Vai até o dia 18 de abril o South by Southwest (SXSW), conjunto de festivais de cinema, música e tecnologia que acontece desde 1987 em Austin, Texas. É a primeira edição totalmente online, através de uma robusta plataforma com 5 canais para que o público pudesse acompanhar as palestras, shows de música, espetáculos de stand up comedy, entre outras atividades. A produtora executiva Fernanda Martins, premiada com um Emmy em 2020 pela experiência de realidade virtual “A Linha”, acompanhou o festival e destacou os avanços nas áreas de entretenimento, tecnologia e sociedade.

A futurista Amy Web, que anualmente apresenta seu relatório de tendencias de inovação, consolidou mais de 500 tendencias no report de 2020, dividido em tres grupos. Primeiro, ela falou sobre o “voce das coisas” (You of Things), equipamentos que em breve substituirão o celular na vida das pessoas. São os smartglasses (Amazon Echo Frames, Apple Glasses, Facebook-Ray Ban, em desenvolvimento), anéis que detectam níveis de oxigênio no sangue (Echo loop e Google) e pulseiras que reconhecem sua emoção através de batimentos cardíacos (Amazon Halo). Em segundo lugar, estão as “novas realidades” que vão além das já conhecidas realidades aumentada e virtual. A realidade diminuída, por exemplo, permitirá retirar objetos do nosso campo de visão e audição “apagando” coisas (e porque não pessoas?) do nosso dia a dia. Por último, os avanços em biologia sintética permitem alterar códigos genéticos e mais, produzi-los. “Em breve poderemos enviar um código do DNA de uma maçã para uma impressora 3D conectada em Marte.”, explica Fernanda. Vale lembrar que Amy não faz previsões do futuro e sim elabora cenários pois, segundo ela, o futuro depende das decisões que tomamos hoje.

Outro tema bastante explorado foi a importância da voz como veículo de comunicação. Novos aplicativos como Clubhouse e Swell estão ganhando espaço e melhorando a compreensão de mensagens que eram restritas a textos e emojis. A voz, com diferentes tons e volumes, permite melhor compreensão das emoções e, portanto, facilita o melhor entendimento entre interlocutores, capacidade fundamental em tempos de tanta polarização.

A também tradicional conversa com Dr. Werner Vogels, CTO Amazon, reforçou que todas as empresas devem tornar-se empresas de software. “Se antes você confiava em um banco por causa da facilidade de serviço, hoje a facilidade tecnológica é mais relevante para o consumidor.” Tecnologia não é mais sobre ter sucesso, é sobre sobrevivência. As empresas precisam ser “digital first”, como forma de comportamento.

O historiador Yuval Harari tratou com profundidade o tema das fake news. Segundo ele, as histórias, as narrativas, são criadas há milhares de anos pelos seres humanos. Havia uma expectativa de que a internet seria capaz de trazer as “verdades”, porém o mundo online apenas acelera a disseminação de informações. Na época da caça às bruxas era muito comum propagar a perseguição através de folhetos para legitimar a ação “Se está escrito, então devemos mandar a bruxa para a fogueira”. Ele acredita em um futuro breve de cyberhumanos, no qual nossa opinião será tão facilmente manipulada que poderá ser possível criar uma vacina contra aceitação de notícias falsas.

A autora e líder política Stacey Abrams foi um dos maiores destaques. Primeira candidata negra a governadora nos Estados Unidos, ela falou sobre a construção de uma narrativa de empoderamento de comunidades de minorias, que culminou na vitória de Jonh Biden na Georgia que foi decisiva para as eleições americanas. Outro destaque político foi o secretário de transporte Pete Buttigieng, primeiro candidato LGBTQIA+ a concorrer à candidatura à Casa Branca, além de ser o primeiro a ser eleito governador. Ele reconheceu que apenas carros elétricos não irão resolver a questão de mudanças climáticas e ainda há muito a ser feito para que os países atinjam a meta de carbono zero.

A China continua se preparando para realidades imersivas. A tecnologia de reconhecimento facial vai permitir que as pessoas utilizem qualquer superfície nas ruas como seu “computador”, como a janela de um trem ou um anuncio no ponto de onibus. A designer de experiencia Jessica Shen entende que a tecnologia foi muito tempo foi ditada pelo Ocidente e replicada no Oriente, e isso pode se inverter. O governo chines tem como meta ser lider de mercado em tecnologias emergentes tais como carros autônomos, smartcities, visão computacional medicina, reconhecimento facial e de voz.

