Novos ares para a literatura

“No mundo ideal, as editoras só publicariam livros de qualidade, com projeto gráfico impecável. A questão é como equilibrar as contas, uma vez que bons livros vendem menos que os de consumo rápido.”

Foto: JD HancockA afirmação é de Vanessa Ferrari, ex-editora da Companhia das Letras. Ela lembra que embora o produto seja muito mais charmoso e atraente, uma editora é uma empresa como outra qualquer, ou seja, precisa de saúde financeira para ter vida longa. “O fechamento da Cosac Naify é uma notícia triste especialmente para leitores porque a editora unia beleza gráfica e autores excelentes. Mas, para isso, eles dependiam do aporte de um mecenas. Não dá para imaginar que a situação se sustentasse por muito mais tempo”, completa.

Para Vanessa, que coordena o curso Mercado Editorial na sede do Cultura e Mercado dias 5 e 6 de março, as editoras independentes são uma saída possível e muito bem-vinda nesse novo cenário. “Baixo custo, editores buscando autores fora da cena literária e, mais importante, elas entenderam que juntas têm uma força enorme.” (clique aqui para ler a entrevista completa)

Que o diga a pequena editora Lote 42, que conquistou um espaço tão importante que já ampliou sua atuação. Há um ano abriu a Banca Tatuí, uma antiga banca de jornais transformada em local para venda de publicações independentes, no bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo (SP).

A marca Banca Tatuí vem crescendo e chamando cada vez mais atenção. Hoje, apesar do pouco tempo de existência, já é uma referência. Segundo um dos criadores e sócios da editora e da banca, João Varella, os dois principais fatores do sucesso são o crescimento da quantidade de publicações oferecidas e a disseminação da iniciativa, que está cada vez mais conhecida. “Nos vemos como uma alternativa que vem se fortalecendo por meio da oferta de publicações diferentes ao que é mostrado nas livrarias”, explica.

Mas ainda há dificuldades, como o desinteresse das pessoas pela leitura. “Trabalhamos no sentido de apresentar o mundo das editoras independentes, com as portas abertas para que mais pessoas conheçam essa rica cultura”, afirma Varella. Para isso, estão sempre criando novos produtos e ações, e já transformaram a banca em um ponto para lançamentos e festas que tomam a rua. “Órgãos como o Conselho de Segurança (Conseg) do bairro dão total apoio, pois percebem que a banca tem ajudado a melhorar esse pedacinho do bairro.”

Literatura, uma experiência – Com a proposta de incentivar a leitura no Brasil, também oferecendo uma experiência diferente da compra de uma obra literária em uma livraria, há dois anos nascia o TAG – Experiências Literárias. O TAG é um clube de leitura, em que os associados recebem todos os meses em casa um livro indicado por um intelectual, brasileiro ou estrangeiro.

“Muita coisa mudou nesses dois anos”, conta Gustavo Lambert, um dos idealizadores. “Na época, não tínhamos noção de como se comportariam nossos associados, muito menos seu perfil. Hoje, sabemos que 70% do nosso público é do sexo feminino, com média de idade de 35 anos. Basicamente, são pessoas que têm grande apreço pela leitura, mas não se consideram ‘experts’ nisso, e buscam na TAG tanto novas leituras quanto uma experiência diferente”, explica.

No início, o kit era composto pelo livro, uma revista e um marcador personalizado. Depois, passaram a inserir um “mimo”, então perceberam que era uma das coisas mais valorizadas: a ideia de um “algo a mais”, para simbolizar a leitura daquele mês e tornar tudo mais divertido.

Como que na contramão do que a economia indica – com o fechamento da Cosac, por exemplo -, Lambert acredita que o mercado está voltando suas atenções para os detalhes. “É visível nas grandes livrarias o aumento no número de títulos com edições mais elaboradas, que trabalhem a experiência do leitor, e não sejam apenas vendidos por suas utilidades. Coleções com boxes personalizadas, com a que saiu do Harry Potter no último ano, também estão em crescimento. De qualquer maneira, isso tudo é percepção. Quanto à TAG, posso garantir que é um dos pontos pelos quais mais prezamos. Desde o atendimento ao associado até o último detalhe do kit, nos esforçamos para que seja fantástico – queremos surpreendê-los a todos momentos. Não enviamos livros: proporcionamos experiências literárias.”

