar, visto que a efetivação e potencialização de ações consequentes a partir do conhecimento e apropriação de ferramentas que proporcionam o “vir a ser” como um meio e não um fim, possibilitam uma real formação de jovens cidadãos aprendizes e artistas a emergir e transgredir conceitos e experiências sobre comunidade e sociedade[1] na cidade de São Paulo com consequências singulares, pois “o ser humano criou a cultura, realidade especificamente humana”[2].
A interseção em movimento e não hierárquica faz parte das relações entre os jovens e suas exposições no mundo contemporâneo. Sobrepondo-se a tudo isso, prognósticos resultantes a partir de uma re-união para apreciação crítica a respeito de métodos e tendências educacionais formativas e informativas em paralelo com correntes de ações artístico-pedagógicas diversas trazem à tona uma necessidade a curto prazo de um processo de (re)transfiguração, que já se encontra em projeção. Uma das formas de romper o processo de massificação típico dos tempos em que vivemos é a busca pela construção coletiva do conhecimento, com vetor atitudinal, derivando uma espécie de pedagogia “compartilhada” onde o foco metodológico surge a partir das vontades, necessidades e urgências de cada grupo, inserindo-nos também nestes grupos. Que discurso é este? Não seria difícil apontar as dificuldades e afinidades de busca e preocupação que envolvem as relações institucionalizadas na sociedade atual nestes âmbitos. Afinal, embora de interesse público, estabelece-se frequentemente uma ambiguidade que interrompe a linearidade de qualquer problematização a respeito destes temas.
O centro de ação gerador de transformação política torna-se possível e digerível através de uma camada etária estratégica neste âmbito: a juventude, mas não só, pois são aqueles que possuem uma disposição natural e espontânea para a arte. Faço questão de estabelecer aqui um viés de reflexão potencial a partir da inserção e imersão dos e nos jovens, que hoje deixa explícito uma configuração natural de permeabilização gestora dada pela vivência prática e pelas relações de todos os conteúdos a partir de terminologias obrigatórias nesta discussão: “identidade e alteridade”, “apreciação e reflexão crítica”, “escuta sensível”, “democratização”, “transparência”, “parceria”, “sustentabilidade”, “emancipação” e sobretudo “experiência”[3]. Apesar de alguns pensadores da atualidade afirmarem que vivemos em tempos “líquidos”, onde o que antes era concebido como “sólido”, não se sustenta mais (ações em âmbitos diversos), os jovens apresentam neste período formativo fundamentos e necessidades que dialogam diretamente com a busca por espaços de intervenção artística urbana (socialmente obrigatória) para execução de procedimentos a partir de metodologias que façam emergir (e não necessariamente descobrir) vocações e talentos dando-lhes voz, através de uma prática, seja individual ou coletiva, inclusiva e “sociabilizante” por natureza. Sobretudo numa cidade como São Paulo, única por suas contradições e instigante por se caracterizar como uma cidade em que a pluralidade do bem cultural extrapola as discussões ínfimas, fazendo transcender qualquer fator limitante, onde as velhas noções de centro e periferia já não se aplicam. Perpassando literalmente pelo fator das pessoalidades, há de se notar a capacidade de ação autenticamente autoral nas estratégias necessárias e colaborativas à implantação de uma ação local. Definidora de uma rede de integração e, concomitantemente, de comunicação potente, em todas as suas dimensões, mesmo que de forma paulatina, daqui a um tempo serão capazes de apontar múltiplas tendências (diversos bairros vocacionais – verdadeiros pólos de iniciativas pioneiras) que tornam concretas perspectivas consequentes em todos os desdobramentos, sejam criativos, imagéticos, sociológicos, antropológicos, etc.
Intimamente ligados às questões apontadas, com resiliências intrínsecas ao fazer, temos um quadro onde cidade, comunidade, sociedade, juventude, cultura e educação passam a existir como campo gerador de interseção e multiplicação que podem ser estabelecidos de diversas formas. Numa instância menor, uma discussão sobre mapeamento cognitivo e potencialidades de pesquisa a partir de diferentes estímulos baseados em “Os Olhos dos Pobres”, dos Pequenos Poemas em Prosa de Charles Baudelaire, ou “Omelete de Amoras” de Walter Benjamin, podem ser um exemplo. Por outro lado, num âmbito maior, efetiva-se uma cidade com jovens indivíduos que pensam e “dançam” com perspectivas transformadoras: de criação e ocupação da produção artística contemporânea em cada bairro da cidade de São Paulo; de formação de público; de democratização das ferramentas de trabalho; de abertura para novos grupos e entidades da comunidade na ocupação de espaços públicos próximos; de agregar valor cultural ao “cultivo” do espaço e civilização no “olhar” ao bem público; de novas condições de “lugar” que cada comunidade das diversas regiões da cidade podem ter (um início de revitalização cultural não só do bairro, mas da região). São perspectivas que não se fecham por aqui e outras tantas poderiam ser apresentadas, a partir de um estudo considerável, que confirmem do interesse público o valor de sua permanência.
Uma nova relação de ensino e aprendizagem através da cultura e educação surge do e no espaço da cidade, necessitando fruir o quanto antes para todos os campos, deixando para trás uma política de ação baseada em formatos herméticos verticalizados através da exacerbação do poder centralizador e da detecção de saberes como possibilidade unilateral e ao mesmo tempo dicotômica.
[1]BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
[2] BOFF, Leonardo. Identidade e Complexidade. In Ensaios de Complexidade. Coordenação de Gustavo de Castro et.al. Porto Alegre:Sulina, 1997.
[3] LARROSA, Jorge. “Notas sobre a experiência e o saber da experiência”. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, jan./abr. 2002.).