Mais uma da globalização

A competitividade global contemporânea está se vendo obrigada a incluir o dado cultural como relevante ao que era meramente econômico e político

Nos tempos que correm, falar de globalização, além de ser chavão corre o risco de ser redução. De nossa parte, está aceito o desafio. E o leitor não pode dizer que não foi prevenido. Vejamos.

O público tem pressa. A vida de hoje, vertiginosa e febril, não admite leituras demoradas, nem reflexões profundas. A onda humana galopa, numa espumarada bravia, sem descanso. Quem não se apressar com ela, será arrebatado, esmagado, exterminado. O século não tem tempo a perder. A eletricidade já suprimiu as distâncias: daqui a pouco quando um europeu espirrar, ouvirá incontinente o ‘Deus te ajude’ de um americano.

O parágrafo acima é um dos preâmbulos do livro “Globalização da Cultura”, de Fábio Cesnik e Priscila Beltrame, com prefácio de Caetano Veloso. A autoria? Olavo Bilac. Sim, foi ele mesmo, o bom parnasiano e popular acadêmico, quem o escreveu no Brasil da primeira república, início do século passado, há quase cem anos atrás!

Pouca gente presta atenção no fato de que o momento da globalização não é mais o da transnacionalização mercantil multifacetada, que para o bem e para o mal tem sido o mote desde a era dos navegantes.

Agora é o momento da globalização das pessoas, que se fazem avançar sobre as fronteiras em uso de multimeios por vezes portáteis e diminutos, sem lenço e sem documento.

Mais que nos fascinar, as facilidades tecnológicas nos plugam ao mundo e nos colocam frente a algumas questões que só a cultura ajuda a responder, em mais uma prova da sua importância intrínseca no delicado tabuleiro da evolução humana.

Enquanto as peças se movem e procuram o encaixe, a cultura segue sendo o próprio tabuleiro. Quando indagamos o que constitui um estado nacional e comparamos com o que constitui uma empresa, isto é, a peça que é um sistema político sem fins lucrativos e outra que é um sistema jurídico com fins evidentes, nos vêm à mente uma série de elementos que compõem o dna de cada uma.

O estado é território, é patente e poder. O estado é população, é estatística, com forças armadas, propaganda, brasão e hino. Já a Empresa é marca, patrimônio físico, investimento e lucro –sobretudo isso; é produção, serviço, publicidade e mercado. 

Essas características são fáceis de detectar. Mas em ambos os casos temos como pano de fundo a pessoa física, o cidadão. E aí que a coisa pega. O que surge na mira é algo bem mais complexo. É o indivíduo que está em questão, e afinal do que ele é feito, o que o constitui?

Toda pessoa é um armazém de conhecimentos e um potencial de interação criativa que gera novos conhecimentos incessantemente. Não há como discordar. Quer dizer, graças à cultura que aprendemos e formulamos somos cada um a seu modo verdadeiras companhias ilimitadas. Partindo do princípio de que cada indivíduo é um universo, a globalização começa na sua rua, com seus vizinhos, cada um sendo um país diferente.

Na era global, são aquelas pessoas que detém maior estoque de conhecimento as que tem mais chances de prosperar, em detrimento daquelas que possuem menor estoque. Idem para os países, as empresas e seus sistemas.

Quanto maior o conhecimento, quanto maior o armazém, maior a cultura, maior o capital para se adquirir a prosperidade, a duradoura, pois que esta não será momentânea e dela não se abrirá mão jamais.

A globalização promovida pelos estados nacionais tem critérios como capacidade de escoamento, atração de investimento estrangeiro, câmbio de moedas, exportação,  balança comercial. É política e institucional.

A globalização mercantil é uma corrida ao pote que motiva as empresas transnacionais, marcada pela acirrada concorrência entre modelos de produção, produtos e comercialização. É produção e lucro.

Já a globalização das pessoas é afeita a um cenário de construção de novos sistemas de conhecimento, ao mesmo tempo que afirmação e troca de capitais culturais, que se dá sobretudo em redes virtuais. É conteúdo e reflexão.

A grande novidade no horizonte é que a competitividade global contemporânea está se vendo obrigada a incluir o dado cultural como relevante ao que era meramente econômico e político. E é por isso que a pessoa -e não o simples consumidor ou o lesado cidadão eleitor- deve passar a ser o fiel da balança para que a era global seja cada vez mais rica e diversificada.

Chavão ou não, estimular, produzir, articular, digerir e difundir a cultura são verbos que devem ser praticados no presente por todos os agentes globalizados e globalizantes.

Px Silveira

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