Ninguém contesta os avanços da política cultural brasileira. A sociedade brasileira finalmente se viu reconhecida nos discursos entusiasmados, ideias inovadoras e programas ousados, sintetizados e apresentados à socieade por Gilberto Gil. Visualisamos pela primeira vez cultura ocupando um lugar estratégico na política, no plano de governo e no projeto de desevolvimento do país. Mas ainda estamos muito longe de ver isto virar realidade.

Dilma Rousseff eleita, precisamos pensar nos novos desafios culturais de seu governo, já que a campanha se configurou como um ambiente de debate infértil. Lanço aqui algumas questões que considero prioridade para o novo governo, sonhando com um/a novo/a ministro/a com visão ampliada, capacidade gestora, humildade e, principalmente, diálogo.

1. EDUCAÇÃO: todas as pesquisas de opinião colocam a educação como o principal desafio do Brasil. A pergunta que devemos reponder é: o que a cultura pode fazer pela educação? Como transformar as nossas escolas (atrasadas, sem qualquer perspectiva de encantar, atrair e reter crianças e jovens) em centro culturais, de convivência, de troca e de livre expressão?

2. COMUNICAÇÃO: vivemos um debate intenso sobre regulação e democratização dos meios de comunicação. Qual a contribuição das políticas culturais para promover a participação crescente da população no processo de mediação e difusão de conteúdos? Como contribuir para a garantia da ampla liberdade de expressão, sem coibir os meios existentes, mas garantindo a inserção de novos agentes comunicadores na sociedade?

3. INFRAESTRUTURA: o presidente Lula prometeu construi 1 mil novos centros culturais, sobretudo nas cidades com baixo IDH. O projeto das BACs foi abandonado antes de ser implementado e o único edital para este fim saiu no último ano de mandato. Ou seja, a maior parte da população brasileira é privada dos serviços culturais, tão essenciais quanto os de educação, saúde e segurança. Isso impede que os agentes culturais de todo o país façam suas obras criativas circular, inibindo o mercado e as possibilidades de diálogo da nossa rica diversidade. Isso não é culpa da Lei Rouanet nem da iniciativa privada. É responsabilidade do Estado. Qual a política do Brasil para a infraestrutura de cultura?

4. FINANCIAMENTO: o maior vício da relação entre governos e agentes culturais é o clientelismo, a política de balcão, a lógica de projetos e abordagem setorial (que além de privilegiar o corporativismo e o já falado clientelismo, reforça a abordagem meramente econômica, além de fechar as portas para as novas linguagens e possibilidades artísticas que não se encaixam em nenhum setor organizado). Precisamos repensar o modelo de financiamento público, abarcando as várias nuances e necessidades culturais da nação, desde a INFRAESTRUTURA, passando por investimentos ESTRUTURAIS, como corpos estáveis e ações locais, a exemplo dos Pontos de Cultura. Além disso, é preciso incentivar o MERCADO e o empreendedorismo, pois há uma série de atividades culturais que poderiam sair da tutela do Estado, dando espaço para a crescente e infindável produção cultural de todo o país. Por último, precisamos de um política de financiamento à INDÚSTRIA CULTURAL brasileira, com empréstimos subsidiados e redução de impostos. A solução proposta pelo atual governo, o Procultura, em vez de atacar o problema, que é complexo e difícil, cria um arremedo estatal grotesco de um sistema que já se mostrou ineficiente e insuficiente.

5. GESTÃO: o maior problema do Ministério da Cultura não é saber o que fazer, mas como fazer. A falta de prioridades e metas factíveis, a ciência da falta de estrutura. O abismo entre o que se propõe a fazer e o consegue realizar torna-se o maior calcanhar-de-Aquiles da cultura, não somente desta atual gestão. As saídas são improvisadas, sem metodologias e planejamento. Programas são criados e abandonados no meio do caminho. Mais tarde são retomados do zero, reinventados como se nada tivesse sido realizado.

