“Cinema é a primeira indústria do mundo”, afirma Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em entrevista ao Cultura e Mercado, após coletiva de imprensa último sábado, 9. Ao lado da co-diretora, Renata de Almeida, e de apoiadores e patrocinadores da Mostra, Cakoff falou sobre as novidades da 34º edição do evento, que começa no próximo dia 22 e segue até 4 de novembro. Aliás, haja fôlego e tempo para acompanhar catorze dias de festival, com mais de 450 filmes, e o melhor da produção mundial espalhados em mais de duas dezenas de espaços da capital paulista.
Para os diretores, mais uma vez, o clima é de comemoração. “Estamos orgulhosos com o que estamos conseguindo fazer nesse ano”, diz Cakoff. Entre os destaques, uma série de homenagens celebra o centenário de Akira Kurosawa, com exposição, no Instituto Tomie Othake, de storyboads dos filmes que serão exibidos, e lançamento do livro “A Espera do Tempo – filmando com Akira Kurosawa”, em parceria com a editora Cosac Naify. Um dos desenhos do cineasta japonês ilustra o cartaz da mostra, que este ano vem com dupla face.
Quem assina o outro pôster é o cineasta alemão, Win Wenders, que, aliás, chega ao Brasil neste sábado, 16, para a montar pessoalmente a exposição de fotos inéditas “Lugares, Estranhos e Quietos”, que fica no Masp de 20 de outubro a 9 de janeiro, e que também serão publicadas em livro homônimo, da editora Imprensa Oficial. Wenders terá alguns de seus clássicos exibidos nesta mostra, entre eles “Paris, Texas” e “Asas do Desejo”.
“Falta mais cinema no Brasil”, diz Cakoff
Os ventos, de fato, sopram a favor do cinema, inclusive nas terras tupiniquins. No mesmo fim de semana em que os diretores da Mostra apresentavam à imprensa suas novidades, nas telas dos cinemas do País, duas produções nacionais (“Tropa de Elite 2” e “Nosso Lar”), ocupavam cerca de mil salas. Ainda assim, sobra espaço para melhorar. Cakoff concorda. “Falta mais cinema no Brasil”, diz. “Falta também educação”, completa. Para ele, público brasileiro precisa ser reeducado, reconquistado.
Conquistar novas plateias é um dos desafios do festival. “A cada ano finco a bandeira da Mostra em algum novo lugar”, destaca Cakoff. Desta vez o novo espaço se abriu na 29º Bienal de Artes de São Paulo, no terreiro A pele do invisível, com filmes especiais projetados pelo artista esloveno Tobias Putrih.
Outra iniciativa pioneira é o Festival Online, que chega este ano a sua segunda edição, com exibições via streaming gratuito na internet, aberta a todo o território brasileiro, em parceria com site Mubi (s://mubi.com). As sessões estarão disponíveis em todas as plataformas para os primeiros 500 acessos, com legendas em português, depois da primeira exibição do filme na programação da 34ª Mostra.
Outras ações dirigidas à formação de público também prosseguem. Três salas terão exibições gratuitas para jovens, na 11º edição do Festival da Juventude, e vários espaços da cidade serão ocupados, como o Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), o Centro Cultural São Paulo e o vão livre do Masp, onde, aliás, será realizado um evento que em termos de público promete bombar.
Lá, no próximo dia 27, outro centenário importante será lembrado: o do Timão, com a exibição do filme “O Corintiano”, de Milton Amaral – restaurado pela Cinemateca Brasileira. No elenco, Mazzaropi no papel de um torcedor fanático pelo time que entra em conflito com os filhos e os vizinhos.
Burocracia que emperra
A Mostra Internacional de Cinema é um sucesso. Desde sua primeira edição em 1977, o festival só cresceu, “e sem mudar a linha editorial”, orgulha-se Cakoff. “É um movimento constante de conquistas de novas parcerias”, explica o diretor. Ao longo de décadas a organização do evento conseguiu costurar alianças bem sucedidas. Hoje o festival tem dois programas semanais na TV Cultura, diversos projetos editorias com editoras como a Cosac Naify e Imprensa Oficial, e exibições em salas especiais, como o novo cinema da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional da Avenida Paulista. E por aí vai. Cinéfilos só agradecem.
Reclamação mesmo, só da lenta burocracia que prossegue insistentemente emperrando a atividade cultural. Ele cita como exemplo o debate em torno das mudanças na Lei Rouanet, do qual participou e contribuiu com algumas sugestões. Ele defende que eventos como a Mostra, e instituições culturais como o Masp, Fundação Bienal e outras precisam de tratamento especial. “Todos os anos precisamos começar da estaca zero”.
A edição deste ano, segundo ele, foi aprovada somente em agosto – há menos de dois meses do início do evento. Em cima da hora, sobretudo para um evento do porte da Mostra, que teve este ano orçamento em torno de R$ 6 milhões. Para evitar transtornos desse tipo, Cakoff defende um sistema seletivo que permita a renovação automática. “Acho pertinente, desde que o projeto não tenha cometido nenhum equívoco, que não seja suspeito de nada errado no uso do dinheiro público”.