Até ontem eu estava achando um absurdo essa perseguição ao projeto do blog da Bethania. Pois o projeto é maravilhoso e urgente. Acho fantástico ter poesias lidas pela Bethania na internet.  Parabéns a quem teve a ideia e aos proponentes.

Também não tem nada de absurdo um blog custar 1,3 milhão. Depende do blog, obviamente. Mas esse tinha mais de 300 vídeos e imagino que outras estratégias on-line. Acho maravilhoso e importante que os criadores de conteúdos de internet também sejam bem renumerados. Dizer que internet é feita gratuitamente ou a baixo custo só interessa a quem não faz internet. Renumerar bem quem faz internet é parte importante de uma política de democratização cultural e de democratização econômica.

Mas hoje eu li sobre o cache da Bethania: 600 mil (50 mil por mês). Pessoalmente, me pareceu um salario alto demais para a Lei Rouanet no formato atual. Ainda mais sabendo que esse valor é quase metade do orçamento. Em termos estritamente técnicos, falando de análise de projetos, é estranho uma só pessoa ganhar mais que toda a equipe junta.  É uma critica pertinente. Mas  é apenas uma crítica pontual. Foi –na minha opinião – uma avaliação equivocada da Comissão que avalia projetos. Uma comissão que – vale destacar – não é Estatal, é pública (pois tem representantes de toda a sociedade). Acredito que isso deve ser revisto.

Mas não quero aqui discutir erros pontuais. Acho mais interessante perceber como esse debate revelou questões mais amplas do mercado cultural brasileiro como a concentração da mídia (e de mercado) e o consequente “rancor de classe”. Além disso, esse debate permite que debatamos uma questão importantíssima: a relação entre democracia e meritocracia.

Para que o debate avance tranquilamente vale dizer que a única coisa que estamos discutindo aqui é o “INTERESSE PÚBLICO” em pagar uma alta “renumeração” a artista principal de um projeto. Só isso. Não vamos misturar com preconceitos e rancores. Não acho que faça sentido criticar o artista como indivíduo,  nem a produtora proponente.  Eles pedem o que acharem que é justo, desde que esteja na lei. É função da comissão pública do Ministério dizer se o pedido atende ao interesse público. O fato é que a Lei atual permite esse alto salário. O projeto foi aprovado, então a produtora e os artistas não fizeram nada de errado. Vamos parar de personalizar, pois isso parece rancor de classe. Esse rancor é um sintoma de algo mais generalizado que é uma perseguição aos artistas consagrados.  O fato – gostemos ou não – é que a Bethania ganha super bem mesmo. Vamos conviver com isso e seguir com o debate.

O que estamos realmente discutindo é algo mais interessante: a lei que paga salários com dinheiro público deve permitir altos salários?

Não é uma questão tão simples quanto parece. Se simplesmente impedirmos altos salários teremos dificuldade em aprovar qualquer projeto com artistas consagrados, que no mercado ganham valores muito altos. Alguém pode dizer: “Bethania, quer ganhar bem? Então que vá  ao mercado!” . Ok.. Mas o fato é que “no mercado” a Bethania não poderia fazer poesia. Faria apenas o que já faz. Não inovaria nos conteúdos.  Será que não interessa ao estado brasileiro ter projetos que ele apoia conduzidos pela Maria Bethania? Eu acho que interessa. Ainda na linha de personalização alguém poderia afirmar: “Ela já é rica,  que faça as poesias de graça”.  Seria o lado Ong da Bethania, uma doação dela ao seu povo. Não concordo com essa lógica assistencialista, pois acredito que ela condena os bons conteúdos a serem feitos sem renumeração. Ou seja, os bons conteúdos ficarão para sempre meio amadores. Profissional mesmo é o “mercado”, que faz sempre o mesmo. A inovação é assistencialismo. Isso só interessa a quem não quer fazer bons conteúdos e já faz a mesma coisa.  Eu acho fantástico que a Politica Cultural incentive conteúdos de qualidade e dispute com o mercado para que grandes artistas façam conteúdos de qualidade.  Por isso acho que devemos começar a pensar mecanismos diferenciados (e dentro dos valores de uma ética pública) que incentivem grandes artistas a fazer projetos de alta qualidade artística.

Por outro lado acho que esse debate mostrou algo que julgo saudável: as pessoas começaram a ficar bravas com os altos salários dos artistas consagrados. Finalmente.

Vale lembrar que esses altos salários não são de hoje. Devido ao nosso modelo de televisão centralizado e com audiência muito concentrada, há poucos escolhidos que são consagrados. Eles ganham salários milionários. Todos os outros ficam na pindaíba. Isso é algo que existe há décadas.  Acho saudável que todos nós – que não somos “consagrados pelo oligopólio” – comecemos a perceber esse absurdo. Mas não adianta criticar o artista individualmente. Nem o Ministério da Cultura por um erro pontual. Vamos perceber o que esta realmente por trás disso tudo.

