O Brasil que nunca perde

Terminadas as Olimpíadas de Londres, bandeira transferida para o Rio de Janeiro, contagem regressiva iniciada, vale tentar um ajuste de planejamento. Não se trata de planejamento esportivo, mas da preparação de uma cidade, de um país que receberá o mundo em 2014 e 2016. Quando se recebem visitas, o anfitrião deve seguir certo rito. Não precisa vencer, não deve se impor. Deve ser gentil e servir o que tem de melhor. O Brasil deve servir cultura brasileira em porções generosas e mostrar muito e sincero prazer em receber o mundo.

Não sou profissional da área, embora seja um fã dos esportes. Sou um produtor de cultura e um cidadão brasileiro. Por isso, devo tratar de cultura e cidadania. Este poderá ser meu assunto e, talvez, contribuição. Mas começo o argumento tomando emprestadas as palavras de um jornalista esportivo. Repito, são palavras de um profissional do esporte, não de um Maestro  ou cineasta. Disse Juca Kfouri, logo após o encerramento do último domingo: “ a melhor participação do Brasil nas Olimpíadas de Londres foram os 8 minutos de show com Marisa Monte, Seu Jorge e companhia”.

O alvo da declaração crítica de Juca pode ter sido o Comitê Olímpico Brasileiro, mas contém uma verdade clara e evidente. A música brasileira é a nossa fortaleza. Os artistas do Brasil, de todas as áreas, são gigantes criadores e fazem sucesso em todo o mundo. O espetáculo de encerramento do último domingo foi montado por um conjunto de profissionais, quase todos cariocas. Além de Marisa e Seu Jorge, participaram o rapper BNegão, bailarinos, atores e o impagável Renato Sorriso, o gari/passista símbolo da cultura popular e espontânea. Sob direção de Cao Hamburger e Daniella Thomas, o show teve cenografia de Abel Gomes. Outro craque que foi pouco citado, o estilista Jum Nakao, um paulista infiltrado, criou os belos figurinos apresentados. E foi apenas um aperitivo do que o Brasil cria, produz, inova.

Vamos escalar nosso melhor time na Copa do Mundo e nas Olimpíadas. Que tal começar com os clássicos Villa; Tom, Noel, Di e Amado; Barroso, Glauber, Caymmi e Carmen; Machado e Elis. Só para começar com um time daqueles que alcançaram a eternidade. Vamos preparar nosso sorriso, nosso oi, nosso abraço para todos os momentos. Serviremos feijoada e acarajé, cachaça e tapioca. Com esse time e com essa tática já ganhamos antes mesmo de começarem as competições.

Como cidadãos, devemos dar um show de participação e voluntariado, a exemplo do exército de ajudantes reunido no Reino Unido. Ainda segundo o testemunho de Juca, a simpatia e a eficiência dos organizadores foram impressionantes. Devemos entender a importância da pontualidade, do cumprimento de compromissos como formas elevadas de respeito aos visitantes, além de obrigações básicas. Imagine-se ainda tudo isso com a moldura da natureza do Rio, com o charme de nossa miscigenada ambiência, com toda a nossa ARTE.

Mostrar a Cultura do Brasil não é apenas criar grandes roteiros para os shows de abertura e encerramento das competições. Isso é básico. Nas ruas, nos hotéis, nos restaurantes, nos museus, nos teatros, nos clubes, é possível fazer dessa uma grandiosa oportunidade para mostrar um Brasil além dos estereótipos das bundas e do futebol. Novos e criativos artistas surgem todos os dias nas periferias, nos conservatórios, nas academias. O mundo poderá ver.

A bola está conosco, anfitriões de duas competições mundiais. Vamos receber com ARTE. A música já está pronta, consagrada e sempre renovada. E tanto mais, literatura, dramaturgia, artes visuais, arquitetura, gastronomia, cinema, moda, modalidades que sempre trazem o ouro. Serão quatro anos com holofotes voltados para o Brasil. Oportunidades para o turismo, para os negócios, para a educação e até para os esportes. Jogando na Cultura, o Brasil nunca perde.

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