6. CULTURA VIVA: o programa Cultura Viva merece um destaque especial. Uma excelente ideia e uma proposta inovadora que se tornou um problema incontornável para inúmeros agentes culturais. Por má gestão governamental, muitas organizações culturais (avalio de 80% dos atuais Pontos) sofrem algum tipo de pendência administrativa, de falta de recebimento, contas vetadas, inadimplência. Até as mais estruturadas sofrem com a burocracia estatal. As menos estruturadas tornam-se inoperantes. O primeiro desafio é sanar esses problemas. Depois, precisamos retomar a força dos Pontos de Cultura, com mais inteligência, colaboração e reinvenção da relação do Estado com as organizações culturais. Em primeiro lugar devemos reconhecer os milhares de Pontos de Cultura existentes no país, não só aqueles que recebem dinheiro do governo. Minha conta é que existem cerca de 150 mil (e não os atuais 2 mil). Depois, precisamos redimensionar o programa para atuar com esses 150 mil, senão a relação do governo cai no mais baixo nível de clientelismo existente. A própria Dilma disse em campanha que não é favor de projeto-piloto, mas de políticas abrangentes e direitos universais, não direcionados a poucos (que se tornam privilegiados).

7. BANDA LARGA: a nova presidenta foi visionária ao apontar que o seu governo será reconhecido pela universalização da banda larga, com caráter público e acesso irrestrito aos cidadãos. Considero esta a mais importante ação governamental para reduzir o abismo do acesso à cultura, garantia mínima dos direitos culturais previstos na Consituição Brasileira. O desafio da cultura é como introduzir os cidadãos ao mundo da Internet, oferecendo oportunidades além dos estímulos das grandes corporações de mídia e entretenimento, que afugentam o cidadão numa lógica do consumo e do espetáculo.

8. MEMÓRIA: mais do que nunca precisamos dar ouvidos a intelectuais como Marilena Chauí, Darcy Ribeiro, entre vários outros, criando condições de recriarmos nosso mito fundador, a partir do protagonismo das nossas diversas matrizes culturais, do índio, negro e novos imigrantes, que transformam o Brasil numa das mais diversas e complexas sociedades da atualidade. Reconhecer, valorizar e aprimorar as políticas para a memória é fator fundamental para o desenvolvimento da nação brasileira.

9. DIREITOS CULTURAIS: garantir a todos o acesso à cultura e a livre expressão é condição básica para o desenvolvimento humano. Isso se dá na escola, mas também nos centros culturais, bibliotecas, lan houses, espaços de convivência, terreiros, igrejas, praças públicas. O Estado não pode se furtar a cumprir este dever constitucional, que é primordial para o projeto de futuro do país. O mais antigo direito cultural, garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, é o direito autoral, que precisa encontrar seu equilíbrio entre a garantia de acesso e a subsistência dos artistas e empresas culturais.

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Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

21Comentários

  • gil lopes, 7 de novembro de 2010 @ 16:06 Reply

    A anti política cultural no Brasil está centrada na valorização do produto cultural importado em detrimento do nacional. Se impõe através da midia e da vanguarda do processo tecnológico, se utiliza periodicamente do câmbio a seu favor e mais recentemente do incentivo fiscal dado pelo governo via Lei Rouanet e Leis estaduais de isenção de ICMS. Goza portanto de vantagens comparativas e usufrui o mercado brasileiro de forma hegemônica.
    A anti política cultural no Brasil não dá resposta para a debacle da música nacional, a mais importante manifestação cultural brasileira. Derrotada a economia da música no país, a anti política cultural brasileira trata de aproveitar o vazio ampliando a participação e presença do produto estrangeiro.
    Não há política nacional alguma que não seja a de enfrentar a anti política cultural estabelecida entre nós e que nos impõe perdas significativas.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 7 de novembro de 2010 @ 18:00 Reply

    “Dilma Rousseff eleita, precisamos pensar nos novos desafios culturais de seu governo, já que a campanha se configurou como um ambiente de debate infértil”.