Acho que o que estamos criticando mesmo é o oligopólio da indústria cultural brasileira. Somos o país com mais concentração de audiência. Isso gerou uma pequena casta de escolhidos que ganham milhares de vezes mais que os outros. Isso é algo estranho numa democracia. Temos que batalhar pela democratização da mídia, que incluirá a democratização econômica. Quer falar de altos salários? Será que não é o caso de discutirmos os contratos milionários dos artistas televisivos brasileiros? E os poucos músicos “consagrados pelo oligopólio”? Muitos (e muitos) ganham mais de 1 milhão por mês. Todo mês! Isso é normal? Não é um escândalo público?  Como eu disse não critico os artistas pessoalmente. Mas falando em termos públicos: é estranho que exista tamanha concentração. Alguém pode argumentar que o dinheiro é privado, das empresas, não é dinheiro público. É verdade. Mas é função do poder público regular o mercado. E aí há um caso claro de concentração econômica que pode ser minimizado por politicas de regulação.   E é sempre bom lembrar que a televisão é concessão pública. Nosso modelo de concessão escolhe poucos canais, poucos detentores privados, que escolhem quem são os BILIONÁRIOS. Se democratizássemos os canais (com a tv digital isso é possível) democratizaríamos a renumeração de artistas e as rendas seriam mais próximas. Não existiria rancor de classe e nem existiria o “caso Bethania”.

Mas temos que tomar um último cuidado com isso: a democracia não pode se opor a meritocracia. Nos últimos anos avançamos muito em políticas de democratização. Mas não avançamos em politicas meritocráticas. A democratização permitiu que milhares de realizadores mostrassem sua face e começassem a realizar suas obras. Mas eles não conseguem se sedimentar no mercado, ficam sempre dependentes do poder público. O mercado continua fechado para eles (e daí surge o rancor anti Bethania). O que esta acontecendo é um certo apartheid: os consagrados ficam com o mercado, todos os outros “não consagrados” estão querendo monopolizar as “verbas públicas”. Sempre que um artista consagrado quer apoio público os “não consagrados” ficam furiosos pois consideram que o Estado é o mercadinho deles. Temos que romper essa falsa dicotomia.

Para isso é preciso conciliar democratização com meritocracia. Acho que temos que discutir claramente que “artistas já consagrados” devem ter políticas específicas para eles. Vou falar da área de cinema, que eu acompanho mais. Acho surreal que cineastas já consagrados como Babenco, Furtado, Domingos Oliveira, Sergio Bianchi, João Batista de Andrade e muitos outros estejam hoje sofrendo imensas dificuldades de captação. Eles poderiam ter apoio “automático”  para a realização. Não automático para a eternidade, é claro. Se eles errarem muitos filmes em seguida , quem sabe, podem perder esse apoio.  Mas até hoje eles já acertaram vários filmes. Tem boas chances de acertar os próximos. É interesse público que eles façam mais filmes e façam rápido. É interesse do PÚBLICO mesmo,  do público espectador, que já provou que gosta de seus filmes e que tem o “direito” de ver novos filmes deles na tela.   Perseguir eles em nome da democratização é fazer uma “democratização corporativa” (uma expressão em si contraditória), que é criada apenas do ponto de vista de quem esta na “área”, de quem “faz cinema”, esquecendo do verdadeiro interesse público, que é o interesse da pessoa que consome cultura.

Por outro lado a meritocracia também interessa aos jovens talentos. Mas “não a todos” os jovens talentos. A democracia meritocrática interessa apenas aos artistas mais talentosos. Quando começarmos a fazer políticas meritocráticas os jovens que acertarem em seus  primeiros curtas terão mais facilidade para produzir seus longas. Os que erraram em seus curtas, terão mais dificuldades. Isso parece obvio, mas não esta acontecendo com clareza. Devido a imensa pluralidade de comissões com critérios diferenciados e com jurados que são escolhidos a partir de indicações da própria classe estamos ficando reféns de uma lógica corporativa, aonde a decisão sobre qual filme vai ser apoiado é tomada a partir do gosto (e até mesmo dos contatos pessoais) desses membros da comissão. Politizamos demais a politica cultural, a escolha artística virou resultado de uma politiquinha corporativa. Isso é uma confusão entre democracia e corporativismo. Isso não interessa a ninguém, muito menos ao PÚBLICO espectador.

