Entidades querem, além da lei de incentivo, outros mecanismos de fomento à cultura; para elas, discutir apenas financiamento, e não política cultural, pode ser ?danoso? para o paísPor Sílvio Crespo
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06/08/2003
As principais entidades culturais do Mato Grosso reúnem-se em Cuiabá nesta quinta-feira, dia 7, para continuar a mobilização em defesa das leis estaduais de incentivo e da ampliação dos recursos orçamentários para a cultura. A comunidade artística do estado vem se mobilizando há cerca de dois meses, por meio do Fórum Mato-Grossense Permanente de Cultura.
Danos
No seminário Cultura para Todos da cidade de Bonito (MS), os produtores mato-grossenses leram publicamente e entregaram aos representantes do Ministério da Cultura documento em que afirmam que o modo como o MinC está conduzindo a situação pode ?ser danoso para o desenvolvimento e consolidação das ações culturais? no Brasil. Os signatários consideram que ?em síntese, a questão econômico-financeira ganha relevância [para o Governo Federal] em prejuízo a uma discussão sobre o que deva ser a POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA? (grifo do original).
Sistema híbrido
?As leis, suas reformulações e atualizações são importantes, mas devem ser compreendidas e operadas apenas como um dos componentes de um sistema maior de sustentação econômica e financeira de um projeto político estratégico da área da cultura?, diz o documento (leia a íntegra abaixo), fazendo referência a uma proposta de sistema híbrido de financiamento. O secretário nacional dos Museus, Márcio Meira, prometeu disponibilizar a carta no site do MinC (o que foi feito por dois dias) e afirmou que seria considerada ?grande contribuição? ao debate, segundo o documentarista e gestor cultural Sérgio Brito, presente no evento.
O documento é assinado pelas principais entidades culturais da região, como AMAV (a ABD do Mato Grosso), Associação dos Produtores Culturais do Estado de Mato Grosso, Cineclube Coxiponés, Associação dos Escritores, Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, Associação Cultural Cubo Mágico e Associação dos Artistas Visuais, entre outras. Podem participar do Fórum quaisquer pessoas e entidades ligadas à área cultural.
Como participar
O Fórum é aberto a todos os interessados. Para participar, basta comparecer à reunião desta quinta-feira, às 19h, na rua Pedro Celestino, 300, Centro. O e-mail do Fórum é forumculturamt@yahoogrupos.com.br e os telefones são: (65) 322-2088 ou (65) 9983-0528.
Leia abaixo a íntegra do documento apresentado ao Ministério da Cultura durante o seminhário Cultura para Todos em Bonito (MS).
FÓRUM MATO GROSSENSE PERMANENTE DE CULTURA
PROPOSTAS DOS ARTISTAS, TÉCNICOS, PRODUTORES E MILITANTES CULTURAIS DE MATO GROSSO
Nós, profissionais mato grossenses, atuantes nas áreas de produção, circulação, preservação e memória cultural, reunidos em Assembléias do Fórum Mato grossense Permanente de Cultura, apresentamos este documento que integra e apóia o movimento nacional pela implementação de uma política pública de cultura democrática, transparente, que respeite a diversidade e a pluralidade das culturas; que privilegie o acesso aos bens gerados pela cultura e a descentralização dos recursos destinados ao fomento e ao financiamento das atividades culturais.
Consideramos que a proposta do Ministério da Cultura em promover a realização do SEMINÁRIO CULTURA PARA TODOS merece nosso reconhecimento e apoio, pois está colocada a oportunidade de debatermos, de forma descentralizada e participativa, as questões relativas ao financiamento público e as Leis de Incentivo para cultura que, na atualidade, representam verdadeiros gargalhos ao acesso democratizado aos recursos.
Entretanto, gostaríamos de salientar que, mais uma vez, o Ministério da Cultura, ao restringir os temas previstos para o seminário às questões técnicas de gestão econômica e financeira, está reincidindo na manutenção de um equívoco que demonstrou, nas duas últimas décadas, ser danoso para o desenvolvimento e consolidação das ações culturais em todas as unidades da Federação brasileira. Em síntese, a questão econômica – financeira ganha relevância em prejuízo a uma discussão sobre o que deva ser a POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA.
Entendemos que ao adotar este procedimento, o de alijar do temário questões que pudessem contribuir com a formulação de uma política pública de e para a cultura, representa a manutenção, em escala diferenciada, do que vimos ultimamente condenando, ou seja, as Leis de Incentivo ? Federal, Estadual ou Municipal – não devem e não podem continuar a significar a política pública de e para cultura. Ao contrário, as Leis, suas reformulações e atualizações são importantes, mas devem ser compreendidas e operadas apenas como um dos componentes de um sistema maior de sustentação econômica e financeira de um projeto político estratégico da área da cultura.