Melinda Gates, que está à frente do Instituto Bill & Melinda Gates há mais de 20 anos, reforçou que a educação ainda precisa se desenvolver na maior parte dos países. Ela defende a presença da mulher como liderança não apenas por questões de equidade mas principalmente porque elas conduzem processos de forma mais desenvolvida, inclusive economicamente. “Mulheres e homens gastam dinheiro de maneira diferente. Com mulheres em liderança, a economia fica mais sólida porque ela assume gastos mais sustentáveis para a família.”

E falando em família, o evento recebeu Sir. Richard Brenson, executivo britânico fundador da Virgin, que investe em causas humanitárias. Ele entrevistou Sabrina Buttler, condenada a pena de morte pelo suposto assassinato do próprio filho. O painel foi uma provocação para acelerar a discussão sobre essa política, que foi abolida em muitos países mas ainda é presente nos Estados Unidos. A margem de erro hoje nesses casos é que 1 a cada 9 condenados é inocente. De acordo com Brenson, os empresários têm papel fundamental nas causas sociais. “Negócios de sucesso devem melhorar a vida das pessoas. Não podem ser espectadores da injustiça”.

Na área de cinema, o premiadíssimo documentarista da National Geographic James Cameron falou sobre o filme “Os segredos das baleias”. O filme mostra a desenvolvida cultura desses animais que tem familias, personalidade, competição de canto, alimentos preferidos. Cameron defende que só conseguimos proteger aquilo que amamos, por isso o filme foi produzido. Ainda hoje, um alto percentual de filhos de baleias morrem por tóxicos no lixo oceânico.

O ex-presidente George W. Bush participou do evento lançando o livro “Um de muitos”, com fotos de quadros pintados por ele de imigrantes americanos e suas respectivas histórias de vida. Ele acredita que as políticas para imigrantes precisam se atualizar e que algumas camadas da sociedade tem uma percepção equivocada sobre os imigrantes nos Estados Unidos. Além de perguntar sobre o tema, o entrevistador perguntou sobre as últimas eleições e a insurreição de 6 de janeiro. O ex-presidente afirmou que não acreditava que as eleições de 2020 foram fraudadas, o que foi bastante relevante para um tradicional republicano como ele.

Quando não se está mais limitado geograficamente, o mundo metaverso de games permite que artistas de música e audiovisual encontrem um novo espaço para engajamento com seus fãs. Shows e performances estão sendo realizados em ambientes de jogos, em real time, permitindo que audiências globais possam inclusive interagir com seus artistas favoritos. O rapper Trevis Scott fez um show no Fornite para milhões de fãs e aumentou 25% a receita, incluindo a venda de roupas para usar virtualmente nos personagens.

Os aplicativos de entretenimento também se reinventaram durante a pandemia. O Tiktok permitiu a volta de um sucesso da banda Fleetwood Mac mais de 40 anos depois, depois de ter sido usado em um vídeo viral. O Tinder, que inventou o movimento de arrastar para o lado (swipe) cresceu de 1 milhão diário para 3 trilhões quando decidiram eliminar as restrições geográficas para a utilização do serviço.

Priya Parker foi o destaque do encerramento. Especialista em mediação de conflitos, trabalhou em acordos de paz nos países árabes, africanos e na índia, de onde é de origem. Autora de “A Arte dos Encontros”, a facilitadora comentou sobre o crescimento das reuniões virtuais. Segundo ela, nos reunimos para “resolver problemas que não conseguimos resolver sozinhos, tomar decisões, quando precisamos uns dos outros”. Porém é muito comum nos reunirmos em torno de coisas que precisam ser feitas e não de propósitos. “A rotina é a grande inimiga de encontros relevantes e significativos”. Espera-se que após a pandemia, sejamos mais conscientes dos encontros presenciais.

Os organizadores do evento esperam que no próximo ano o público seja capaz de estar em Austin. Porém, assim como boa parte das indústrias, a tendência é continuar com uma parte virtual de modo a ampliar a participação do público e possibilidades de conexão entre as pessoas.


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