Mas voltando a música. Lá o caso é diferente, pois existe mercado real. No cinema estão todos presos na lógica de dependência do estado (é como se Bethania precisasse de apoio estatal para gravar seu cd).  O interessante é que esse caso “Bethania” revelou várias coisas, pois chocou a “música de mercado real” com os “mecanismos de apoio público”. E foi esse choque ajudou a revelar algumas contradições do mercado cultural brasileiro.

Para concluir apenas reenfatizo o que já disse: acho que temos que aproveitar esse caso para discutir questões mais de fundo, como o oligopólio da mídia brasileira que resulta em imensa concentração econômica; a necessária harmonização entre democracia e meritocracia, e a necessidade de pensarmos politicas culturais públicas específicas para artistas consagrados.


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Cineasta e escritor. Foi Secretario do Audiovisual do Ministério da Cultura. É presidente da Associacão Brasileira de Roteiristas.

22Comentários

  • Cristiano, 19 de março de 2011 @ 0:38 Reply

    Olá Newton!

    Um prazer descobrir teu espaço!

    Me diga uma coisa que até hoje não consegui descobrir:

    – o projeto cinematográfico x consegue autorização da lei rouanet pra captar 2 milhões… ele consegue captar o valor nas empresas através da renúncia fiscal… ok.

    – esse projeto é baseado num orçamento, todos que estão envolvidos no projeto, após a conquista da renúncia fiscal, recebem seu quinhão, ok.

    – qual é o compromisso do projeto (ou filme) com o mercado? se todos já receberam o valor de seu trabalho existe mais algum valor a ser conquistado?

    – se houver, para onde vai esse valor? se o filme foi financiado pela lei rouanet, após ele ter conquistado uma bilheteria, para onde vai esse valor?

    Newton, sinceramente não sei e é difícil achar informação sobre isso. Parece a máfia de Chicago nos anos 30! Ninguém tem acesso e quem tem não fala! : (

    Grande abraço!
    Cristiano

  • Newton, 19 de março de 2011 @ 9:43 Reply

    Rapaz, pergunta dificil,hem?
    Naõ sei tudo não.
    O que sei: na rouanet e no audiovisual não tem nenhum tipo de avaliação de mercado e/ou de retorno…
    É claro que tem uma avaliação “moral”: esse filme foi um sucesso , esse não. Mas é subjetivo.
    Mas por parte do estado não tem nenhum tipo de avaliação.
    O que tem é que mecanismos como Fundo Setorial (da Ancine) já começam a avaliar isso. E também alguns editais (bndes , em especial) se preocupam com isso. Mas o modelo antigo da lei ainda não chegou nisso.

    Seria importante , além de avaliar o mercado, aprender a avaliar o “impacto cultural” do filme. A repercussão critica. Aí a avaliaçaõ fica mais complexa.

    Para aonde vai a grana? Depende do mecanismo e projeto. No fundo setorial, por exemplo (Ancine), inventaram um mecanismo que volta parte da grana para o Fundo. A ideia é ter um horizonte futuro de auto-sustentabilidade. Por mais que seja dificil (bem dificil mesmo) a auto-sustentabilidade de nosso cinema é uma meta que temos qeu ter em vista. Pois é partindo dessa meta que vamos conquistando fatias de mercado. Se abandonarmos a meta de uma futura auto-sustentabilidade deixamos de dar passos em frente.

    No caso da Rouanet e Audiovisual o retorno financeiro fica dividido entre os socios do projeto. O problema no caso do cinema é que o produtor sempre fica com o menor quinhão. Antes tem o exibidor, distribuidor e se sobrar algo depois disso tudo fica com o produtor. Raramente sobra. Nunca capitaliza as produtoras
    Aí dificilmente um filme da retorno aos produtores.
    Isso é pessimo pois em termos de retorno financeiro é muito dificil um produtor ter retorno.

    Um adicional de renda maior do que o atual (como defende o cineasta Roberto Farias) ajudaria a resolver isso.

    Lembro que o objetivo inicial dessas leis é dar um subsidio para que no futuro o mercado se desenvolva sozinho. Ou ao menos que alguns produtores e tipos de filme consigam se capitalizar para que o estado possa investir mais em produtos inovadores, cineastas independentes e coisas assim. Mas isso não esta acontencendo, infelizmente, pois os produtores dificilmente conseguem ter retorno. Ainda estamos perpetuando uma dependencia em relação ao estado.

    No Brasil, o produtor de cinema (em geral) é obrigado a ganhar apenas na produção. Não é industria (que vende o produto). É fabrica. Temos fabricas de cinema, não uma industria.
    Imagine outro setor: é como se o produtor de sapatos ganhasse dinheiro apenas na produção de sapatos. Não na venda do produto.
    Por aí da para ver que há algo errado. Só se resolve isso com o surgimento de mais distribuidoras, inclusive algumas mais segmentadas para filmes médios (que é o nosso grande gap, estamos muito bem de block buster, mas não temos boa distribuição para os filmes independentes e autorais).

