Mudanças na estratégia da Paramount mostram interesse da empresa pelo mercado nacional

A Paramount Pictures International mudou sua estrutura de negócios no país e na América Latina no começo deste ano. A empresa transformou seu “braço” de distribuição no Brasil, a United International Pictures (UIP), em Paramount Pictures Brasil, como uma forma de ter controle mais direto sobre as atividades de distribuição de filmes e seus dividendos no país.

A ação afetou ainda os escritórios do México, da França, do Reino Unido, da Austrália e da Nova Zelândia. Em todos estes países os escritórios da UIP, empresa controlada pela Paramount e pela Universal, deram lugar à ação direta da primeira. Nos outros países é mantida a atual estrutura da UIP, apesar do release da “estréia” do grupo no Brasil fazer menção à atenção do estúdio para o mercado da América Latina.

O controle de escritórios e negócios até então da UIP marca uma reestruturação do grupo Paramount em âmbito internacional, fruto do crescimento do mercado de filmes fora dos Estados Unidos nos últimos anos. Se, antes, ter lucros fora do país era uma vantagem, algo positivo mas não necessário aos estúdios, agora este mercado chama cada vez mais a atenção de Hollywood, com uma série de produções, como a recente Os Sem-floresta, da própria Paramount, mais vistas fora do quintal dos estadunidenses. É justamente para se aproximar das redes de exibição locais, assim como para garantir um filão do mercado de produção e distribuição dos filmes nacionais, que a Paramount aposta neste formato.

A chegada, porém, é menos estapafúrdia do que os investimentos da Disney no seu Zé Carioca, décadas atrás. A Paramount Brasil começa a operar com os ativos da UIP, e mantém contratos firmados anteriormente, como no caso do filme “O Diário de Tati”, com Heloisa Periseé no elenco e roteiro de Mauro Farias (de Vinicius), mais uma “franquia Global” em produção e que será distribuída nos cinemas pela Universal e em DVD pela Paramount.

Durante o ano, a empresa conta ainda com a “forcinha” de filmes cujos direitos de distribuição são do grupo Paramount internacional, entre os quais os comerciais Babel e Dreamgirls, em cartaz, a continuação de Shrek e a versão de Spielberg para os Transformers, desenho animado de grande sucesso no Brasil na década de 1980.

Jeito gringo e jeito nosso de fazer negócios

Para desfazer o “nó” nos negócios, resultado do controle compartilhado da UIP, a conduta da Paramount irá além da distribuição de filmes do grupo. Sem a Universal, “o foco das ações [da empresa], antes só na distribuição, também pode ser direcionado para outros interesses do estúdio”, diz Cesar Silva, diretor geral da Paramount Brasil. Outros interesses? Co-produção de filmes nacionais, com investimento da empresa, boa parte por meio de políticas de fomento. A contrapartida? Em geral os direitos de distribuição, nacionais e internacionais.

Para entrar de forma agressiva neste mercado, a Paramount Brasil conta com o poder de fogo do grupo internacional, proprietário da Paramount e da DreamWorks, além dos direitos de distribuição dos filmes da MTV Films e da Nickelodeon Movies, fortes sobretudo no mercado infanto-juvenil. Além disso, no ano passado a UIP bateu seu recorde de arrecadação e público no Brasil, respectivamente com R$ 60,2 milhões e 7,8 milhões de pessoas, de um total de R$ 701 milhões e 91,3 milhões de pessoas, o que, segundo Silva, coloca a empresa como a terceira maior distribuidora no país.

Tal munição é essencial para os investimentos em produção. Graças ao artigo 3° da lei de fomento, que permite a aplicação do equivalente a até 70% do imposto de renda devido sobre os lucros remetidos ao exterior por empresas distribuidoras de filmes, desde que investidos na indústria cinematográfica nacional e fiscalizada pela Ancine. É uma espécie de “recompensa para a sétima arte nacional”, que funciona da seguinte forma: quanto mais lucros um distribuidor remete para sua matriz, com filmes nacionais ou internacionais, mais ele pode aplicar em filmes, ganhando com isso mais direitos de distribuição e arriscando menos capital próprio. No caso da Paramount Brasil, Silva garante que a empresa investirá capital próprio nos projetos, inclusive porque os dividendos da renúncia não estarão disponíveis neste ano. Bom para a empresa, que faz mais negócios com menos riscos. Bom para os produtores nacionais, ainda dependentes de apoio e leis de fomento para tornar viável a maior parte das suas produções.

Investindo no “nosso jeito” de acelerar o mercado cinematográfico nacional, ainda inferior a produção da década de 1980 em quantidade de títulos, apesar de contar com sucessos de público como Dois Filhos de Francisco, Carandiru, Cidade de Deus e os diversos filmes originados em séries das Organizações Globo, como A Grande Família e Os Normais, a Paramount garante mais uma forma de se valer do que, para Silva, é o começo de um novo ciclo de crescimento.

Entre 1997 a 2004 o mercado nacional cresceu seguidamente, e o número de salas mais que dobrou. Em 2005 e 2006 ocorreu algo que, conforme Silva, é uma “acomodação”. Salas foram abertas, mas em ritmo bem menor. Nos dois últimos anos também foi menor a enxurrada de blockbusters, gringos ou não. Para o primeiro semestre de 2007, porém, há previsão de que serão construídas tantas salas quanto no ano de 2006 inteiro. Este ano contará ainda com filmes de grande apelo comercial, como as continuações de Homem-aranha, Piratas do Caribe e Shrek, além de filmes como Babel e A Grande Família, em cartaz. Em suma, é um ano que promete fôlego para o jeito gringo de fazer negócios em cinema: filmes comerciais com bom apelo para o público se somam à expansão do parque exibidor.

Guilherme Jeronymo


editor

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