Foto: Divulgação
A opinião é unânime: Augusto Boal foi um dos maiores teatrólogos brasileiros, e através das técnicas desenvolvidas a partir de suas teorias e de sua prática incansável e ininterrupta tornou a riqueza da produção teatral de nosso país conhecida em todo o mundo. Perseguido pela ditadura militar, tal como milhares de brasileiros, criou o Teatro do Oprimido, seguindo as veredas abertas por Paulo Freire, e veio a ser sem dúvida o representante do teatro brasileiro mais reconhecido e premiado no exterior.

Boal ampliou a atuação social do teatro e lhe deu uma dimensão política cotidiana sem igual.  Suas técnicas teatrais são cultivadas nos mais diversos países do mundo: da Suécia ao México, da Colômbia ao Japão, da França a Moçambique. É um dos artistas brasileiros mais conhecidos na Índia, por exemplo. Suas propostas acabaram se tornando sinônimo de um teatro libertador no qual todos podem ser atores e exercitar as inúmeras possibilidades de metamorfosear-se e de assumir os papéis que muitas vezes a vida os impede de faze-lo. São utilizadas por muitos como instrumento de autoconhecimento e, ao mesmo tempo, de construção da vida social.

Tal como Brecht, Boal pretendia fazer do teatro uma atividade cotidiana praticada nos mais diversos espaços públicos, uma ferramenta útil de manifestação político-cultural e de desenvolvimento das relações sociais. Por isso, sua obra é reconhecida não só pelos atores de profissão e pelos atuantes em geral, mas também interage com outras áreas do conhecimento, como a arte-educação, a sociologia e a psicologia, entre outras. Transformou-se ao longo do tempo em um curinga presente ativamente em variadas manifestações artísticas, políticas e sociais. De vereador a diretor de grandes espetáculos, passando por apresentações visíveis ou invisíveis em bairros periféricos de diversos países fez do teatro a sua arma de luta por um mundo mais justo. Consciente de sua função mediadora afirmou certa vez: “Faço veredas, atalhos. Quero mais. Sou excessivo, demasiado. Seria incômodo falar de mim; no que faço, importa o feito, não o fazedor”.

Por seu intermédio, o Arena contou várias histórias de figuras emblemáticas da história brasileira e o Opinião apresentou vários shows-verdade tendo no palco pessoas-personagens dialogando através das letras de músicas ainda pouco conhecidas na época, de forma dramática e explicitamente teatral. Stanislawsky foi uma de suas referências teóricas fundamentais para desenvolver um método de interpretação baseado na expressão da verdade interior e no ator multidimensional. Implementou em seu teatro a idéia do espectador ativo que não se resignasse ao fato de ter de ficar sentado, passivo, assistindo ao desenrolar das cenas tal como na vida política, na qual a imensa maioria da população apenas acompanha os acontecimentos sem participar da tomada de decisões.

Seu discurso era radical, sem ser impositivo, pretendia-se revolucionário, sem deixar de ser democrático. Ocupando o palco, os espectadores poderiam então determinar o rumo dos acontecimentos, influenciar o desdobramento dos conflitos e forjar o futuro dos seus personagens. Uma espécie de exercício lúdico de uma possível participação política, de uma atuação mais efetiva na vida social, com consciência de que a contribuição de cada um é de fundamental importância para a criação de um país de todos, como se pode apreender da mensagem anual da Unesco, escrita por Boal há algumas semanas, para ser lida no dia do teatro: “Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”


Gestor Cultural, diretor de teatro, dramaturgo e tradutor. Foi gerente na Secretaria de Políticas Culturais do MinC e é sub-secretário da cultura do Espírito Santo.

2Comentários

  • Fique por dentro Cultura » Blog Archive » :: CULTURA E MERCADO :: o mais influente blog sobre política …, 13 de maio de 2009 @ 15:43 Reply

    […] em Belém e no Rio de Janeiro. Trabalhou em Brasília de junho de 2005 … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  • Rogério Santos, 17 de maio de 2009 @ 18:26 Reply

    Não esquecer que ele esteve exilado em Portugal na década de 1970, onde trabalhou durante dois anos com a companhia A Barraca e assinou nomeadamente a peça Conta Tiradentes (1977).

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