Em conferência, o consultor Leonardo Brant discorreu sobre as três formas como a empresa se relaciona com a cultura. Economia da cultura e outros temas também foram abordadosPor Sílvio Crespo
O consultor de empresas Leonardo Brant, presidente do Instituto Pensarte, participou do seminário Cultura e Investimento Social Privado, realizado dia 31 de outubro em São Paulo. Brant foi um dos conferencistas da mesa ?O Público e o Privado nas Políticas Culturais?, em que identificou três possibilidades de relação entre empresa e cultura: o mecenato, o marketing cultural e o investimento cultural privado. O consultor falou também sobre exclusão cultural, economia da cultura e leis de incentivo.
Fio condutor
Brant abriu a conferência apresentando a missão do Instituto Pensarte, de ?articular todos os setores da sociedade que aparecem no desenvolvimento cultural? e ?desenhar um ?fio condutor? entre todos os agentes, criando uma pauta comum?. Para ele, a cultura tem sido reduzida ?à sua parte mais efêmera?, àquilo que aparece para o público. Mas ele lembra que, por trás do resultado final, existem várias etapas, desde a concepção do projeto até o seu financiamento, que envolvem diversos agentes. O Instituto, segundo Brant, planeja estratégias de ação para cada um desses agentes. ?Nosso desafio é engajar pessoas nesse projeto?, explica o consultor.
Exclusão cultural
Apesar de não termos no Brasil um banco de dados refinado sobre a cultura, temos alguns indícios de grande exclusão cultural. A região Norte do país está praticamente excluída dos benefícios das leis federais de incentivo à cultura. Segundo Brant, 85% dos investimentos culturais feitos por meio dessas leis concentram-se na região Sudeste, enquanto o Norte recebe apenas 0,3%.
Além disso, Brant apresentou dados da Fundação Perseu Abramo e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitca): 86% dos jovens brasileiros nunca foram a um concerto de música clássica, e 92% dos municípios do país não têm sequer uma sala de cinema (dado de 1999).
Brant citou ainda um estudo do professor Nestor Garcia Canclini, da Universidade Autônoma Metropolitana (México), constatando que apenas 10% da população mexicana têm acesso à cultura institucionalizada (museus, teatros, cinemas etc), e os demais 90% só têm acesso por meio da televisão.
Economia da cultura
Pesquisa da Fundação João Pinheiro, de 1998, concluiu que a economia da cultura no Brasil movimenta aproximadamente 1% do PIB (Produto Interno Bruto) e gera cerca de 510 mil empregos. Leonardo Brant contesta estes dados com o argumento de que a pesquisa desconsidera o papel da televisão na difusão da cultura no país.
Para ilustrar a dimensão da economia da cultura no Brasil, Brant utiliza dados do Instituto Pensarte: o mercado editorial movimenta 1 bilhão de dólares por ano; o cinematográfico e o fonográfico, US$ 400 milhões cada.
Leis de incentivo
Para dar uma idéia da importância das leis de incentivo, Brant apresenta dados do Ministério da Cultura (MinC) indicando que os investimentos via leis federais correspondem a 2,5 vezes o orçamento do Ministério. De 1996 a 2001, esses investimentos totalizaram R$ 1,7 bilhão, com uma participação média de 1300 empresas por ano. Só a holding Petrobrás gasta em patrocínios culturais cerca de 70% do orçamento do MinC.
Empresa e cultura
Leonardo Brant distinguiu três formas de relação entre empresas e cultura: mecenato ou patronato, marketing cultural e investimento cultural privado. Enquanto o mecenato enxerga a cultura como sinônimo de arte, o marketing cultural, segundo Brant, a vê como um produto ou espetáculo. Já as empresas que realizam o chamado ?investimento cultural privado?, segundo o palestrante, trabalham com um conceito mais amplo de cultura, que abrange não apenas as artes, mas também outros tipos de conhecimento, além de valores e aspectos do comportamento.
Uma outra diferença entre aqueles conceitos, apontada por Brant, é em relação ao objetivo primário de cada uma das ações. A ação de mecenato busca contribuir para o desenvolvimento das artes, enquanto o marketing cultural visa apenas à visibilidade da marca. O investimento cultural privado, diferentemente, visa ao desenvolvimento cultural e social de uma comunidade.
A contrapartida esperada pela empresa também um ponto que diferencia os três tipos de relação entre empresa e cultura. O mecenas recebe uma contrapartida de caráter pessoal, segundo Brant. A empresa que faz um trabalho de marketing cultural busca, ao contrário, a exposição da marca. Já no caso do investimento cultural privado, o que se espera é o benefício social de uma comunidade e a conseqüente associação da marca a esse benefício.
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