Mudanças na Fundação Joaquim Nabuco

Aos poucos, a Fundação Joaquim Nabuco vem desenhando os contornos da nova gestão. Reportagem do jornal Diário de Pernambuco informa que, há menos de um mês, veio o anúncio do enxugamento do quadro, que a pedido do ministro da Educação, Fernando Haddad, mobilizará cerca de 25 a 30 cargos comissionados para duas secretarias recém-criadas pelo ministério, em Brasília.

Agora, veio a notícia de que as diretorias de cultura e documentação serão fundidas em uma única pasta, a Diretoria de Memória e Cultura, a ser assumida por Silvana Meireles.

Na última sexta-feira (2/9), Isabela Cribari (cultura) e Rubia Campelo (documentação) entregaram seus cargos. Uma nova diretoria, de formação, será criada para cursos de mestrado, de curta duração e qualificação de servidores.

As mudanças devem refletir nas quatro coordenações que estavam sob o comando de Cribari: a Editora Massangana, a Massangana Multimídia (da qual faz parte o Centro Audiovisual Norte-Nordeste), as gerências de artes plásticas e cinema, e a coordenação de Difusão Científico-Cultural. Há indícios de que os quatro departamentos se tornem uma única coordenação.

Leia a carta de despedida de Isabela Cribari:

Cultura é Educação. Educação é Cultura

Deixo a Fundação Joaquim Nabuco. A instituição onde tive o prazer e a honra de participar à frente da Diretoria de Cultura. Fundação a qual meu avô, Antíogenes Chaves — com dedicação e serviços prestados muito mais relevantes que os meus — me ensinou a amar e respeitar desde a infância. Hoje, a sua memória dá nome a um dos prédios da Casa, enquanto Nelson Chaves, meu tio, nomeia o seu principal prêmio.

Foi ur­dida por este respeito que aceitei o convite, em 2003, para dirigir os trabalhos da Cul­tura. A responsabilidade maior, no entanto, era fazer jus ao pensamento tão contem­porâneo de Gilberto Freyre. E colocar a cultura a serviço da formação e da educação do homem brasileiro. Sob este compro­misso, montamos uma política cultural para além dos muros da instituição. Criamos interlocução de saberes. Apoiamos multidiscipli­naridades. Promovemos a convivência e troca com estudantes.

Mestres. Doutores. Artistas. Professores. Produtores. Profissionais liberais. A sociedade.

Implementei a política cultural que acre­dito. O princípio fundamental não era tão-so­­­­­­mente levar o conhecimento da Fundação Joaquim Nabuco a outros lugares. Mas receber e partilhar conhecimentos de outros lugares e pessoas. Numa relação viva. De mão dupla.

No serviço público é comum observarmos a postura reativa de alguns, reagindo muito e fazendo pouco. Justifica­tivas para não fazer as coisas de fato acontecerem brotam todos os dias nos gabinetes. Os engessamentos a que as instituições públicas estão submetidas por si só já justificam parte dessa inércia. Mas encontrei uma equipe diferenciada na Fun­dação Joaquim Nabuco. Ao lado da equipe que entrou comigo (e que me honra chamar para sempre de parceiros valorosos), a “gente da Casa” teve perfil ativo ao invés de reativo. Reclamou pouco e fez muito.

Focamos nossa atuação nos princípios de formação que propiciasse a reflexão. A di­fusão educativo-cultural. O fomento para diversos setores, colocando a cultura a serviço da educação. Nisto seguimos o conceito basilar de “homem situado”. Como ensinou Gilberto Freyre. Mas também os passos de educa­dores como Adolfo e Bertha Lutz. Eles ensinaram que os bens científicos e culturais precisavam se transformar em instrumentos modernos de educação. Os passos de Ro­quette-Pinto. Da sua educação po­pular pelo rádio. Que criou a rádio educativa. Do educador Humberto Mauro, que montou o Instituto Nacional do Cinema Edu­­cativo. E colocou este bem cultural do país a serviço da educação. Como pensou e agiu o músico Vil­la-Lobos. Da música a serviço da edu­cação.

Todos eles entenderam que situar o homem culturalmente era a forma de educar mais plenamente este homem. Este é o papel das políticas públicas. Orga­nizar e difundir a cultura, organicamente. Elevar os conhecimentos da
identidade nacional. Da língua. Da história. Dos costumes.

Fi­zemos assim. Educação a serviço da cultura. Cultura a serviço da educação. Da edu­cação. Não apenas da escola. Ivan Illich nos ensinou assim. Assim ecoaram os grandes educadores deste país.

Agradeço ao Ministério da Educação e à Fundação Joaquim Nabuco a possibilidade de contribuir para esta união. Agradeço à minha equipe. Aos servidores da instituição. Aos nossos parceiros e apoiadores por todas as ações. Cada uma delas. E não foram poucas.

Destacamos a implantação, com o MinC, do Centro Audiovisual do Norte e Nordeste (Canne). A restauração e implantação de um centro cultural no Engenho Massangana. Deixo ali agenda marcada para visitação de 30.000 alunos da rede pública. A edição e publi­cação da Coleção Educadores. Um dos maio­res projetos editoriais do país. Com distribuição de mais de 11 milhõe de livros nas escolas públicas do Brasil. A difusão do pensamento e a contribuição mais relevante de pensadores nacio­nais e estrangeiros para a educação. Da edição de importantes livros para a Presidência da República.

Para o Ministério da Educação da França. Da realização do projeto Poe­mas Animados. Da adaptação do poema Morte e Vida Severina para os quadrinhos e para a animação. 50 mil escolas do Brasil alcançadas. Mais de 20 milhões de
especta­dores. Da criação do Cine Educação. Do cinema na­cional como ferramenta pedagógica no conteúdo formal de educação nas salas de aulas.

Convênio assinado para 1.000 escolas em Pernambuco. Acordos firmados para estender o programa para todas as escolas públicas estaduais do Nordeste. A implan­ta­ção do setor de arte-educação na Fundação Joaquim Nabuco. A reforma do Cinema da Fundação. A garantia de acesso gratuito a este cinema aos professores. A criação do concurso de roteiros de documentários Rucker Vieira. Um dos melhores prêmios do país. A criação do prêmio Mário Pedrosa
de ensaios sobre arte e cultura contemporânea. Do concurso de videoarte. Todos de alcance nacional. A compra e acesso púlbico a um dos mais importantes acervos de videoarte da América do Sul. Dos cursos e de coleção de livros sobre estudos da cultura contemporânea.

Que cada ponto se transforme em vír­gula. Caso se entenda no futuro o que aqui se fez.

Deixo a instituição com a certeza do dever cumprido com o Fernando — o Lyra, que me convidou a vir. Com o Fernando que me convidou a continuar — o Freire.

Perma­neço com a convicção de ter sido fiel aos ideais do criador. Ao pensamento tão atual do patrono.

Permaneço firme nas minhas convicções mais profundas. Principalmente. Elas me movem a trabalhar com tamanha paixão.

Isabela Cribari

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