O Jogador. E a vida dos outros

Foto: Sra.Mozart
A Folha de S.Paulo de hoje traz uma extensa matéria, assinada por Ana Paula Sousa, confirmando aquilo que os leitores de Cultura e Mercado já sabiam. O Procultura, ou o Profic, ou “a nova Lei Rouanet”, não passam de um blefe. A Casa Civil confirmou que o projeto ainda não foi analisado pelo governo Lula. É um ato desesperado de um ministro que coloca todo o setor cultural em risco, além do próprio governo do qual faz parte, apenas para se viabilizar politicamente.

O que mais intriga nesse processo todo é a dinheirama que o governo federal gastou com publicidade para promover algo que não existe, sequer foi negociado no âmbito do governo. O dinheiro gasto com anúncios publicitários de página dupla nos maiores veículos impressos do país, banners em sites, folhetos, turnês, seria melhor aplicado em alguma ação programática, ou ainda no desenvolvimento institucional de importantes programas, como o Cultura Viva, que chegará ao fim do governo apenas como uma boa ideia mal realizada, e não como uma política de Estado, como todos esperávamos. Afinal, lutamos muito por isso.

A matéria apresenta ainda a queda de aprovação de projetos e captação de recursos, fruto da campanha difamatória encampada pelo MinC, além da já conhecida “operação tartaruga”, feita para arrastar a aprovação de projetos do mecenato, com o objetivo de desestimular o seu uso por produtores e artistas de todo o país, com exceção dos amigos do ministro, que conseguem aprovação ad-referendum.

Muita gente pelo Brasil afora acreditou na lábia inconsequente do ministro, que prometeu mundos e fundos aos produtores e artistas. Mas o ministro jogava cartas e apostava a vida e o sustento de muitos profissionais da cultura. Um truco, cujo único benefício possível é a viabilização de sua carreira política.

Utilizo o título do filme dirigido por Robert Altman, The Player (O Jogador), de 1992, para ilustrar o que se passa com a política cultural nas mãos do atual ministro. O personagem principal, produtor de um grande estúdio de Hollywood, arrisca-se no limite e usa de tudo ao seu alcance para se dar bem na indústria e na vida. Rodeado de bajuladores, o personagem Griffin Mill, interpretado por Tim Robins, luta diariamente para manter-se no poder. E, por isso, vive no fio da navalha. Mesmo cometendo as maiores atrocidades, alterando roteiros e interferindo na vida de artistas e pessoas de confiança, Griffin está sempre em busca de um final feliz.

“A Vida dos Outros”, de Florian Henckel von Donnersmarck, é outra referência. Um ministro da cultura da Alemanha oriental, persegue artistas, motivado unicamente por  interesses pessoais. É capaz de criar programas governamentais para alimentar sua fúria e inveja. E põe em risco não só a vida de artistas engajados politicamente, mas todo o regime comunista.

Qualquer semelhança é mera coincidência.

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