    Leonardo

    Gostaria, a partir deste trecho acima, de colocar as questões de políticas públicas de cultura e a demasiada visão dos amantes dos processos corretivos, o que, a meu ver, é um verdadeiro erro.

    Você, assim como muitos, classifica que a campanha se configurou como um ambiente de debate infértil. Eu vejo o oposto, uma imagem clara e bastante producente que pode nos trazer ricas reflexões. A primeira delas é a de revelar uma sociedade livre de se transformar em uma teocracia e de se deixar dominar pelos fanatismos doutrinários que, na maioria dos casos, estão mais a serviço de grandes grupos expansionistas que andam pelo mundo do que propriamente a seitas ou religiões. Isso é motivo de comemoração. Essa nossa religiosidade macunaímica, meio lá meio cá, é extraordinária, pois liberta.

    Ao mesmo passo, vimos uma outra parcela da sociedade reagir com veemência contra esse apelo nitidamente jogado na campanha pelo declarado apoio da mídia ao candidato José Serra. E aí, Leonardo, vamos compreender que a sociedade se impôs diante dos abusos da concentração de informações, a qual podemos classificar como monopólio das manchetes e escândalos, já que estão nas mãos de apenas quatro famílias, ou seja, precisamos, antes de falar em liberdade de imprensa, respeitar a liberdade de expressão e opinião da sociedade, e isso só se faz com a política de democracia no meios de comunicação, melhor dizendo, expandir o máximo os espaços, os canais de transmissão para conseguirmos o tão sonhado direito à pluralidade de ideias.

    Nesta eleição o povo brasileiro, ao reagir contra a força da mídia e seu jogo de manipulação, mostrou, sobretudo uma vitalidade cultural extraordinária. Então, fica bastante explícita a soberania cultural do cidadão brasileiro. O samba da bolinha do Tantinho da Mangueira virou um sucesso por descadeirar a armação da mídia. Basta agora para termos de fato políticas públicas, respeitar essa inegável força dos ventos que, historicamente sempre determinou os rumos da nossa cultura.

    O que tivemos até então são as instituições formais se negando a seguir o traçado determinado pela sociedade. Digamos que é preciso construir mais pontos sem nós, sem grades, sem donos e, sobretudo sem orientações pedagógicas no que diz respeito a qualquer apelo de enxergar a cultura pela lógica das técnicas, pois essas nos deram muitos técnicos e poucos artistas para criar ou para fomentar através de sua sensibilidade as manifestações que a sociedade exige como exigiu nas urnas.

    A sociedade deixou claro que não aceita qualquer cabresto, mas, sobretudo que ela valoriza a nossa cultura festeira de comunhão sem a necessidade de comungar com nenhum papa de nada.

  • Leonardo Brant, 7 de novembro de 2010 @ 18:05 Reply

    Você tem razão Carlos. A grande mídia se perdeu e se igualou, em termos de responsabilidade civil, aos aventureiros da web. Sem dúvida foi um grande aprendizado. Pode ter sido o tiro de misericórdia… Mas, em contrapartida, não houve um veículo sequer que tenha conseguido fazer uma discussão aberta, democrática e livre. Ou estava de um lado, ou do outro. E falavam sempre para os convertidos, cada um na sua. Nós, aqui do outro lado, temos o direito de ler tudo e fazer o nosso juízo. Mas precisamos garantir a todos essa capacidade. Vamos debater! Abs, L