    Isso é ruim pois se o produtor ganha na produção o retorno de bilheteria acaba sendo pouco importante. É claro que nossos cineastas se preocupam com isso, mas é mais por vontade pessoal de se comunicar mesmo com o público. Na prática é muito dificil retornar algum dinheiro.

    Outra coisa importante seriam os autores (diretores e roteiristas) ganharem direito autoral na bilheteria. Isso seria uma politica que valorizaria os criadores que é a base da industria e, hoje, esta pouco valorizada.

    Bem é um assunto longo. Não sei se respondi tudo

    abraço
    Newton

  • px silveira, 19 de março de 2011 @ 11:47 Reply

    é isso! as discussões têm que ser prospectivas e não punitivas. 1- a concentração econômica é endêmica no brasil e deve ser combatida em todos os setores, com meios inteligentes e sem a truculência de mais uma lei: os recursos da internet ajudam a corroer estes abismos, a começar por torná-los mais visíveis. 2- a meritocracia cultural é de difícil aplicação e suscita a volta ao neo-balconismo, com as velhas práticas das quais a geração de editais tenta nos livrar. 3- sabe-se a tempos que a cnic é uma comissão sem critérios devidamente estabelecidos e tudo o que o minc quer dela é que não faça’barulho’, como acontece agora com o projeto da bethânia. a incompetência em estabelecer regras para a cnic tem sido unicamente oriunda da falta de capacidade de gestão do ministério, pois todos seus componentes são qualificados e estão ali no intuito de prestar o melhor serviço, de acordo com a visão de cada um, sem achar um ponto de apoio comum que seria estabelecido justamente pelos critérios e trariam transparência às suas decisões. portanto, que este da poesia sirva para avanços concretos.

  • Bruno Cava, 19 de março de 2011 @ 14:12 Reply

    Esse caso como um todo é só mais um sintoma como o sistema de financiamento cultural está podre.

    A democracia foi corrompida por dentro, por uma gestão estatal de interesses privados. Isso remete à visão obsoleta de cultura como “mundinho”, e do MinC como ministério da “classe artística”.

    Captação via isenção fiscal envolve dinheiro público, porque há renúncia à receita. E a decisão final acaba nas mãos das grandes empresas, que obviamente vão preferir bancar alguns poucos grandes nomes, consolidados, medalhões, do que a cauda longa dos muitos pequenos produtores, minorias, precários.

    Bethania sozinha ganha 600 mil reais pra declamar poesia em um blogue, uma quantia suficiente pra sustentar OITO Pontos de Cultura pelo mesmo período (72 mil/Ponto/ano), remunerando diretamente mais de uma centena de produtores, trabalhadores, artistas, num escalonamento democrático da verba. Se pegar o valor total, dá dezesseis pontos.

    Ao contrário disso, o sistema reproduz e estabiliza a divisão social na produção cultural. E assim participa de toda a exploração do trabalho no capitalismo atual, em que a cultura é imediatamente econômica.

    Nos últimos 5 anos, malgrado inúmeros disparates (Ivete, Caetano, peça do Jô na Faap, Cirque du Soleil etc), o MinC construiu uma alternativa. A ministra Ana de Hollanda parece bastante engajada em manter o “criador”-artista-medalhão como principal preocupação do ministério, logo no topo da cadeia produtiva econômica, uma economia “criativamente” rentável… pra eles!

  • Leandro, 19 de março de 2011 @ 21:50 Reply

    Caro Bruno, e caros críticos, com certeza bem intencionados, do “absurda” remuneração de artistas consagrados,

    Eu compartilho com você o entusiasmo com o que Gil chamou, de modo muito feliz, de do-in antropológico. Os Pontos de Cultura – e crucias programas associados, de qualificação e de ações em rede (Pontões e fins) são oxigênio na cultura brasileira.

    Mas essa conta que fazes (Bethânea = 8 Pontos de Cultura) não tem nada a ver.

    O Newton apontou muito bem no texto, se houve erro na avaliação do orçamento do projeto, deve ser corrigido. Mas se o salário da Maria Bethânea não for 50 mil por mês, digamos que vai ser 25 mil, a metade. Aí seriam, no ano 4 Pontos de Cultura. Se dividir por 4, vai ser 1, etc.
    Como ainda diz o Newton, artista consagrado ganha bem, e isso é justo.
    O que o fomento cultural deve fazer é privilegiar a ousadia e inventividade do projeto. Se o projeto, com esses critérios, precisar de um grande nome, isso custa.

