Novas regras do Jabuti empolgam, mas já trazem brecha

O mais tradicional prêmio da literatura brasileira, o Jabuti, anunciou para sua 53ª edição “as maiores mudanças de sua história”. Em vez de premiar os três primeiros colocados em cada categoria, a premiação da Câmara Brasileira do Livro (CBL) passa eleger apenas um vencedor. Apenas o primeiro lugar receberá uma estatueta e poderá concorrer aos prêmios máximos de livro do ano de ficção e não-ficção. O número de categorias foi ampliado, passando de 21 para 29.

Foram criadas as categorias ilustração, gastronomia, turismo e hotelaria. A categoria arquitetura, urbanismo, artes e comunicação foi desmembrada em três: arquitetura e urbanismo; artes; e comunicação. Ciências exatas, tecnologia e informática, foi desmembrada em duas categorias: ciências exatas; tecnologia e informática. O mesmo aconteceu com ciências naturais e da saúde, e com psicologia, psicanálise e educação, a última separada das duas anteriores e agora com status de categoria.

Karine Pensa, presidente da CBL, evitou falar de maneira direta sobre o boicote anunciado pelo Grupo Editorial Record, um dos maiores do Brasil, após a premiação de 2010. “[O boicote] gerou uma discussão democrática que beneficiou o prêmio”, afirmou Karina.

Os protestos da Record resultaram na formação de uma comissão composta por 12 integrantes do mercado editorial e 20 membros da CBL para repensar o regulamento do Jabuti, chegando ao novo formato. Satisfeito com as mudanças, o presidente do Grupo Record, Sergio Machado, em entrevista ao jornal O Glboo, anunciou que desiste do boicote e concorre ao prêmio de 2011.

“Com essas novas regras Chico Buarque não ganharia livro do ano em 2010, certo? Percebo que estava com a razão. Fui muito criticado por protestar contra o formato do prêmio. Prevaleceu o bom senso. Volto a concorrer”, disse Machado, contando que foi convidado pela CBL a fazer parte da comissão, mas declinou. “Como fui eu quem provocou a discussão, achei que não deveria participar. Quis deixar os integrantes da comissão livres e à vontade. As mudanças tornam o Jabuti mais transparente. Estou muito feliz com o resultado e percebo o quanto minha manifestação foi necessária para desencadear estas transformações.”

Em 2010, a Record inscreveu no Jabuti 108 títulos, o que corresponde a um aporte financeiro de cerca US$ 10 mil. As inscrições para o prêmio são pagas. Em 2011, o valor por título para associados da CBL é de R$ 180 e para não sócios, de R$ 275. Neste ano, Machado espera inscrever um número igual ou maior de obras. No total, em 2010, foram inscritos no Jabuti 2.867 livros. A expectativa da CBL é ultrapassar a marca de 3.000 inscritos em 2011.

Curador do Jabuti há 21 anos, José Luiz Goldfarb, comemorou as mudanças. Disse que premiar somente o primeiro lugar de cada categoria era “um sonho antigo”. “A mudança valoriza o vencedor, assim como toda a cadeia produtiva”, disse.

Questionado sobre a manutenção no valor financeiro do prêmio, num momento no qual prêmios maiores em dinheiro como o Portugal Telecom e o Prêmio São Paulo de Literatura ganham espaço, Goldfarb afirmou acreditar que a importância do Jabuti não está no dinheiro. “A estratégia do Jabuti não tem a ver com seu valor financeiro, e sim com sua tradição e respeito.”

Quadrinhos – Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo apontou para o fato de que as novidades no regulamento do Jabuti dão margem a um aspecto para o qual nem Goldfarb nem a Comissão do Prêmio Jabuti 2011 haviam atentado: a categoria ilustração (“ilustrações de caráter técnico, científico ou artístico de obras gerais”) permite a inscrição de livros de histórias em quadrinhos.

Até 2010, só havia categoria de ilustração específica para livro infantil e juvenil – em 2008, Gabriel Bá e Fábio Moon levaram o Jabuti pela adaptação em HQ de O Alienista, mas como álbum didático paradidático.

Questionado pelo jornal sobre a possibilidade da inscrição de HQs, Goldfarb reagiu com surpresa. “Não havíamos pensado nisso. Acho ótima ideia, mas criamos a categoria pensando mais em ilustrações de obras científicas, por exemplo”, disse, antes de consultar Karine Pansa e membros da comissão, e voltar com a dúvida: “Eles também se surpreenderam. A princípio, ninguém é contra. Poderemos dar resposta mais precisa antes do início das inscrições, amanhã.”

*Com informações dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo

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