    • Cabeto Rocker, 9 de novembro de 2010 @ 13:08 Reply

      Caro Leonardo Brant,

      Obrigado por mais essa oportunidade de canal aberto às discussões culturais. Recomendo à [email protected] a leitura do livro Ponto de Cultura, o Brasil de baixo para cima, de Célio Turino. Nesse livro ele conta toda a saga trilhada para dar início à esse projeto que já ganha a atenção de diversos países da América Latina e também da europa. Claro, nenhum programa é perfeito pois é feito por inperfeitos humanos, mas vale a pena ver como na sua base, simples e direta, há a possibilidade de se implantar um programa que parte da valoração da cultura brasileira, com injeção de recursos direto na fonte (não dando muitas oportunidades para desvios). Certo, existem muitos pontos com problemas jurídicos e atpe de entendimento maior dos preceitos do Programa Cultura Viva e ponto de Cultura. Mas é gratificante omar conhecimento e vivenciar que é possível se fazer programas que tragam à luz o potencial do povo brasileiro que se reinventa através de seus fazeres culturais e suas tradições. Que possamos fazer crescer esses nove pontos indicados para início de discussões e que façamos pressão no governo para que cada vez mais a Cultura possa tomar seu lugar de norteador de um povo. A educação nesse país poderia se tornar bem melhor se experimentasse o Tripé do Programa cultura Viva e dos Pontos de Cultra. Seria uma inversão de valores imenso! Seria um ótimo exercício para acabarmos com essa lógica que "educação é para lançar jovens no Mercado".
      A vida é gratuíta, bela e dinâmica: isso é cultura! Abraços e boa sorte sempre!

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 7 de novembro de 2010 @ 22:06 Reply

    Exatamente Leonardo.

    Como não tivemos um debate qualificado na midia industrial de lado a lado, a sociedade se encontrou nos blogs, porque ali ela pode exercer o direito de se manifestar.E isso foi “bala de prata” que determinou o resultado das eleições.Foi a propria sociedade brasileira e sua cultura,que pode produzir um ambiente rico e plural fora desta civilização artifilializada pela midia.Abração.

  • luciano, 7 de novembro de 2010 @ 22:20 Reply

    Sempre esqueço. Parabéns e obrigado por esse espaço e pelas suas “provocações”. Abc

  • Paulo Morais, 7 de novembro de 2010 @ 23:33 Reply

    Muito bom artigo. Direto ao ponto, sem rodeios. Concordo sobre os Pontos de Cultura e Banda Larga. Mas o melhor ponto, para mim, é sobre a memória.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 8 de novembro de 2010 @ 10:41 Reply

    Leonardo

    Se me permite, gostaria de pontuar que o maior desafio que temos pela frente é a reforma da cultura do velho Estado. Então, tomo emprestada a frase de Gil Lopes:

    “A anti política cultural no Brasil está centrada na valorização do produto cultural importado em detrimento do nacional”.

    O problema é saber o porquê de aceitarmos tão passivamente essa sórdida política. Infelizmente são os nossos cardiais e seus academicismos universais com um pensamento adiposo depositado morbidamente no corpo obeso do velho Estado imperial que se inspiram até hoje no rei glutão, D. João.

    Uma extraordinária música como é a brasileira, dentro dos nossos “reformatórios acadêmicos” de última instância, tratar esse manancial de sons como uma antessíntese e impor uma doutrina da cultura pela moral, pelas tradições e pela família, cabe na cabeça de quem?

    Dia desses vi uma entrevista com um dos nossos regentes universais em que pude constar o que eu sempre soube, a deformação dos conceitos que o Estado lhe deu como base de pensamento. Do alto de sua diplomação e de batuta em riste, ele fez um desenho sobre os aspectos da música brasileira que beira a um ecatombe, mas o Estado lhe garante vultosas somas para proferir bobagens “eruditas”, a estupidez pedagógica de se auto-negar, de se auto-destruir, pois assim terá garantido pelo velho Estado um plano de carreira com todos os direitos e privilégios.

    Enquanto não mergulharmos de cabeça num estudo profundo para trazer à luz o que de desastroso essa cultura da coroa nos impõe, ficaremos aqui marginalizados pelo Estado tentando erguer algo no espeaço que nos resta, vivendo do zigue-zague típico de caminhos de boi, enquanto a estrada real se mantém como a grande atração oficial do estrangeirismo “universalizante”.

    Creio ser este o grande desafio que o governo tem pela frente, o de impor uma agenda nacional dentro dessa malta acadêmica que não faz outra coisa que não seja a negação do Brasil como principal conceito pedagógico.