    E é BOM, pra quem trabalha com videos na internet e com produção audivisual em Pontos de CUltura (eu trabalho, por exemplo), um projeto como este da Bethanea e Hermano Vianna! Valoriza a produção para a internet.

    O x da questão, como bem aponta o comentário do PX Silveira, é a falta de critérios claros para o trabalho do CNIC.

    Uma amiga, que trabalhou bastante com produção musical, me dizia que o orçamento da Bethânea está, de fato, superdimensionado. Aí comentávamos que seria preciso algum tipo de comprovação (por via fiscal) dos cachês recebidos pelo artista

    O que eu acho que NAO dá, que é péssimo, é reivindicar (como sugere a conta 1 blog da Bethanea + 8 Pontos de Cultura) que o dinheiro publico (mesmo via isenção) seja só destinado aos produtores culturais sem recursos, ou fora do mercado.

    Precisamos continuar o trabalho dos últimos anos, de melhorar as formas de fomento – e, apesar dos sinais de retrocesso no campo dos direitos autorais – acho péssimo esse clima de flaxflu, do tipo: ah, essa ministra é mesmo “dos grandes”.

    Acho que essa “notícia” foi plantada pra criar este clima mesmo, que desvia a discussão das regras e mecanismos de fomento, e transforma tudo num “curti” x “nao curti” a Ministra, ameaçando que toda a complexa discussão que permeou os avanços feitos nos últimos anos (e muito há ainda a fazer) se perca.

    Isso, como, de novo, explica muito bem o Newton, deixa aos consagrados, como única alternativa, o mercado. E o mercado cultural quer sempre mais do mesmo;

    Ao contrário, como explica o Hermano Vianna no Globo (sss://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/03/18/hermano-vianna-colunista-comenta-polemica-envolvendo-blog-de-maria-bethania-924039639.asp) este projeto do site é interessante, inovador. Produção de conteúdo “premium”, como diz o mercado, via internet, com acesso livre.

    Não há nada errado em um grande artista receber bem, inclusive com dinheiro incentivado.

    Outra coisa é a própria lei da isenção fiscal.
    Aí o buraco é mais embaixo. De fato, deixar às empresas a decisão de=o que deve e do que não deve ser produzido (do que, diga-se, os Pontos de CUltura estao livres – ainda bem! pelo menos este problema!), é bem ruim.

    Mas são as regras do jogo atual.

    Abraço,
    Leandro

  • Newton, 19 de março de 2011 @ 23:23 Reply

    Ola Bruno
    Tal como o Leandro eu também acho que a conta aritmetica de 1 Bethania é igual a 8 pontos de cultura um pouco simplista.
    Por vários motivos
    Primeiro que é sempre bom lembrar que não podemos reduzir a questão a numeros. Existe também definições de qualidade, que são definidas pela relevancia no debate. Isso é complexo de medir pois é sempre subjetivo, mas da sim para tentar ter algumas avaliações. Concluo esse post com um exemplo.
    Mas indo aos numeros, um dos criterios. Voce fez o calculo apenas do ponto de vista do artista produtor. 1 Bethania = 8 pontos de cultura. Podemos também fazer o calculo do ponto de vista da quantidade de publico atingida pelo projeto. Publico mesmo, espectador. Não artista produtor. Obviamente o conteúdo com a Bethania trará muito mais público. Como disse o Leandro, trará até mesmo um novo público para a internet.
    E atenção: não estamos falando do tão satanizado “mercado”! Pois o blog seria gratuito. Então estamos falando de publico mesmo, publico não pagante.
    Isso é importante ficar claro. Não acho que o Minc deva ser o ministerio apenas dos grandes artistas. Mas também não acho que o Minc deve ser apenas o ministerio dos pequenos artistas. Deve ser dos dois e muito mais. Na verdade, o Minc não é um ministerio apenas para artistas. Pensar assim é como pensar que o ministerio da saude é o ministerio dos médicos. Tal como o da saúde se preocupa com as pessoas não-medicas (doentes e saudaveis) o da cultura se preocupa também com as pessoas-não-produtoras-de-arte (os consumidores que já consomem e mesmo os que ainda não estão consumindo). Essa alias foi uma grande preoucpação das ultimas gestões do ministerio.
    E como eu disse, a Bethania soma muito num projeto. É interesse publico ter nomes como ela em um projeto de qualidade. É claro que agora que há outros nomes para fazer isso, bem mais baratos que ela. Eu mesmo, por exemplo. Newton. Toparia ler esses poemas no blog por MUITO MENOS que 50 mil mes. Na verdade, muito menos mesmo! Acho que toparia por uns 2 mil mes. Para fechar com 1.000,00, menos qeu isso não abro. Ta bom vai 500, pois admito que somaria em meu curriculo (algo novo e tal, com diretor estrela, vou fazer promoção e topo). Ou seja, por uma Bethania o projeto teria 100 Newtons. Mas, em compensaçaõ, eu não faria tão bem (já vi ela lendo poemas e é maravilhosa) e não traria tanto publico para o projeto. São criterios importantes também.