O resultado está nos números: em 2014, fecharam com 100 associados; hoje, já são mais de 4.500. O faturamento de 2015 foi de R$ 480 mil, bem acima do que havia sido planejado. “Por termos iniciado o ano com apenas 100 associados, nosso objetivo era finalizar com pouco mais de mil”, conta Lambert.

Agora a ideia é aprimorar ainda mais o serviço, com uso ativo dos canais como Facebook e YouTube, além de encontros com associados. “Queremos que eles se sintam parte de um clube, e que por isso conheçam novas pessoas que compartilhem de seus gostos literários e que possam trocar suas experiências”.

Para as crianças – Um outro clube de leitura, só que dedicado às crianças, busca promover a experiência da leitura desde cedo. A ideia do Leiturinha surgiu em uma conversa sobre paternidade, que culminou na certeza de que compartilhar o hábito da leitura com os filhos propiciava aos pais momentos muito agradáveis, além de ser uma atividade importante para o estabelecimento de um vínculo permanente de carinho e aprendizado. No entanto, muitas vezes a escolha dos títulos era uma tarefa complicada.

Desta constatação nasceu o clube, que ajuda pais e mães a oferecerem livros adequados a cada etapa de desenvolvimento dos seus filhos. Em setembro de 2014 deram início ao trabalho, com 1.500 assinantes. Já no segundo ano cresceram mais 700%, superando todas as expectativas. Hoje são mais de 10 mil famílias cadastradas, em 2.100 cidades brasileiras. “A grande força motriz do nosso trabalho é o carinho e o compromisso em entregar a melhor experiência de leitura para os nossos assinantes. O incentivo ao hábito de ler desde a infância é um motivo muito grandioso e é com base nele que dedicamos cada novo passo da Leiturinha”, conta o sócio da empresa, Guilherme Martins.

Criar o conceito da empresa, modelo de operação e canais de venda foram alguns dos desafios encontrados. “O projeto foi desenvolvido com muito planejamento e sem pressão por resultado a curto prazo, pois os sócios já possuíam outros negócios. Tudo foi pensado com extremo cuidado e usando a estrutura de uma empresa de tecnologia dos sócios. Logo nos primeiros meses, a Leiturinha já apresentou resultados e partimos para uma estrutura independente, com equipe dedicada e ampliação do investimento.”

A partir daí, outros projetos foram lançados pela plataforma, como a Leiturinha Digital e o recém-lançado Clube de Vantagens Leiturinha. Também criaram um projeto social, o Amigos da Leiturinha. “Já existem projetos fantásticos de incentivo à leitura que precisam sim de fomento das empresas. Em várias regiões do Brasil, conhecemos ideias – muitas independentes – de ‘esquecer’ livros em locais públicos para que eles passem de mão em mão; pessoas que transformaram objetos inutilizados em estantes de distribuição de livros, e por aí vai. A proposta do projeto Amigos da Leiturinha, é convocar essas pessoas dispostas a doar livros e também mais empresas que se preocupam com a causa para alcançar cada vez mais crianças que têm menos acesso à leitura”, explica Martins.

Coletividade – Em 2014, à época com cinco anos de experiência no mercado editorial, em editoras como Objetiva e LeYa, Raquel Maldonado participou da criação da Bookstorming, uma plataforma de crowdfunding para produção de livros sob demanda. A empresa não vingou, mas ela não desistiu a dobradinha literatura e coletividade, e neste ano lançou a Bicicleta – Literatura Coletiva. “A Bookstorming não tinha expertise de tecnologia e isso dificultou um pouco. Também descobri que sociedade é casamento sem amor. A Bicicleta tem um conceito bem mais amplo: é voltada para o universo literário, englobando livros, festivais, eventos, feiras, tour de autor, peças de teatro e filmes que tenham como base uma obra literária”, explica.