  • gil lopes, 8 de novembro de 2010 @ 13:21 Reply

    A manifestação mais importante contra a anti política cultural brasileira foi dada na eleição do presidente Lula. O sapo barbudo foi imposto a muito custo pela maioria da nação e foi aceito para não governar, subestimaram os "companheiros" e o verdadeiro contra golpe quem deu foi Lula e o PT e teve o custo de um mensalão. De novo, contra a anti política cultural o país vota com Lula e elege Dilma. Não aceitamos passivamente, estamos francamente em oposição a anti política que nos domina, mudá-la depende dos avanços em vários setores. No âmbito fiscal deve se centrar forças para impedir que o produto importado tenha a mesma isenção fiscal que o nacional. É inaceitável. A construção do país democrático vai auxiliar o processo de questionar as bases de suporte da anti política cultura no Brasil. A luta cultural é constante, diária e não tem fim.

  • @vandabugra, 8 de novembro de 2010 @ 17:20 Reply

    A redação de Os nove desafios culturais é digna de aplauso. Isto é iniciativa valentemente aberta. De tudo quero registrar meu apreço pelo plano Mais cultura, que contemplaria toda e qualquer classe social ao acesso à cultura. No entanto tem sido mais um desvio de verba cultural para o social. Há a inversão, talvez uma mistura que deve agregar verbas… Repudio a pouca importância e centralização dos pontos de cultura, considerando que há vaidade sobrando e muita ação de trabalho social beneficiente, desfocando o aspecto cultural. Isto é uma perda para a cultura nacional, já que não estamos "tratando" de saúde, educação, segurança, assistência social, que já têm canais que estabelecem verba para o desenvolvimento político.__Acredito que a revisão ao Plano mais cultura / Pontos de cultura, somará muito às ações propostas em "Os Nove desafios culturais", ora discutidos.

  • massakritica, 8 de novembro de 2010 @ 19:57 Reply

    Só um adendo sobre BANDA LARGA, tomando suas palavras
    "Considero esta a mais importante ação governamental para reduzir o abismo do acesso à cultura"
    Não se reduzirá apenas o abismo do acesso à cultura, mas do acesso a educação, à comunicação, e a conquista da tão sonhada igualdade de oportunidades, mesmo com o google e a verizon querendo acabar com isso através da suspensão da neutralidade de rede, a internet trata todos como iguais, daí que alguém conectado está no mesmo patamar/tamanho que um gigante corporativo ou um órgão estatal, e essa quebra de hierarquia é a melhor coisa que ocorreu e ficou evidente neste século.

    @gledsonshiva

  • Sérgio Sobreira, 8 de novembro de 2010 @ 21:30 Reply

    Quanto mais leio os comentários, mais concordo com as advertências de Teixeira Coelho em A Cultura e seu contrário que ora transcrevo:
    "…quando nada mais funciona como cimento da vida política (a polis) ou da vida civil (a civitas), recorre-se à cultura em desespero de causa… É o que acontece agora: espera-se que a cultura mantenha o tecido social, a (rala) trama ideológica restante — ausência que não deixará saudade — e a (débil) costura econômica. Pensando no caso brasileiro, depois de ter servido como instrumento de integração nacional sob a ideologia da ditadura militar entre 1964 e 1984, a grande palavra de ordem para a cultura agora, nestes anos de 2003 e 2004, é inclusão social, da qual a cultura surge como veículo aparentemente e forçadamente privilegiado (uma vez que da economia ou do planejamento econômico neste momento pouco se pode esperar nesse sentido). “Inclusão social” vem junto com a propaganda nacionalista da identidade, como traduzida na fórmula “O melhor do Brasil é o brasileiro” que repete outras de análogo teor geradas por aquela mesma ditadura. (…) passou-se a uma etapa em que a cultura é considerada, de modo geral, apenas em sua positividade social. A cultura tudo pode, e tudo podede bom no e para “o social”: a cultura combateria a violência no interior
    da sociedade e promoveria o desenvolvimento econômico (a cultura “dá trabalho”, como se insiste em lembrar neste momento), portanto a cultura seria a mola predileta da inclusão social e do preparo do bom cidadão para o desenvolvimento do país. O que de fato se observa hoje é um grande processo de domesticação da cultura, de certa forma ainda mais perverso que aquele movido pela transformação da cultura em arma de combate ideológico. Mais perverso porque o recurso à ideologia deixa pelo menos a porta aberta, muitas vezes, para algum cinismo (“sei que a coisa não é assim mas
    faço de conta que é assim”) ou, em todo caso, para o oponente ideológico (que tem de existir e cuja presença é reconhecida e reforçada mesmo porque, sem ele, a ideologia B, digamos, a ideologia que se quer defender em oposição à ideologia A, não subsistirá)."
    Temo e tremo diante da defesa do uso da cultura, seja pelo mercado, seja pela política, seja como for.

