Encontro internacional sediado pela instituição reuniu especialistas da área para a discussão de diretrizes
SÃO PAULO – Um espaço de articulação e convergência de dados sobre o setor cultural. É para cumprir esse papel que está sendo criado o Observatório Itaú Cultural, que na semana passada realizou um encontro internacional para ajudar a orientar suas diretrizes. Diversos especialistas relataram suas experiências em observatórios culturais e órgãos similares que coordenam em seus países.
O Brasil possui atualmente o Observatório de Políticas Culturais da ECA-USP e o Observatório da Cultura do Minc. O do Itaú Cultural seria o primeiro ligado à iniciativa privada. Um dos pontos discutidos no encontro foi justamente como manter a ética de um observatório patrocinado por um banco. Paul Tolila, Secretário de Administração do Ministério da Cultura e Comunicação da França, salientou que a criação de um Observatório implica em uma mudança de posição da instituição, que atualmente faz “animação cultural”, o que significa que está dentro do movimento cultural, e não no papel de observador.
Alfons Martinell, Diretor Geral de Relações Culturais e Científicas da Agência Espanhola de Cooperação Internacional (AECI), também salientou que o Observatório assim representa uma mudança de mentalidade, em que observar passa a ser um problema, e não a solução. Mas houve um consenso entre os convidados de que a qualidade do trabalho que vier a ser desenvolvido, assim como sua disponibilização ao público, é que poderá defender a confiabilidade e a legitimidade do novo órgão.
Martinell destacou que o papel da cultura para o desenvolvimento econômico precisa ser analisado, pois faltam dados a respeito e sem eles, o setor cultural não tem base para defender seus interesses e contra-argumentar posições contrárias. Sua fala está bem sintonizada com o momento atual, em que as Indústrias Culturais vêm representando cada vez mais um papel importante para a economia de muitos países, e as Indústrias Criativas se destacam como estratégia de crescimento para os países em desenvolvimento, mas sofrem pela falta de estatísticas e informações que comprovem seu potencial. Tolila analisou que enquanto os países europeus pensavam a Cultura em sua legitimidade, os EUA pensavam nela como entretenimento e comércio, o que é fundamental para o desenvolvimento de qualquer país.
Durante todo o encontro, ficou nítido que a questão cultural há muito tempo deixou de ser setorial para se transformar em um eixo de desenvolvimento e democracia, como lembrou Gerardo Caetano, presidente do Centro UNESCO de Montevidéu (Uruguai). Paul afirmou que a Cultura se tornará cada vez mais um fator de competitividade na economia e de inovação para as sociedades, assim como um dos indicadores do desenvolvimento de um país. Ressaltou ainda que se a Cultura se constrói como um setor, é importante trabalhar a questão dos empregos, inclusive como argumentação junto aos politicos, que consideram com atenção o peso econômico dos diferente setores.
A postura dos profissionais da área cultural recebeu algumas críticas. Martinell afirmou que muitas ações nessa área são realizadas visando o prestígio institucional, e não o impacto real que elas podem causar para a sociedade. Disse também que algumas políticas públicas nessa área são impossíveis de serem atingidas, citando como exemplo estabelecer um aumento em porcentagem para o índice de leitura de um país (no momento em que os Ministérios da Cultura e Educação do Brasil acabam de lançar o PNLL – Plano Nacional do Livro e Leitura, que tem como uma das metas aumentar o índice nacional de leitura em 50% até 2008).
Tolila seguiu na mesma direção, ao dizer que os artistas estão interessados em fazer sua arte, mas não em observar o setor cultural. Afirmou que tanto para eles como para o público, está faltando a ação de pensar a arte e a cultura e que existe atualmente uma “teologia dos números”, em que indicadores sem sentido são criados para justificar os números que se querem apresentar. Como exemplo, citou que a última pesquisa sobre o perfil de leitores feirt no Brasil teve como um de seus indicadores o peso do papel por leitor. Essas críticas vão de encontro a outras feitas por profissionais da cultura em recentes matérias publicadas por Cultura e Mercado, que têm apontado para o individualismo das diferentes áreas artísticas que compõem o setor cultural e a falta de articulação das mesmas.
Eduardo Saron, Superintendente de Atividades Culturais do Itaú Cultural, informou que o Observatório, em conjunto com outras instituições, já vem levantando dados sócio-econômicos referentes ao setor cultural brasileiro, que serão “traduzidos” e colocados à disposição do público e dos profissionais da área. Segundo ele, a idéia é convergir energias e publicar reflexões sobre esses dados, o que irá acontecer ainda em 2006.
No decorrer dos anos, o Itaú Cultural vem realizando algumas atividades que mesmo não tendo objetivos tão amplos como os do Observatório, parecem indicar uma vocação para um trabalho de levantamento e reflexão de dados sobre algumas áreas culturais. Exemplos são as enciclopédias de artes visuais e de teatro, que se tornaram referências para essas atividades, e a base de dados Rumo Danças, um abrangente levantamento da área em 60 cidades brasileiras.
Uma opinião geral foi a de que o Observatório deve ser articular com a iniciativa privada, órgãos governamentais e sociedade civil, assim como contribuir para a formulação de politicas públicas para a área da cultura. Tolila comentou que se a iniciativa de um Observatório de Cultura mantido por um banco fosse em seu país – a França – seria considerada estranha, mas que em um país carente de políticas culturais como o Brasil, o empreendimento pode ser melhor compreendido.
Levando em consideração a queixa de longa data da área cultural brasileira da ausência de políticas públicas para esse setor, a necessidade de ações fora da esfera governamental tem fundamento, e nesse sentido, o Observatório Itaú Cultural pode realmente contribuir. Os primeiros resultados dirão se a promessa será concretizada.