  • Tito, 20 de março de 2011 @ 11:10 Reply

    Um projeto dessa grandeza feita por uma rainha como a Bethanea poderia ser feito diretamente via marketing cultural sem incentivo nao é? Infelizmente não poderia, a lei rouanet em seus 19 anos produziu uma conciencia viciada. São poucas empresas que investe em cultura e praticamente nenhuma sem incentivo fiscal e de preferencia no art 18. Hoje se tornou uma de incentivo ao marketing cultural ela beneficia a exposição da marca da empresa e quem melhor para representar a marca da empresa?

    Quando a ministra diz que precisa incentivar o criador de cultura é tudo que a lei rouanet e a autoral nao fazem por isso tem um certo ponto de autismo aí

  • Lenon Rodrigues, 20 de março de 2011 @ 11:27 Reply

    Ela tem seus méritos, o projeto é bom, é uma grande artísta etc etc… Deve haver dinheiro para ela e para os pontos de cultura ou outros projetos interessantes? Sim, deve sim!
    Mas, convenhamos, está um pouco superfaturado mesmo. Ela está se “autotabelando”. Tudo isto por falta de critérios claros na Lei Rouanet.
    Ela poderia ter o mínimo de bom senso e de humildade de baixar um pouco o valor deste projeto. Dá sim pra fazer uma coisa nos padrões de qualidade dela (se é isso que apresentam como justificativa) com muito menos.
    Eu sou totalmente a favor de um projeto assim. É um projeto bonito, bacana, se ele for realizado da maneira mesmo que estão dizendo que ele vai ser. Este link de Hermano Vianna foi bem esclarecedor. Mas realmente, 50 mil por mês para ela é muito. Muito mesmo. É quase a metade do projeto.

  • Bruno Cava, 20 de março de 2011 @ 13:45 Reply

    Se o dinheiro é público, torna-se simplesmente um escândalo pagar a uma artista como Bethania e deixar de investir na malha de pontos de cultura. Não é só conta. É qualitativo mesmo. Corrupção da democracia nós pagarmos 600 mil reais de cachê por um ano de poesia. É mais que o salário de ministro do STF. O governo deve priorizar quem precisa.

  • Tito, 20 de março de 2011 @ 14:51 Reply

    Lenon, que nome hein?

    Todos os projetos endereçados ao Minc são superfaturados, isso porque os produtores consideram a captação parcial, ou seja o importante é conseguir uns 50%, depois a gente faz ou espera mais um pouquinho, é um sistema totalmente viciado, como corrupção no congresso.

  • Tito, 20 de março de 2011 @ 15:12 Reply

    O que está no centro da questão sobre a polêmica envolvendo a Bethania vai muito além do valor cobrando, do cachê, horas de gravação etc… O projeto foi feita exatamente como manda a regra do jogo.

    São poucas as empresas que utilizam da lei rouanet, são poucos os produtores que conseguem a captação efetiva e finalmente são poucos os artistas que se beneficiam dessa lei, o projeto Blog da Bethania foi feito dentro da regra do jogo, artista conhecida, empresas interessadas, o valor financeiro é um mero detalhe pois vai sair do nosso bolso mesmo.

    Porque o projeto não foi feito com 1 video semanal? ou, um mensal? isso não reduziria drasticamente os valores não é? porque a grana não é problema, se a captação for de 50%, nós mudamos isso.

    Seria facil captar esse projeto, mas agora ja era, com toda essa visibilidade quem vai querer patrocinar?

    Acho interessante que essas coisas acontecem pois revelam as entranhas dessa lei perversa.

  • PAULO, 20 de março de 2011 @ 21:26 Reply

    Vale lembrar que do projeto aprovado, somente será abatido da Lei 30% do valor. Adiferença terá que ser colocada pelo patrocinador. Pela Lei só será abatido 30%. Isso é fato.

  • Rafael, 20 de março de 2011 @ 21:54 Reply

    Os Veloso tem o direito de fazer o que quiserem com a fama que tem, mas que não metam a mão no dinheiro público. Considerando o que ganham os poetas (quando ganham), o salário proposto pela Bethania é uma imoralidade. Torço para que este projeto fracasse; que nenhuma empresa se digne a patrocinar a proposição abusiva deste grupo de caras de pau, incluindo nele os pareceristas cegos do MinC que viabilizaram este roubo ao cofre público. Bethania, uma belíssima voz, infelizmente mostra-se uma cidadã da pior categoria.