  • Filipe Cavalieri, 8 de novembro de 2010 @ 22:17 Reply

    Caros amigos

    Uma das coisas que mais me deixam bolado aqui na cidade do Rio de Janeiro, é a “cultura para empreiteiras”. O que é isso?

    É promover e bancar novos centros culturais e museus na cidade e deixar ao largo todo equipamento já existente e que demanda um custo (segurança, luz, comunicação, limpeza, salários dos funcionários, etc…, tudo isso no orçamento (custeio). Mas sem verbas para o conteúdo, ou seja, projetos. Sem falar que muitos estão caindo aos pedaços.

    Um exemplo é a tal casa da música que já consumiu 600 milhões!!! e não produz uma única nota musical.

    Agora o prefeito anunciou aporte de 40 milhões !!!! para um evento particular, com patrocinadores multinacionais e com cobrança de ingressos. Vou procurar o Ministério Público para ver se posso fazer algo sobre isso. Já que os vereadores da cidades são vacas de presépio. Inúteis.

    axé e felicidades para todos

    filipe cavalieri

  • eduesteves, 9 de novembro de 2010 @ 7:49 Reply

    CPI da cultura.
    O que se deveria fazer urgente e uma CPI da cultura.
    As instituições culturais no Brasil, só servem para todo tipo de safadeza e promoções pessoais , e troca de favores entre pessoas de um mesmo grupo,com verbas dos governos.
    Eu estive em uma destas fundações a onde os professores usavam materiais que eram para a escola em trabalhos pessoais,para vendas de trabalhos para o publico, e não era pouco não! Ate moldura era colocado na conta da fundação, fora as exposições de funcionários, cuja a “boca-livre” A conta ia para a fundação, como se fosse despesas de exposições de interesse publico. E uma lastima!

  • Roberio Pitanga, 9 de novembro de 2010 @ 8:59 Reply

    Ótimo o acesso a internet e participar deste debate!
    Os novos pontos são bons, apesar de ser um resumo…
    Como vivo fora do Brasil desde 1999, e desde 2001 realizo o BrasilNoar.com (que é comércio de arte mesmo, nas mãos dos artistas, por pouco ou quase nada intervirmos (a organização) em suas conquistas transoceânicas, que dá um espaço no exterior para ser o start de sua caminhada à conquista internacional…) tenho que puxar também para essa questão! Hoje, 2010, existem vários eventos culturais realizados maioritariamente por brasileiros, e quase sempre em parcerias com estrangeiros, que promovem a cultura brasileira, tendo na música (pelo poder de convocatória) e no cinema a duas maiores ações… E onde está a ajuda governamental? Está! Sim, ela aparece, às vezes, com lobby, com sorte, com reconhecimento, com talento, com várias formas que compõem nossas limitadas oportunidades de conquistas… Eu nunca fui para Brasília fazer lobby, mas usei a internet para bombardear, de forma até reduzida, diversos departamentos do governo federal com nossa causa (deveria ser minha causa pois fui eu quem pagou as perdas financeiras do evento…) Em 2010, 10º ano do evento, pum, 1º turno, 2º turno e apoio para o evento? Alguns, o mais importante da prefeitura de Barcelona, que apesar da crise financeira espanhola, seguiu nos apoiando financeiramente, mostrandoo reconhecimento local, sem lobby, por subvenção pública… (Já estamos tramitando a devolução do dinheiro…)
    O que quero chamar a atenção é: Ampliem o leque! Dos 2.000 pontos de cultura para muito além dos 150.000 que o Leo estima… Creia-me, somos mais! E é um trabalho voluntário, por amor a arte, por saudades de nossa terra querida onde assim ajudamos a reforçar nossa cultura no mundo, perto dagente, como sempre foi no Brasil, e como é a internet, a nível mundial!!!
    Enfim… Carlos e Leo estão de anda-bens (porque o bem não deve parar…)

