“Uma cidade é como a gente: tem sempre muitas histórias para contar, à medida que os dias vão passando. A diferença é que nós vamos envelhecendo sempre, enquanto as cidades ficam mais velhas, mas vão recebendo, constantemente, gerações e gerações de gente nascendo e de gente que vem de longe. As cidades rejuvenescem no progresso, nas conquistas, nos valores e nas esperanças”. João Valle Maurício.

O objetivo principal deste artigo é questionar sobre a interferência do turismo na apropriação e uso dos bens culturais. Pretende questionar sobre a necessidade das ações, para que o desenvolvimento do turismo passe por questões de abrangência sistêmica e integradora, trazendo para o foco das discussões os problemas culturais locais.

Parece que não cabe mais dúvida sobre o impacto da globalização dos mercados no aumento do turismo. Muitos outros fatores contribuem para este crescimento, enquanto atividade econômica geradora de emprego e renda para as populações e de divisas para os governos.

O primeiro fator é o crescimento físico limitado das cidades, o que não permite a criação de mais fábricas. Belo Horizonte, por exemplo, já tem grandes empresas nas suas cidades limítrofes, como Betim, Contagem e outras e, isso deve-se à pura falta de espaço.

Um outro fator que deve ser considerado e, talvez, o mais importante, é a constatação global de que as indústrias e o “modus vivendi” da sociedade culminaram na degradação do planeta. Por isso, é urgente a reversão dessa realidade, optando-se pelas atividades econômicas chamadas limpas, o que tem sido uma opção interessante a ser explorada pelos governos, para o crescimento de suas regiões. Tudo isso sem contar o crescimento do setor de serviços, enquanto uma opção para geração de emprego, já que as indústrias possuem desenvolvimento tecnológico tal, que precisam, a cada dia, de menos pessoas.

Considerando, então, que há um interesse em explorar o turismo por parte de muitas cidades e regiões, quais os fatores que ainda dificultam sua explosão de fato? Por que muitas localidades que têm, aparentemente, todas as características necessárias para decolarem do ponto de vista turístico, não decolam? Acredito ser interessante ponderarmos sobre algumas situações. Faremos considerações sobre isto, utilizando a cultura como fio condutor, uma vez que o movimento turístico se apresenta como um uso da cultura.

Num primeiro momento, acreditamos que há uma falta de preparação dos profissionais de turismo para lidarem com o mesmo como uma ação integradora em cuja rede devem ser inseridos os habitantes locais, seus valores e sua identidade. Há muita preocupação com os visitantes que as localidades receberão, mas muito pouco ainda é feito junto a seus habitantes, mormente junto àqueles que usam e desfrutam de todos os bens locais, turísticos e culturais.

O turismo, muitas vezes, interfere no cotidiano das pessoas das cidades, de uma maneira cruel. Ao invés de estarem inseridos no cotidiano, os turistas têm com os locais uma relação simples de contemplação, onde não é possível interagir. Essa realidade impacta no universo diário das pessoas que vivem e trabalham ali e sua interatividade com os bens culturais vai muito além da simples contemplação, mas passa pela utilidade, pelo trabalho, pela sobrevivência.

Um guia que entra em uma igreja de Ouro Preto com grupos de 12, 20 pessoas, explicando cada estilo, cada artista responsável pela obra, em voz alta e de bom tom, para que todos ouçam e entendam bem, onde há uma velha senhora rezando, interfere no uso do bem pelo habitante, no caso, a velhinha, que se fazia de maneira completa. O uso da igreja pela velhinha ia além das belezas e raridades artísticas e culturais. Assim, é que se pergunta: o bem cultural deve atender a qual uso? É possível uma convivência entre os usos diversos, de uma maneira mais harmônica e respeitosa? Que ações devem ser tomadas, para que o cotidiano das pessoas seja respeitado neste processo?

Há um outro ponto que nos parece importante, que é o fato de as pessoas do local não entenderem o motivo da valorização cultural local. Por que as pessoas não percebem seu valor histórico, artístico e cultural? Parece que, do ponto vista cultural, há uma dificuldade para as pessoas entenderem aquele bem como parte de sua história, complementando um todo muito maior. Esta realidade é, certamente, um fator que faz com que seus moradores se afastem da apropriação do bem cultural, o que culmina com sua transformação em locais de pontos agradáveis de turismo e que não conseguem agradar a seus moradores, situação que, a médio e longo prazos, pode trazer conseqüências desastrosas. De quem é o bem? Quem exatamente zela por ele e dele usufrui?

Por isso, o planejamento do desenvolvimento turístico deve estar em consonância com a identidade local. O turismo e a cultura, assim como todas as ações sociais, representam escolhas em detrimento de outras, são opções. Assim, é importante se conhecer o tipo de turismo proposto e praticado, que dependerá do tipo de relações que forem julgadas aceitáveis e desejáveis entre os homens, isto é, o modelo de sociedade pela qual as pessoas, enquanto indivíduos, estão optando.

Acreditamos que a questão do crescimento sustentável do turismo passe por esses questionamentos também.

Esta atividade econômica considerada “limpa” em função da não(?) poluição das regiões, pode ter um impacto muito maior na herança e valorização cultural de seu povo, uma vez que a cultura não é espontânea, nem estática. Precisa de trabalho, reforço, valorização, criação e construção.

Simone Marília Lisboa é consultora e administradora de empresas. Mestre em Marketing e Planejamento Estratégico pela Universidade Federal de Minas Gerais, autora do livro “Razão e Paixão dos Mercados”, técnica licenciada da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e diretora da Faculdade PROMOVE de Sete Lagoas. E-mail: [email protected] – Fone: (31) 772-3770

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Simone Lisboa


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