Desde que a Casa do Núcleo foi inaugurada, aqui em São Paulo, eu ouço falar muito de Benjamim Taubkin. Muitos dos meus amigos músicos costumam dizer como ele é um cara bacana, que além de ótimo músico tem excelentes ideias para o desenvolvimento da produção cultural no Brasil, sem contar o importante trabalho de intercâmbio musical com artistas de várias partes do mundo.
Na última semana estive na Casa para conversar com Taubkin. Começamos com um rápido depoimento em vídeo sobre o Procultura, que será assunto do seminário promovido pelo Cultura e Mercado e o Cemec no próximo dia 19 de maio. Aí já percebi que a próxima hora de conversa seria riquíssima. E não me enganei.
Taubkin é daquelas pessoas que falam calmamente, com uma paciência digna de professor, e sempre com um otimismo contagiante. Mesmo nos assuntos mais espinhosos, ele acredita que é possível mudar e melhorar. Faz isso na Casa do Núcleo, que existe há pouco mais de um ano, conta com seis funcionários fixos e se mantém – não sem dificuldade, mas sempre acreditando que é possível – sem patrocínio algum. “Se uma empresa chegar aqui e te oferecer um patrocínio pra Casa, você não aceita?”, perguntei. “Não”, respondeu prontamente.
Também os discos lançados pelo Núcleo não contam com patrocínio. Como conseguem? “A gente tenta colocar os preços reais, trabalha em parceria com os estúdios e com os músicos, paga um valor possível pras pessoas, não um valor de patrocínio. Se eu tenho recurso, falo: ‘é assim e pronto’. Como eu não tenho, tenho que criar, e isso é bom, é saudável. Não estou fazendo apologia do sofrimento. A gente tem tudo contadinho, mas é um exercício, e acho importante. Acho que tem outros jeitos de captar e quero trabalhar esses outros jeitos. As pessoas podem se associar, podem colaborar, podemos criar produtos da casa. Quero que haja uma relação direta. É um desafio, mas acho que a gente tem que encarar e seguir”, explica.
Experiência – Pode parecer utópico demais, mas Taubkin não é nenhum novato e sabe o que está dizendo. Entre outras inúmeras atividades, já passou pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, foi um dos fundadores da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), coordenou o Núcleo de Música do Itaú Cultural e desde meados da década de 1990 mantém o Núcleo Contemporâneo – que deu origem à Casa -, surgido a partir de uma necessidade pessoal de encontrar novos rumos na música.
Taubkin começou a organizar concertos com 17 anos. Aos 19, produzia três projetos grandes: um de música no parque no Morumbi; outro de musica instrumental toda sexta-feira à meia-noite no Teatro Municipal; e um de música no MIS e Paço das Artes. Há 10 anos é curador de música no Mercado Cultural da Bahia. Em 2005, criou o Coletivo América Contemporânea, resultado de uma inquietação com o isolamento do Brasil no continente. “Sempre fui fazendo projetos que me animavam e que eu achava que tinha que fazer. Fui encontrando os meios e os parceiros.”
“Nunca foi um perrengue pra você?”, pergunto. “É difícil, às vezes eu estou devendo, mas vou equilibrando. Procuro ter uma calma em relação a isso e acredito muito na soma das coisas. Acho que você tem que por a roda pra girar. Num movimento, muita coisa pode acontecer. Muita gente me procura, músicos, produtores, pra conversar… eu sempre converso. Algumas depois voltam e dizem que desistiram. Eu sempre olho pra elas e penso: ‘Ô ser de pouca fé’. Sabe por quê? Porque às vezes a pessoa está quase lá. Mas elas passaram a imaginar muito pouco delas mesmas e a relação com a vida fica pobre. Não quer dizer que não vai ser difícil. É difícil. Mas se você segue, coisas acontecem.”
Música instrumental – “Comecei a trabalhar como músico com 21 anos. Toquei à noite, com dança, com teatro, com artistas… e eu tinha uma vida feliz. Num dado momento, percebi que as relações profissionais não eram tão bacanas. Senti que nessas relações o espectro não era tão grande, as possibilidades não eram muitas, e que não ia ter muito espaço para me desenvolver e desenvolver relações mais interessantes”, conta.
Outra coisa é que na época dizia-se que era impossível viver de música instrumental. “Mas eu perguntava se as pessoas tinham experimentado e elas diziam que não. Daí fiquei um pouco intrigado com isso e resolvi experimentar. Sempre reagi a entrar no coro do ‘Não dá’. Não acho saudável.”