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 9 de novembro de 2010 @ 10:21 Reply

    Sobreira

    É fundamental que não esqueçamos que a cultura se transformou num (0800) numa primeira linguagem edificadora aqui instalada pela malta católica. Infelizmente essa visão de mundo e sua religiosidade de expansão nos tira a natureza da própria autonomia criativa para nos jogar numa pedagogia de ensino e aprendizagem de arte, quando deveríamos estimular a liberdade individual, do homem livre, sua competência, sua generosidade para criar outras curiosidades. A tarefa de ensinar arte ou o conhecimento dela a partir de capacitações envolvidas por textos obtusos, normalmente importados e alheios a um estímulo educativo-crítico, não é coisa dos homens, mas das santidades que se emolduram ora nas corporações religiosas, ora na crueza das corporações programáticas.

    O Brasil tem uma história republicana cheia de indas e vindas aonde o direito da aproximação entre as pessoas, via cultura, sempre enfrentou leituras primeiro-mundistas por ideólogos do comando branco. Temos que puxar, capítulo a capítulo, a nossa história, sobretudo o que deveria nos envergonhar a cada minuto do nosso dia. Fazer reflexões sobre a nossa formação docente para chegarmos à compreensão da conjunção de uma sociedade que se inicia estimulando o clima reformatório e de espoliação. Infelizmente o recurso perfilador do silêncio é o senso comum da nossa compreensão como sociedade nos comandos institucionais de cultura.

    Quinhentos e dez anos de história e quase quatrocentos anos de escravidão e a quase total extinção dos índios por um comando branco é uma discussão sobre a qual a teoria não quer se estender, por razões que a própria teoria da artificialização civilizatória nos impôs através de um ideal. Por isso vivemos nesse emaranhado de contradições em que se tenta estimular um testemunho inautêntico.

    Todos os caminhos autoritários, Sobreira, contra os democráticos não se deram pela cultura de uma sociedade ou pela curiosidade espontânea, a sociedade sempre esteve em paz, sobretudo a massa ameríndia e africana.

    O comando do velho Estado ainda sonha com um país branco e tenta nos impor a cada dia suas fornalhas para tirar da pauta de forma absoluta as dúvidas e as dívidas que naturalmente são percebidas pela sociedade. A consequência de tais decisões está aí fazendo do processo de natureza espontânea uma margem social-cultural que sempre marcou a anatomia mandatária.

    Posso concordar com você ou com a sua transcrição em quase tudo, mas não vamos construir mais contradições, não vamos dar aos algozes que messianicamente sempre tiveram a compreensão do mundo a partir de sua leitura individualista.

    A sociedade brasileira, e de forma simultânea, construiu um conjunto de aspectos e responsabilidades que nos dá sim o direito de indagar a permanente lógica construida para que não sejam corrigidas as lógicas de comando, as decisões que sempre privilegiaram o “imortal investidor” e genericamente trataram a mão-de-obra como ciência inferior.

    É por aí, Sobreira, temos que nos reorientar, buscar os parênteses e compreender que não podemos transferir a responsabilidade de quem teve o chicote nas mãos para as costas de quem foi açoitado. Antes dos atos, devemos ser profundos nos fatos.

    Um grande abraço.

    • jussilene santana, 18 de novembro de 2010 @ 10:39 Reply

      Olá, Carlos, bom dia.