Lembramos, ainda, que a Carta Magna da Nação prevê em seu Artigo 23 parágrafo V, que é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proporcionar meios de acesso à cultura, à educação e à ciência. Além disto, em seu Capítulo III, Artigo 215 estabelece que o ?Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais?.
Assim, entendemos que à necessária obediência aos dispositivos constitucionais impõe, ao Minc e aos demais gestores públicos da cultura, a exigência de desempenho que ultrapasse o atual ?papel? de aprovadores de projetos para Leis de Incentivo e de gestores de questões meramente econômicas e financeiras da cultura. Articulados com instâncias representativas da sociedade, os órgãos públicos da administração da cultura, têm, portanto, a obrigação de serem sujeitos provocadores e articuladores do processo que culmine na formulação, construção e implementação de um novo modelo de política e gestão da cultura.
Considerando o exposto e visando contribuir com os debates para a formulação de um projeto político público de cultura, nós, artistas, produtores, técnicos e militantes da cultura em Mato Grosso apresentamos as seguintes propostas:
No âmbito das Políticas
Que o Ministério da Cultura promova, a partir de conferências municipais e estaduais, a realização da primeira Conferência Nacional da Cultura com a participação de todos os segmentos envolvidos em atividades culturais, como mecanismo privilegiado para discussão e elaboração de propostas para construção do projeto de POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA;
Que seja estabelecida legislação única – inspirada no modelo adotado pelo SUS ? que regule a constituição, funcionamento e operação dos Conselhos Estaduais e Municipais de Cultura, como um dos mecanismos privilegiados de Controle Público da política pública de cultura;
Que sejam desenvolvidas ações articuladas e intersetoriais (educação, ciência e tecnologia, meio ambiente etc) que promovam e assegurem, efetivamente, a descentralização, estimule o desenvolvimento da produção e circulação regional, e que promova intercâmbio de iniciativas entre os Estados;
Que o Ministério da Cultura articule com as Universidades, especialmente as de caráter público, o desenvolvimento de estudos e pesquisas com vistas a (re)conhecer a cadeia produtiva da cultura enquanto geradora de trabalho, renda e riquezas e suas potencialidades contribuintes para implementação de projetos estratégicos de desenvolvimento socioeconômico para o país;
Que o Ministro, os Secretários Estaduais e Municipais da Cultura engendrem esforços junto aos Deputados Federais e Senadores para que acatem as emendas apresentadas à Reforma Tributária, no que se refere à manutenção das Leis Estaduais de Incentivo à Cultura, ameaçadas de extinção no texto proposto pelo Governo Federal. Entendemos que apoio à cultura não é guerra fiscal, e sim um compromisso do Estado com seu próprio povo e sua diversidade cultural.
Os mesmos esforços devem ser empreendidos visando à aprovação integral do projeto de Lei da Deputada Jandira Feghali que regulamenta a regionalização e participação da produção independente na programação das emissoras de Rádio e Televisão do país.
Que os recursos a serem aplicados pelas empresas estatais na atividade cultural, tenham caráter nacional e sejam disponibilizados, através de editais públicos, com a definição de cotas regionais estabelecidas de acordo com critérios consonantes à política pública de cultura.
No Âmbito do Financiamento e Fomento Propomos:
Que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios ampliem os recursos orçamentários destinados à Cultura;
Que os recursos oriundos de incentivos sejam destinados exclusivamente ao atendimento da demanda oriunda da sociedade através de projetos que objetivem produção, circulação, preservação e memória, capacitação e qualificação profissional na área da cultura. Vedando a concorrência de órgãos públicos da administração direta e indireta na viabilização e captação de recursos, via renúncia fiscal, para seus projetos;
Que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ? BNDES, incorpore, em suas carteiras de incentivo e fomento, linhas de crédito para a área da cultura, principalmente, a projetos que visem a implantação e modernização de equipamentos e espaços culturais, priorizando cidades que não integram o centro-sul brasileiro;
Que o Ministério da Cultura, articulado com outros Ministérios e com vistas a combater a pirataria e o contrabando, formule proposta de revisão e de isenção tarifária para produtos e serviços destinados à produção, circulação, preservação e memória da cultura;
Que sejam implementados normas e procedimentos que limitem o auto-investimento das empresas e corporações em projetos próprios com recursos das leis de incentivo. Sugerimos, entre outras medidas possíveis, que para cada REAL aplicado em projeto próprio, estas ?Fundações e Institutos? sejam obrigados a aplicarem igual valor em projetos de caráter independente.
FÓRUM MATO GROSSENSE PERMANENTE DE CULTURACUIABÁ, 17 DE JULHO DE 2003
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