Músicos no Ar

É difícil separar a história do Rádio e da Música no Brasil.

A primeira emissora considerada oficial surgiu em 1922 com a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Roquette Pinto. Era uma espécie de “clube de ouvintes”, que pretendia difundir a cultura de qualidade. O próprio Roquette declarou quando da inauguração: “Eis uma máquina importante para educar o nosso povo”.

Por mais vontade e voluntários que ela tivesse, frente à competição das emissoras comerciais, não foi possível bancar os sonhos e os custos sozinhos e, a partir de 1936, ela foi doada ao governo, onde veio a se instalar no Ministério da Educação e Saúde que, à época, era comandada pelo saudoso e famoso Gustavo Capanema. Dela surgiu e existe até hoje, a Rádio Mec.

O Rádio cresceu mais a partir dos anos 30 e 40 e foi nesse período que surgiu a principal emissora, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, estatal, mas voltada para a cultura popular, que tinha uma projeção, guardadas as proporções, equivalente à de uma Rede Globo de hoje.

A principal força da Nacional nesse início vinha da música popular: dos grandes cantores que se apresentavam ao vivo e das orquestras que os acompanhavam. Ali surgiram alguns dos principais talentos da nossa música: Noel Rosa, Almirante, João de Barro, Wilson Batista, Ismael Silva, Carmen Miranda, etc. Era uma sinergia tal, que mais tarde, o Lamartine Babo, por exemplo, levava diariamente uma canção inédita para irradiar ao vivo em um programa que produzia chamado: “A canção do dia”.

Esse casamento da Música Popular e do Rádio ajudou a forjar a nossa nação e criou uma espécie de memória coletiva do país.

Muita água correu de lá pra cá: surgiram muitas emissoras novas, abriu-se todo um possível novo espectro musical com o FM, um enorme desenvolvimento tecnológico, mas o espaço para a música popular brasileira, variada, ampla o suficiente para receber e tocar toda a nossa gama musical, inclusive a instrumental, continuou sempre muito difícil. Já temos uma boa história nessa tentativa de criar emissoras um pouco mais alternativas e qualificadas.

Entre as boas rádios que sucumbiram a partir dos anos 80 estão a Bandeirantes FM do L.C. Gimenez e do Dilson S. Maia (ampla em gêneros musicais), a Excelsior FM do Maurício Kubrusly(que não repetia as músicas!), a Gazeta FM com a equipe da Mana Kfouri (seleções de qualidade), a Eldorado FM do João Lara Mesquita (ainda no ar, mas sem o “punch” que já teve), etc. Lembro também da famosa JB AM do Rio, quando comandada pelo Luiz Carlos Saroldi e todo o envolvimento que tinha com a parte cultural.

Todas, praticamente, sucumbiram por não conseguirem se sustentar comercialmente num mercado que só valorizava o volume de audiência e não a qualidade.

Eu participei de três dessas opções: Bandeirantes FM, Eldorado FM e JB AM e sei quantos órfãos sobraram e como empobreceu a integração com a área musical.

Hoje, além da maravilhosa diversidade que a Internet proporciona, principalmente nas rádios online (que são mais tipicamente internacionais), continua fazendo falta um espaço no dial, livre, aberto a todos e que envolva essa comunidade num espírito de criação e troca cultural contínua.

Um dos poucos respiros ainda existentes agora está em risco e, por ironia, em uma emissora que se diz “pública”. A Rádio Cultura AM de São Paulo, pertencente à Fundação Padre Anchieta é uma “filha” clara do sonho do Roquette Pinto e da instalação, ainda não bem sucedida no Brasil, do conceito das emissoras públicas.

A outra ironia é que embora a nossa música popular seja provavelmente quem mais contribui para uma imagem positiva do país no exterior, não consegue um abrigo de qualidade nem mesmo junto à uma emissora de AM que mal consegue fazer o seu sinal ser escutado em várias partes da cidade.

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