      Não sei bem se compreendi o que você quis dizer no trecho: "Posso concordar com você ou com a sua transcrição em quase tudo, mas não vamos construir mais contradições, não vamos dar aos algozes que messianicamente sempre tiveram a compreensão do mundo a partir de sua leitura individualista" ??

      Você concorda com Sobreira, que, ponderado, pontua as contradições, pede calma, olhando para o debate sobre a cultura sob diferentes miradas, mas PEDE para que ele NÃO aponte falhas no raciocínio? Para não dar, veja se compreendi, 'armas aos inimigos'?

      Se é isso que compreendi, é, contudo, uma postura trágica… Fadada ao fracasso futuro, porque escamoteando as próprias 'falhas' do processo de debate (de acordos), que, ao contrário, precisam ser expostas em sua completude, com todas as rugosidades. Não existem só dois lados, não é o que dizemos?

      Os debates sobre os rumos da cultura deste país precisam igualmente da compreensão deste plural.

      atenciosamente

      Jussilene

  • gil lopes, 9 de novembro de 2010 @ 11:17 Reply

    eu queria ver nos EUA uma patrulha anti nacionalista, que retirasse aquela coisa brega de colocar a bandeira nacional na porta de entrada das casas, ou de cima de cada prédio nas grandes cidades. que acabasse com essa história de hino nacional antes de uma mera partida de qualquer coisa, que não exaltasse tanto uma música cujo refrão repete sem parar Born in USA, e tantas outras manifestações semelhantes. eu queria ver isso na frança também, na inglaterra então, puxa, aí mesmo é que eu gostaria de ver…no japão, já pensou?..mas eu só vejo isso aqui, quem sabe por conta das ditaduras parece que ficamos condenados, feito os alemães carimbados pelo nazismo. Ao menor sinal…lá vem patrulhamento…temos que começar a pensar nisso por que a gente quer ser mesmo que nem os americanos, os franceses, os ingleses, a gente quer dizer do jeito que a gente é e valorizar isso.
    Mas incentivo fiscal para importar produto cultural é inaceitável.

  • sonia ferraz, 10 de novembro de 2010 @ 15:42 Reply

    O papel do Estado é proporcionar o Acesso a Cultura com políticas públicas adequadas sem transferir a conta para os autores. O Estado Social deve primeiro fazer seu dever de casa, pois a burra burocracia vem engessando os projetos pela total incompetência de especialização de condução operacional provocando um caos cultural muito bem apontado por esta reportagem.
    O desafio é saber fazer a implantação operacional para a boa condução das políticas de acesso que devem ser proporcionadas pelo Estado Social com seu dirigismo focada na difusão equilibrada das criações que fomentam o mercado da cultra . sonia ferraz advogada [email protected]

  • luciano, 11 de novembro de 2010 @ 17:33 Reply

    Educação. Tem q vir de dentro. Se o professor já vai dar aula sem paixão, sem tesão, já não rola. O professor já ganha mal então a coisa vira um simples emrpego. Fica olhando pro relógio esperando a horar passar. Que nem vestibular. Na minha época, eu esudeit decorando coisas que eu odiava. Todo mundo odiava tudo. Os professores inclusive. Era uma coisa obrigada. Não lebro de nada e foi apenas uma experiência horrível. Odiei.

  • Oscar Araripe, 2 de dezembro de 2010 @ 20:23 Reply

    A arte deve ir aonde o povo está assim como o povo deve ir aonde a arte está. Uma política cultural pública deve contemplar esta duas realidades, o povo e o artista. Um não deve explorar nem instrumentalizar o outro. Excluidos, hoje, somos todos, o povo e os artistas.
    O Brasil carece urgente de uma cruzada pela cultura, que começa com a ampliação do conceito de cultura. Fale-se em educação mas educação é antes e abrangentemente cultura. Deveria ser obrigação do empresariado e dos Governos o investimento massivo em Cultura. A Cultura deve garantir a pessoalidade dos artistas e a independência e a liberdade das artes. O povo gosta disto.

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