  • Carlos Henrique Machado, 21 de março de 2011 @ 0:01 Reply

    Os longínquos ecos do twitter e dos blogs estão se tornando um movimento, um refluxo que está dando azia nos tributeiros da cultura Rouanet.

    Não adianta arrotar categorias interdependentes dentro do universo da cultura cuja necessidade é levantar dinheiro nacional de todas as formas via Lei Rouanet, Ecad e cia., sobretudo quando a competência dos recursos nasce de uma sociedade onde o território ainda é essencialmente pobre do ponto de vista social.

    Fundadas para dar caráter de privilégio à cultura das champagnes e mil toalhas, as leis que se conjugam, Rouanet e do direito autoral via Ecad, enfrenta agora a fúria da informação de uma sociedade cada dia mais ligada ao reino dos medalhões.

    A demanda ainda é maior. Ou a cultura entra na massa da sociedade ou os modernos imperativos do privilégio dos barões da cultura serão centrifugados por ciclones como esse último que encontrou Bethânia pelo caminho. É o fim da cultura de compartimentação e privilégio.

  • Minom Pinho, 21 de março de 2011 @ 3:00 Reply

    Caros,

    Queria aproveitar para acrescentar uns pontos à polêmica…

    1. Um vídeo com a Maria Bethania ou qualquer outro artista realizado a 3,5 mil reais não é um orçamento absurdo, mesmo sendo um conteúdo de 1 minuto.
    Qualquer profissional da área vai concordar com isso. Já a questão do montante mensal/anual, aí é uma mera questão matemática. De pronto, o fato do conteúdo poder ser acessado gratuitamente pela internet, coloca o projeto em muito melhor situação do que muitos outros que já passaram pelo canal do incentivo fiscal, muitas vezes com altos valores de ingresso cobrado a despeito do incentivo fiscal concedido. Ou seja, absurdo não é…

    2. Não dá para confundir incentivo fiscal e investimento governamental. Uma coisa é financiamento de projetos via incentivo fiscal (mesmo que queiramos repensar as leis e práticas de incentivo fiscal à cultura vigentes) e outra coisa é o investimento público pelo Ministério da Cultura em pontos de cultura ou outras políticas culturais.

    Sabemos que as duas verbas são públicas, mas precisamos ter um pouco mais de entedimento sobre a natureza dessas duas verbas e os seus objetivos quando decidimos propor mudanças e estabelecer críticas para não cairmos na leviandade.

    Concordo com o Newton Canitto quando ele afirma que o debate vai muito além desse projeto isoladamente.

    Qualquer debate sobre investimento cultural terá que inevitavelmente contemplar a diversidade cultural brasileira incluindo o trabalho de artistas consagrados e de artistas populares. Tais debates precisam contemplar políticas de incentivo fiscal e de investimento governamental que compreendam o Mercado e o que vai além dele. As interseções entre Cultura e Mercado são sempre delicadas, embora fundamentais ao debate.

    Muitas das questões levantadas sobre esse projeto induzem a equívocos, pois fazem crer que podemos equilibrar os investimentos culturais no Brasil escolhendo linhas e mecanismos de financiamento restritos a uma única visão… Em geral, as visões unilaterais possuem pouco alinhamento com a complexidade das questões culturais nesse ou em qualquer outro país.

    De boa notícia, em meio a tantas polemicas culturais de grande alcance de mídia, devo dizer que as políticas culturais nunca estiveram tão destacadas e debatidas como nos dias de hoje nesse país. Será esse um bom presságio de que finalmente passamos a considerar a CULTURA um assunto de peso na pauta da nação? Tomara. Quem sabem resolvem aumentar o orçamento público para a Cultura, o menor da união…

    Precisamos rever os incentivos e o financiamento? Claro que sim!!!
    É construtivo fazê-lo por meio de pseudo-escandalos emblemáticos de efeito pouco educativo? Penso que não.