Em 1994, depois de promover um encontro de produção independente – que deu origem à AMBI -, Taubkin reuniu-se com Toninho Ferraguti, Mané Silveira e Teco Cardoso. Surgia o Núcleo Contemporâneo, que teve seu primeiro encontro em outubro de 1996 e, seis meses depois, lançava seu primeiro disco.
Para saber se havia mesmo ou não o interesse por música instrumental, ele mesmo começou a ir nas lojas entregar os CDs. E viu que havia interesse sim. “A gente montou uma distribuição assim, um ano antes da crise. Mesmo depois, continuou vendendo, e vende até hoje. Diminuiu, mas hoje a gente fabrica disco.”
Desde 2004, Taubkin é quem segura as pontas, é o responsável pelo Núcleo Contemporâneo e pela Casa do Núcleo. “A experiência de você pensar a produção e exercer isso tem um lado chato. Mas é chato se você não está olhando mais pra frente. De alguma forma isso fazia e faz muito sentido pra mim, até hoje”, diz.
Não é a toa que um amigo diz que desde criança ele não brincava, fazia projeto. “Eu tenho essa paixão por gestão e produção. Gosto de pensar a música. Não conseguiria só tocar. Por que músico teria mais privilégios que outras áreas da sociedade? Um professor, por exemplo, apaixonado por educação, poderia dizer que o negócio dele é só passar conteúdo. Mas o cara rala pra caramba, passa três horas no ônibus pra chegar no lugar… Porque você é músico não vai se esforçar? De onde tirou isso? Acho que música é um privilégio tão grande, que se você usá-la pra outras coisas da vida, você pode fazê-las de um jeito muito bacana. Porque a própria música vai te estimular a ter criatividade.”
Casa – A Casa do Núcleo surgiu de um desejo antigo de ter um espaço físico, um pequeno centro cultural. “Não é fácil, mas estamos fazendo”, conta Taubkin. A ideia é ter concertos à noite, oficinas durante o dia, fazer seminários, encontros. Também há uma pequena loja de livros e discos e um acervo aberto para consulta. “A gente quer que as pessoas venham. E a médio prazo que elas venham aqui durante o dia, tomem um café, se encontrem. Temos muita conversa e discussão sobre viabilidade, sustentabilidade. A casa ainda não se paga totalmente, é uma busca pra gente, como fazer isso. Temos várias ideias e caminhos.”
A programação reúne músicos que procuram o espaço e conhecidos de Taubkin. E a média de público tem sido crescente. “O que era um público há um ano hoje já é fraco. Mas a gente é muito específico, porque não é balada e não é bar. As pessoas não vêm por vir, elas vêm em função de quem vai tocar. Isso é um desafio. Você tem que estar muito ligado na programação que se faz.”
Download – Taubkin acredita que toda forma de disponibilizar música é ferramenta. “Eu sou a favor de todas, mas acho que as outras coisas devem ser mantidas. Nunca acreditei no discurso de que irá substituir. Essa conversa já rolou várias vezes, e acho que ela é ingênua. A imprensa há anos diz que o disco morreu, mas isso é uma perversidade, porque não morreu, mas você estimula a pessoa a não comprar. Agora a imprensa não fala que o jornal morreu”, provoca.
Segundo ele, se formos pensar nas questões que fazem dizer que o disco morreu, o jornal morreu muito antes. “Pra que você vai comprar um jornal, se pode ter acesso na internet a 100? Por que você vai comprar um jornal que a notícia é de ontem, se você abre a internet e vê a notícia de agora? De infinitas fontes, com imagem… Tem que pensar no DJ, no rapper… CD vende menos, mas vende. E se você não tivesse toda essa campanha contra, estaria vendendo mais”, conclui.
Criação – Apesar das várias ferramentas, para Taubkin, os trabalhos artísticos hoje estão menos profundos criativamente, especialmente nos grandes centros. “Sinto falta de uma maior diversidade criativa. Às vezes surge um caminho e as pessoas vão por ele. De qualquer forma, eu acho que hoje é possível viver de música. Mas o tempo se acelerou muito, o que tem o lado bom e o lado difícil, porque você precisa de um tempo maior pra se aprofundar, e eu sinto menos profundidade. Você tem muita informação, mas não lê nada até o final. Você vive numa atmosfera às vezes muito criativa, mas vive na superfície. Acho que, caiu a grande indústria, mas muita gente no fundo segue acreditando no mesmo modelo, então perde-se oportunidades”.