Notas sobre Investimento Social Privado 8

Algo de novo começa a aparecer nos processos seletivos de empresas que buscam jovens para seus quadros mais especializados. Um executivo de uma grande empresa brasileira, na área de infraestrutura, relatou uma experiência recente que o impressionou, como sinal de mudança de comportamento de jovens candidatos a emprego.
Coube a ele fazer a entrevista final com um candidato de 27 anos que, após o processo liderado por uma consultoria especializada, foi recomendado para contratação. Depois de conversar com o candidato e esclarecer suas dúvidas quanto às necessidades da função, o tipo de equipe à qual seria integrado, os desafios da posição e alguns aspectos da remuneração e dos benefícios, foi surpreendido pelo seguinte questionamento:
“Entendi o que se espera de mim, tenho certeza de que poderei atender as expectativas de vocês, a remuneração e os benefícios são razoáveis, mas, antes de aceitar, quero saber mais sobre a empresa. Quais são os seus projetos sociais? Vocês têm algum trabalho junto às comunidades próximas à planta? Têm ou pensam em ter uma área de desenvolvimento social, ou uma fundação? Algum projeto de educação e cultura? ”
Foi a primeira vez que o experiente executivo enfrentou esse tipo de perguntas, mas alguns dados apontam que este não é um caso único.
A Consultoria internacional Deloitte publicou recentemente (maio de 2019) um amplo estudo que ouviu mais de 13 mil jovens, de 42 países, com idade entre 25 e 36 anos, sobre suas percepções em relação à atuação das empresas versus o que eles entendem que as empresas deveriam fazer. Ou seja, uma avaliação entre a prática empresarial concreta e as expectativas que esses jovens nutrem sobre o papel dos negócios no mundo contemporâneo.
Esses jovens, os chamados Millennials, estão muito céticos em relação aos objetivos das empresas e os seus impactos concretos na sociedade. A pesquisa esclarece que eles estão desiludidos não apenas com a economia e a tecnologia, mas também com a baixa capacidade das empresas de provocarem impactos positivos na sociedade.
Na avaliação da Deloitte, 76% dos entrevistados acreditam que as empresas estão focadas apenas em suas próprias agendas, não se responsabilizando pelos impactos negativos de sua atividade, as chamadas externalidades.
Cerca de um terço dos entrevistados (32%), por exemplo, afirma que as empresas deveriam ajudar a desenvolver a sociedade, apoiando a educação, a redução de desigualdades e estimulando iniciativas em favor da diversidade. No entanto, apenas 16% dos jovens acreditam que elas realmente façam isto. Em relação ao meio ambiente, apenas 12% acreditam no papel positivo das empresas contra 27% que gostariam de ver ações de proteção ou mitigação mais bem desenvolvidas. Mesmo em relação às funções mais específicas dos negócios – oferecer produtos e serviços de qualidade- a avaliação é desfavorável. Pouco mais de 1 em cada 4 jovens (27%) acredita que as empresas estão oferecendo produtos ou serviços com a qualidade que eles gostariam e só 18% acham que as organizações se preocupam em melhorar as habilidades profissionais de seus colaboradores.
As empresas deveriam ficar alertas com essas informações, ou perderão o potencial das novas gerações como consumidores de seus produtos e serviços, ou como talentos a serem recrutados para compor seus quadros.
Alguns líderes, como o criador do Fórum Econômico Mundial de Davos, Klaus Schwab, já perceberam a urgência em repensar o papel das empresas e dos governos no relacionamento com a sociedade ou, usando uma terminologia econômica, em como lidar com as externalidades – positivas e negativas – que, inevitavelmente os negócios criam. Em livro lançado globalmente em 2018, alerta para o mesmo fenômeno da desconfiança com as empresas apontada pela pesquisa da Deloitte e amplia o escopo do problema.
“Os benefícios econômicos da genialidade e do esforço humanos estão cada vez mais concentrados, a desigualdade está aumentando e as externalidades negativas da nossa economia global integrada estão prejudicando o meio ambiente e as populações vulneráveis: as partes interessadas (stakeholders) menos capazes de absorver o custo do progresso”.
Nem o mais delirante dos argumentos poderá afirmar que o organizador do Fórum, que reúne líderes políticos globais e os empresários mais poderosos do planeta, está se alinhando a um pensamento socialista ou de esquerda radical. No entanto, parece estar se desenhando uma rara convergência entre o pensamento de jovens profissionais muito capacitados e os idosos líderes globais da política e dos negócios, na direção de que está cada vez mais difícil defender o “business as usual” como paradigma de atuação das empresas.


Sociólogo e jornalista, foi consultor do Itaú Cultural, primeiro editor da Revista do Observatório Itaú Cultural e, desde 2008, dirige o Instituto CPFL, plataforma de investimento social da CPFL Energia.

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