Não é apenas uma editora viabilizando seus livros. Todos os projetos são feitos de forma coletiva e com parceiros, como o Catarse, que resolve a questão da plataforma tecnológica e recebe o primeiro projeto a ser financiado pela Bicicleta: o livro “Memórias de um Imperador. Ô Sorte”, uma breve biografia do sambista Wilson das Neves, de Guilherme Vasconcellos de Almeida. O próximo livro também já está previsto: da dupla de humor Hermes e Renato, uma espécie de Guinness book do Boça, um de seus personagens.

Raquel acredita que o que diferencia a Bicicleta de outros projetos existentes nessa área é o conceito de coletividade, de união de empresas, editores, autores e criadores. “Desafio sempre vai ter e isso é o que move qualquer empresa. Agora me parece que as parcerias e ideias ficaram mais fáceis de produzir e executar”, diz.

A Bookstart é um exemplo de que o financiamento coletivo pode dar certo também no mercado editorial. Entre novembro de 2015 e janeiro de 2016, a empresa lançou 20 novas obras, número 300% maior que o contabilizado no mesmo período dos anos anteriores. Também obteve um expressivo aumento nas vendas no trimestre, ao contrário do observado no setor – cuja alta em 2015 foi de apenas 2,5% em relação a 2014, mas o faturamento real – considerando a inflação – caiu 7%, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e a consultoria Nielsen.

O total de exemplares comercializados pela Bookstart de novembro de 2015 a janeiro de 2016 teve um incremento de 286% em relação ao obtido entre novembro de 2014 e janeiro de 2015. No ano passado, a empresa vendeu 12 mil livros. “O financiamento coletivo para o mercado editorial não é um substituto, mas sim uma alternativa complementar ao modelo de publicação vigente hoje no mercado. Pelo crowdpublishing, o autor não só publica sua obra com qualidade – já que também prestamos todos os serviços editoriais – como também vende seus exemplares e é remunerado por isso. Justamente em virtude desses diferenciais, registramos uma grande procura pela plataforma, numa curva ascendente”, afirma Bernardo Obadia, sócio-fundador da Bookstart.

Hoje, a taxa de conversão dos projetos é de 65%, ou seja, dos projetos que tentam arrecadar recursos na plataforma, 65% deles, em média, conseguem atingir a meta. Segundo Obadia, existem algumas variáveis que podem interferir em um projeto que não foi bem-sucedido. Entre elas, a falta de divulgação ou descumprimento do cronograma de promoção sugerido aos autores; networking pouco engajado do autor; viagens, doenças ou outros imprevistos acontecidos durante o crowdfunding, desviando o foco do proponente.

“O ponto principal aqui é entender o real motivo de o projeto não ter atingido a meta na primeira tentativa. Assim, podemos aprimorar as estratégias para uma segunda campanha. Em todos os casos, a Bookstart garante apoio irrestrito ao autor”, explica, destacando que as estatísticas mostram que, em média, de 70% a 80% dos apoios vêm do relacionamento e esforço do próprio proponente.

Para Obadia, o maior desafio ainda é fazer autores, editoras e, algumas vezes, o próprio leitor, entenderem o modelo. “Na realidade, nós invertemos a lógica de mercado, já que primeiro vendemos para depois publicar. A fase de pré-venda ocorre por meio da veiculação de um release do livro na página da campanha. Feito o crowdfunding e atingida a meta, entregamos os exemplares e demais recompensas aos colaboradores.”

E para o futuro, o que esperar? O empresário acredita que, cada vez mais, o relacionamento entre leitores e autores se dará no ambiente online, tanto para compras como na fidelização de autores e da base leitora. “Nossa opinião é que o e-book terá uma curva mais longa de penetração de mercado, mas o processo de compra se dará mais em e-commerce do que em livrarias físicas.”

Por isso, indica Obadia, é essencial que os autores tenham atuação nas redes sociais e plataformas focadas em literatura, como Wattpad, Widbook e Skoob, por exemplo. “O ponto aqui não é simplesmente ter um perfil, mas sim interagir com os seguidores, leitores fidelizados e leitores em potencial. Isso faz com que haja a proximidade e a intimidade que o público geralmente adora e pede”, conclui.

Acessar o conteúdo