#JornalismoCultural

Há tempos desejo escrever este assunto, mas sempre esbarrei na dificuldade de abordá-lo com a abrangência e complexidade que o tema merece nas poucas linhas deste “começo de conversa”. De outro lado, sinto-me inserido no contexto que pretendo analisar, o que dificulta a leitura dessa questão.

Participei semana passada do Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, promovido pela Revista Cult em parceria com o Sesc-SP, e acredito que o material disponibilizado no site do evento poderá oferecer um vasto material para quem deseja aprofundar um pouco mais no assunto.

Algumas dimensões dessa discussão são prioritárias. Deixo aqui pequenas reflexões sobre cada uma delas e um convite ao leitor para discutir, acrescentar, discordar, construindo um conhecimento coletivo sobre o tema:

Verdades e simulacros: o que é verdade e o que é simulação da verdade? Até  muito pouco tempo atrás, ler a Folha de S.Paulo, a revista Veja ou assistir o Jornal Nacional significava conhecer “os fatos”. Hoje estamos cada vez mais cientes que estamos apenas diante de “versões”, “simulações” da verdade, conduzidas por empresas privadas que detém visões de mundo, interesses e um sistema de poder fortíssimo que garantem seu status quo. Essas verdades começam a se tornar relativas e são contrapostas a partir de um novo paradigma de construção de conhecimento, que é coletivo e compartilhado por todos.

O jornal e o jornalista: nessa era de incertezas, o profissional da informação, que sempre travou lutas internas contra o poder concentrador das empresas jornalísticas, ganha força. Numa sociedade onde cada indivíduo é uma mídia, o jornalista cultural ganha poder, autonomia e independência. Novos modelos de negócios conseguem garantir sustentabilidade para produtores de conteúdos, diversos e dispersos, contra um sistema tradicional concentrado e homogêneo.

Analógico e digital: assim como o mercado da música,  do livro e do cinema, a produção jornalística sofre profundas mudanças com o surgimento das tecnologias de informação e comunicação. Organizadas em grandes conglomerados, locais ou internacionais, as empresas jornalísticas constituem-se, via de regra, como produtores culturais (Globo Filmes, Teatro Abril, Publifolha etc.). Há uma tendência marcante de considerar cultura apenas o tipo de produção realizada por esses agentes, o que configura o sistema de informação como um cartel organizado para definir o que é verdade e o que merece ou não ser “coberto” por esse sistema de poder.

Abrangência da pauta: a cobertura de cultura precisa ir além da agenda cultural (artes e espetáculos) e assumir a complexidade da produção cultural, sobretudo aquilo que não se encontra nos templos e espaços institucionais. A cultura está nas ruas e o jornalismo precisa alcançá-la. Precisa ir para a periferia, para os grotões, entender a diversidade da produção cultural brasileira, não por seu exotismo, mas como sua característica fundamental. Precisa enxergar a cultura além do mercado e do culto à celebridade, fazer pensar em vez de reproduzir o modelo de civilidade da sociedade de consumo. Em outro ponto de vista, seria melhor dizer que os produtores de cultura fora do eixo e dos sistemas de poder precisam se autorrepresentar, retratar a sua própria “verdade”. E já o fazem, cada vez mais e melhor.

Política e mercado: o sistema de financiamento é um dos fatores mais relevantes para a definição de uma ação cultural. Não podemos mais descolar a estética da ética. Compreender o modelo de sustentabilidade do artista, como ele viabilizou um espetáculo, um filme ou um conteúdo, é fundamental para a compreensão de sua obra, já que a linguagem nunca esteve tão subordinada ao financiamento como é hoje. A partir daí, precisamos tornar evidente para toda a sociedade quais são os elementos de controle e poder, mas também as maneiras que temos de garantir independência e diversidade no processo de construção do imaginário. Precisamos revelar o sistema econômico por trás da indústria cultural e engajar os cidadãos no desafio de produzir e financiar sua própria produção cultural.

Crítica: qual o papel da crítica nos dias de hoje, em que o cidadão-mídia assiste um espetáculo, tuíta sua opinião, bloga suas percepções e as compartilha no Facebook ou no Orkut? Quais os paradigmas e critérios para a boa avaliação (isenta?) de uma obra de arte? A crise do jornalismo cultural tem muito a ver com a crise da crítica e sua incapacidade de se reinventar diante dos elementos aqui citados.

Sinto-me profundamente envolvido com todas essas dimensões, que ocupam meus embates éticos cotidianos. Cultura e Mercado foi criado como uma resposta, uma experiência para as inquietações assinaladas nesse artigo. Muitas vezes me vejo encurralado em sistemas de poder, repetindo vícios da mídia analógica, sobretudo quando busco enquadrá-lo como mídia, inserindo-o no mercado publicitário. Por outro lado, enxergo claramente o veículo como indutor e potencializador de novas ideias, discussões e negócios de uma rede potente, que abrange mais de 110 mil agentes culturais presentes em todos os estados brasileiros e no exterior.

No programa Estudio Aberto, realizado no âmbito do Congresso, discuto este assunto com os jornalistas Luiz Zanin (Estado de São Paulo), Robinson Borges (Valor Econômico), com apresentação de Lorena Calábria.

Acessar o conteúdo