  • rubens de moraes, 21 de março de 2011 @ 23:42 Reply

    Prezados

    Eu lembro que a Lei Rouanet, a pouco anos atrás, limitava qualquer cache a R$30.000,00 por um projeto inteiro. (se demorasse 6 meses, o que é normal, o cache do artista não poderia ultrapassar esse valor).
    Acho que qualquer lei de incentivo cultural permite um INCENTIVO e não deveria aprovar a totalidade de um projeto: criação, produção e resultado.
    Pelo menos o resultado deve ser jogado ao mercado… O projeto Bethânia deveria gerar uma receita a partir do momento em que for aberto ao público e não pretender garantir a ela esse cache absurdo, a qualquer custo. Ou seja, se o público achar muito legal os videos com as poesias ele irá pagar por eles através de compra de DVDs ou de downloads pagos.
    Acho isso, um abraço, RM

  • Radamés, 22 de março de 2011 @ 11:48 Reply

    Caros, me desculpem o excesso de sinceridade, mas li aqui várias pessoas que concordam com o valor pago a Bethânia e seu projeto defendendo interesses próprios, tais como: “eu trabalho com vídeo e internet, isso vem valorizar o nosso trabalho” ledo engano meu amigo, você nunca vai conseguir r$600 mil reais para ler poesia num blog. Fico desapontado quando vejo coisas assim, são sempre as mesmas pessoas e aquele blá blá blá histórico, “eu sofri na ditadura”, “eu sou o responsável pelo rock no brasil”, “eu”, “eu” e vários “eus”. Foi mal, mas isso precisa mudar, e logo. abs

  • Andradina Azevedo, 23 de março de 2011 @ 0:58 Reply

    é.. o capital não perdoa…. E o cinema no Brasil insiste em evitar o compromisso com o capital… Temos que ver onde está o CANCER… e o funcionamento da grana publica de incentivo é um cancer! Tem “amigoes” que fazem filmes com R$4mil…hoes, vao ao cine e fazem 5mil espectadores, ou seja parece coisa de criança. Mas eles nao perdem pois ja tem seus salarios pagos pela “mamadeira publica”… depois do fracasso entao eles dizem “agora vou fazer um filme mais altoral, uns R$2milhoes..” e ele vai captar e ninguem o diz: “meu filho, o senhor ainda nao tem capacidade de fazer um filme”… O Cancer tb está na grana que vai pra esse monte de festivais que em nada ajudam o cinema; ou nas “missoes culturais”, grana para os “arroz e festa” irem pra frança…. E já que nao ha compromisso com o mercado existe a panela fechada onde ha mamadeiras de mingau pros amiguinhos… e eles nao fazem questao de ver o BOM E O NOVO…. O selva do CAPITAL é mais justa que esse cancer da PANELINHA, pois ele ao menos vai em busca de quem é bom…

  • Carlos, 23 de março de 2011 @ 15:09 Reply

    Se os valores do projeto de Andrucha são os de mercado, como alguns alegam, por que então eles não tentam viabilizar o projeto sem o uso da lei, ou seja, fazendo com que o mercado realmente pague a quantia? A realidade é uma só: jamais uma empresa aceitaria um orçamento tão absurdo se não houvesse o abatimento de 100% do investido no imposto. Quem está perdendo renda em nome do projeto é o governo e não a empresa. Talvez o mercado que alguns se refiram seja o do mundo da fantasia da lei rouanet, aquele onde não existe riscos para os players, só lucros.

  • Marcos, 23 de março de 2011 @ 17:04 Reply

    Newton

    Parabéns pelo raciocínio. Concordo com quase tudo, menos com a sua defesa de uma aprovação automática para os medalhões do audiovisual. Porque isso é uma afronta ao princípio da impessoalidade da administração pública, é abrir mão do espírito republicano por um Estado patrimonialista.

  • Dayse Cunha, 24 de março de 2011 @ 3:56 Reply

    O q sei é o seguinte: A Maria Betania pelo menos vai ter que rebolar para arranjar alguém que a patrocine – E a galera de antes, que tinha repasse d dinheiro garantido, com ou sem méritos?
    Fala Sério…
    E outra coisa, se ela conseguir é problema dela, desde q ela levante o patrocínio, não venda abadá de aché ou afoché valendo-se da legislação cultural.
    Engraçado, por 12 anos ninguém reclamou dos absurdos – Contentavam-se com migalhas – Agora, está longe de ser bacana – mas pelo menos a “Maria Betania” tem q arrumar patrocinador.
    Embora seja um absurdo – Patrocinamos U2 no Brasil, ninguém reclama.
    Enquanto os poucos ícones da nossa música são demonizados em circunstâncias semelhantes,Êta País…
    Cada dia mais desinteressante. Só resta ver o Show da Shakira, por sinal ótima…dentro do q s propõe.

  • Bruno Cava, 24 de março de 2011 @ 17:14 Reply

    Dayse,

    Você está confundindo patrocínio com mecenato.

    Patrocínio não é verba pública, porque não há renúncia de verba pública.

    Bethania foi aquinhoada com recursos públicos, isso sim, só que captados de maneira indireta.

    E, de fato, ela vai ter que rebolar muito pra afastar a imagem negativa causada por esse absurdo.

    Abraço.

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