
Estamos novamente tomando ciência através da imprensa dos inúmeros desvios reinantes na sociedade brasileira: desvios de conduta, desvios morais, desvios éticos, desvios de verbas e desvios de caráter, entre outros.
Nelson Rodrigues, sempre muito atual, eternizou a figura do canalha, do cafajeste, do cínico, tão cotidianamente presente na história contemporânea de nosso país; para ele, este seria o brasileiro típico das classes abastadas e uma das referências formadoras do caráter de nosso povo. Será verdade? Sua experiência jornalística teve importância fundamental na escolha de temas sensacionalistas que, acrescidos de lirismo, ganharam força e qualidade literária.
Há pouco tivemos delegados indiciados pela ousadia em incriminar diversos personagens relevantes da economia e da política brasileira. O juiz-mor, agora chamado de Gilmar Dantas, aquele que “está destruindo a Justiça desse país”, saiu imediatamente em defesa dos tais personagens deixando a todos atônitos com a inversão de valores. Enquanto defende com unhas e dentes os suspeitos de colarinho branco, criminaliza ostensivamente os movimentos sociais legítimos. O Congresso, por sua vez, virou alvo de todo tipo de chacota pela sucessão ininterrupta de escândalos que brotam todos os dias oriundos de todas as fontes. O cinismo e a bizarrice moral parecem ser então as tônicas dos vários esclarecimentos e declarações dadas pelos envolvidos.
O ar de naturalidade com que muitas pessoas encaram tais anomalias e desvios faz que nos acostumemos com comportamentos sórdidos e cenas cotidianas torpes. Inclusive em nossa própria esfera de relacionamento. Passamos muitas vezes a achar normal que alguém de nosso círculo aja de modo indigno e vil, expresse toda a sua mesquinhez de espírito e se oriente pela máxima do vale tudo por dinheiro. Nesse sentido e pela complexidade da questão seria importante refletirmos sobre o que impulsiona as pessoas a agirem desse modo.
Dias atrás vi na TV imagens de uma favela, composta por barracos que mais pareciam restos e entulhos amontoados, atingida por uma enchente. O prefeito local declarou então estado de calamidade pública. Por que só nesse momento? Por que não antes? Já não era uma calamidade pública milhares de pessoas viverem naquelas condições abjetas? Há alguma hipocrisia nisso? De quem?
Muitos dos temas abordados por Nelson Rodrigues continuam fazendo parte do universo de referências político-sociais de todo brasileiro: a moral hipócrita, o descalabro na vida pública, a falta de solidariedade, a predisposição à corrupção e as obsessões mesquinhas, sem falar no incesto e nas tragédias farsescas desencadeadas pelo instinto sexual reprimido. Que essa realidade pestilenta, no sentido rodrigueano, não nos faça sucumbir ao pessimismo crônico.
A contundência de suas críticas à sem-vergonhice nacional pode ser medida pela reação de um vereador, ao final da apresentação de “Perdoa-me por me Traíres”, no Teatro Municipal do Rio de janeiro, em 1956: vestindo a carapuça, ele sacou, raivoso, um revólver e de seu camarote ameaçou todo o elenco, confundindo infantilmente neste gesto insano o teatro com a vida como ela é…