A cidade de Xangai é um exemplo de como a economia criativa é a grande estratégia de desenvolvimento do século atual. Lala Deheinzelin explica as razões.
Uma visita recente à Xangai, para participar de um Simpósio sobre Indústrias Criativas (uma das estratégias de desenvolvimento adotadas pela cidade) organizado pelo South – South Cooperation Unit da ONU, suscitou algumas reflexões. Provavelmente tão superficiais quanto meu tempo de permanência (duas semanas). De toda maneira, arrisco dividí-las.
Uma metáfora para a forma como evolui a China, e especialmente Xangai, pode ser percebida ao observar as árvores nos jardins. Muitas delas têm uma estrutura de madeira que dá sustentação, seja por que foram recém plantadas, por que é inverno ou por que necessitam cuidados. Isso permite que os jardins – em construção por toda cidade – já possam nascer maduros, pois são feitos com árvores já crescidas, suportadas pela estrutura enquanto não tem raízes.
Olha que bela frase para nossos gestores: suportado pela estrutura enquanto não tem raízes. É por isso que a China cresce extraordinariamente. A inovadora estratégia adotada – desenvolvimento através de indústria criativa – é um exemplo disso. O suporte estrutural começa com formação e capacitação. Para fazer as Olimpíadas e a grande Exposição de 2010 eles perceberam que não tinham profissionais adequados: criaram então uma escola para formar estes profissionais transdisciplinares.
As empresas têm uma estrutura de sustentação que começa com um planejamento de longo prazo. Eis aí um enorme benefício do não enfrentar, a cada dois ou quatro anos, mudanças de governo com suas conseqüentes mudanças radicais de política e planejamento. Mudanças estas que normalmente implicam na anulação do que estava sendo feito, desperdício de recursos e conhecimento produzidos anteriormente e um desenvolvimento caranguejo: um governo dá 3 passos, o governo seguinte volta 2 e anda mais 3, o que faz com que a cada 10 anos a gente caminhe 2,5 passos e não 10. Isso é comprovado facilmente, basta ver a taxa de crescimento tão pequena para um país que provavelmente possui a maior riqueza natural e cultural do mundo.
Segunda questão: o planejamento em longo prazo e o fato de que lá não há briga política (aqui a política está reduzida a uma espécie de briga de time de futebol: o destino da nação é o de menos, importante mesmo é ganhar do opositor) permite articulação entre os setores e portanto as ações são potencializadas em vez de diminuídas. Isso inclui planejamento urbano.
Pelo menos à primeira vista, Xangai tem um planejamento urbano espantoso. Os 12 milhões de habitantes fluem. Mesmo na hora do rush os engarrafamentos não são nada se comparados aos de São Paulo. A cidade é limpa, a maioria dos lugares não tem estacionamento pois o que se usa mesmo é transporte público, barato, além de táxis que também devem ser subsidiados, pois além de baratos, existem aos milhares. Como o planejamento urbano é chave para eles, a questão da indústria criativa começa por aí: são grandes empreendimentos imobiliários baseados em indústria criativa que reúnem estúdios, lofts, cafés, lojas, moradia. Alguns são construções novas, outros aproveitam zonas depreciadas da cidade e velhos galpões industriais, buscando uma concepção inovadora.
Outra coisa que podemos aprender olhando seus jardins: plantas maiores ficam no fundo para não esconder ou sombrear as menores. Aliás, a predileção em muitos lugares é pelo pequeno, para poder ter maior diversidade e para que o jardim não tampe a visão do resto. Também na economia a harmonia está na quantidade de pequenas empresas. As pequenas devem ser protegidas e fomentadas. Não se vê mega stores em Xangai. Existem imensos malls, mas feitos de pequenas e diversas lojas. Existem dezenas de mercadinhos. Não se vêem “mega tudo” matando os pequenos como vemos no Brasil . Deve existir uma forte estrutura de suporte à pequena empresa, estrutura essa que certamente não muda de diretoria e de direção de planejamento a cada dois anos, além de provavelmente ser composta por técnicos da área e não pessoas que recebem o cargo como moeda política.
