Desde que o jornalista e economista Edward Jay Epstein publicou em 1998, na revista The New Yorker, um artigo intitulado “The Real Secret is the Salt”, o mercado da mídia e do entretenimento passou a reconhecer o fenômeno da “Popcorn Economy”: as salas de cinema de hoje operam em três mercados, o audiovisual, o de fast food e, ainda de forma incipiente, o publicitário. A mediação audiovisual em si cobre cerca de 50% dos custos de operação dos cinemas e, portanto, o modelo depende dessas outras atividades.
Para ilustrar seu ponto de vista, Epstein descreveu uma conversa com o então diretor da cadeia de cinemas Hollywood Theater, Thomas W. Stephenson, Jr.: “No caminho para Las Vegas, Stephenson, um sujeito de cabelos eriçados, cheio de energia, na faixa dos quarenta e poucos anos de idade, me deu uma rápida aula sobre a economia de seu negócio. Dos US$ 50 milhões que os consumidores pagaram por entradas em 1997, ele diz que sua cadeia de 450 cinemas, a Hollywood Theater, ficou somente com US$ 23 milhões. O resto foi basicamente para os distribuidores. Contudo, continuou Stephenson, seus custos operacionais foram de US$ 31,2 milhões, o que significa que sua empresa teria amargado um prejuízo de US$ 8,2 milhões caso dependesse apenas da exibição cinematográfica.
Como toda cadeia de cinema, no entanto, a de Stephenson tem um segundo negócio: fast food, onde a margem de lucro fica em geral bem acima dos 80%. Com o fast food, a Hollywood Theater apurou lucro de US$ 22,4 milhões de um total de vendas de US$ 26,7 milhões. ‘Todos os elementos do lobby’, disse Stephenson, ‘são planejados para direcionar a atenção do consumidor para os quadros de preço dos balcões de fast food’”.
Para ajudar a entender porque a margem de lucro dos fast foods dos cinemas é tão grande, Epstein lembra que a pipoca pronta para consumo, desde que contida no recipiente usual, ocupa 60 vezes mais volume que o milho in natura. Trata-se de uma escala literalmente astronômica. Como o produto é comprado por peso e vendido por volume (pequeno, médio, grande, etc.), isso faz toda diferença.
Tanto que o professor William T. Harris, do Departamento de Economia da Universidade de Delaware, EUA, não teve dúvidas em colocar a pipoca como a substância mais lucrativa do mundo, considerada isoladamente (sem logística, mão-de-obra, etc.) Para alguém que compra o milho in natura diretamente do produtor e transforma em pipoca, considerando desperdício zero, a margem de lucro pode chegar a 10.000% (sim: dez mil por cento)! Completam o top five das substâncias teoricamente mais lucrativas do mundo: flores (7.000%); café (1.600%); fuzil AK-47 (1.000%); e heroína (500%).
Fontes:
EPSTEIN, Edward J. The Real Secret is the Salt. The New Yorker, 1º de janeiro de 1998. Versão atualizada pelo autor disponível em seu site pessoal: s://www.edwardjayepstein.com/archived/popcorn.htm.
EPSTEIN, Edward J. The Popcorn Palace Economy. Slate, 2 de janeiro de 2006. Disponível no portal Slate, onde Epstein escreve a coluna The Hollywood Economist: s://www.slate.com/id/2133612
HARRIS, W.T. Captive Audiences and the Price of Popcorn. Pennsylvania Economic Review, Vol. 5, No. 2, 1996.
* Adaptado do livro “Mídia e Propriedade Intelectual: A Crônica de um Modelo em Transformação”, p. 201, nota 76
** Publicado originalmente no blog Direito e Mídia: s://direitoemidia.wordpress.com/