Mais um exemplo: as estradas são muito boas, com muitos pedágios. A diferença: o pedágio não é privatizado e gera para o Estado mais dinheiro para ser reinvestido. O lucro vira qualidade de serviço e não remessa para o exterior. Percebemos também estrutura de sustentação vinda pelo apoio oficial, que se traduz em financiamentos especiais, incentivos fiscais, divulgação, participação em feiras e similares. Isso tudo deve provavelmente ser devido à regulamentação do Estado. Tomara que esteja cada vez mais próximo o momento em que vamos nos conscientizar de quanto ela é necessária e uma benesse, não um problema. Como temos a aprender com eles neste sentido! Que maravilha seria ter gestores com visão e a mesma continuidade de planos de ação. Gestores que são empossados por competência técnica e não por relações e favores.
Terceira lição dos jardins: aproveitar cada oportunidade e tirar dela o máximo proveito. No jardim zen, uma pedra que você apenas tira de seu habitat e coloca em destaque e em outro ângulo pode revelar toda sua beleza. Nós não sabemos como aproveitar nossa abundancia. Um arranjo zen pega uma flor e uma pedra e faz uma escultura. Nós pegamos nossas luxuriantes plantas tropicais e as desperdiçamos em medonhos e gigantescos arranjos que ao misturar duas dúzias de flores deslumbrantes transformam tudo num embolado cafona, onde uma ofusca e tira a visibilidade da outra. Temos tudo em excesso e este excesso é a causa da nossa pobreza: não valorizamos as riquezas que temos e desperdiçamos oportunidades como desperdiçamos flores em arranjos.
Mas, nós temos também a ensinar: economia da experiência, economia do bem estar, economia do cuidado com o próximo. Consumo parece ser a maior atividade de lazer. Poucas salas de cinema, pouco turismo local e de fim de semana, poucos teatros – com pouquíssima diversidade de linguagens. Faltam lugares para confraternizar, dançar, faltam serviços para cuidados consigo e com outro. E mais: voluntariado, terceiro setor em estreita relação com cultura, inclusão social e não apenas econômica. Temos a ensinar espontaneidade, adaptabilidade e, sobretudo, inovação a partir da tradição e identidade. Também como uma forma de preservá-las, não pelo isolamento mas pela evolução que resulta do contato (como acontece com todas as formas de vida).
O que é trágico de se ver é a ausência de China. Chama a atenção o fato de Xangai ter sua Chinatown ! A maioria das coisas que se vê não levam em consideração o imenso conhecimento tradicional – de formas e técnicas- oferecido por esta que é a cultura mais antiga do mundo. Existe, como se vê muito no oriente, a incorporação do que o ocidente tem de pior a oferecer: sociedade do espetáculo; mídia de massa de gosto duvidoso e homogeinizante; identificação de arte e criatividade com lazer e entretenimento sem levar em conta seus outros aspectos: aprendizado, refinamento, evolução.
A China se inspira no modelo do colonizador, o que parece ser uma tendência que talvez reflita a tanto sádica quanto generosa natureza humana que quer perdoar o opressor através da identificação com ele. Assim, ela tem um modelo baseado em indústria criativa e não economia criativa. Enfim, o que mais gostaríamos de compartilhar é nossa visão dessa que está sendo considerada a grande estratégia de desenvolvimento do século XXI : economia criativa numa visão mais ampla e atual, que abrange o que não é produzido em escala e portanto dá maior margem de possibilidade de interação com fatores relacionados ao desenvolvimento social, cultural e – também, mas não apenas – econômico. Economia Criativa como estratégia para que possamos criar modelos sustentáveis de desenvolvimento, como alternativa aos (inadequados para este século XXI) modelos do hemisfério norte. Modelos onde o ser humano seja mais do que mero consumidor; onde a identidade seja trabalhada a partir da alteridade e não da xenofobia. Onde o “ser” valha mais do que o “ter”.
Lala Deheinzelin