Dentre as inúmeras assertivas dos editores independentes em todo o mundo, que se manifestaram formalmente em novembro de 2005 por meio da Declaração ou Manifesto de Guadalajara, estão aquelas bastante conhecidas de todos que atuam pela preservação da chamada bibliodiversidade:
_a de que a edição independente, ou edição local, aquela que é considerada instrumento das expressões culturais locais, sofre os efeitos da globalização econômica e da concentração de capital do setor nas mãos de grandes grupos de edição;
_a de que a ação do editor independente na transmissão de valores do imaginário e das culturas locais não é compatível com a lógica mercantilista dos grandes grupos editoriais;
_a de que o empobrecimento cultural que se alastra pela tendência homogeneizante do mercado editorial globalizado não se afina com os pressupostos da CONVENÇÃO SOBRE A PROTECÇÃO E A PROMOÇÃO DA DIVERSIDADE DAS EXPRESSÕES CULTURAIS da UNESCO, que expressa os ideais da maioria dos povos sobre a integração e o respeito às culturas locais.
O Manifesto fez um apelo a todos os editores independentes para que se reunissem em coletivos nacionais, regionais e internacionais a fim de defender os direitos dos editores empreendedores, de influenciar as políticas públicas do livro ao redor do mundo, dando especial atenção às especificidades dessa fatia do mercado editorial.
O documento, assinado por 70 editores de três continentes, dentre os quais está nossa colega de mesa, Miriam Gabbai, manifestava-se pelas políticas de apoio à cadeia do livro independente e se solidarizava com os demais atores do cenário, como autores, bibliotecários e livrarias, apresentando alguns caminhos possíveis para uma ação transformadora.
O que a Libre – Liga Brasileira de Editoras, que reúne 93 editoras independentes brasileiras, está fazendo atualmente, para se alinhar aos caminhos possíveis indicados em Guadalajara?
É sobre isso que vou falar para vocês, a fim de compartilhar a experiência brasileira e abrir espaço para o diálogo com outras iniciativas semelhantes que ocorrem ao redor do mundo:
O Manifesto propõe
_ações de estreitamento e solidariedade entre os atores do mundo do livro;
Em encontros mensais realizados pela Libre na Livraria da Vila, a Libre pôde perceber que tem uma força atrativa e catalisadora das forças produtivas da cadeia do livro que vai muito além do trabalho em rede entre os associados. Gente que estuda economia criativa, mercado editorial, autores, ilustradores, tradutores, editores iniciantes… O público dos encontros tem sido amplo e variado.
Essa constatação motivou a Libre a apresentar ao Ministério da Cultura um projeto de criação de quatro pólos regionais de apoio e estímulo à cadeia independente do livro, a que chamamos Ponto do Livro. Nesse momento, o Minc estuda a possibilidade de incluir essa proposta no programa Cultura Viva, que destina orçamento da União para pontos de cultura espalhados pelos Brasil.
_ações coletivas de distribuição das suas produções (espaços coletivos nas feiras e salões)
A Libre foi criada no ambiente comemorativo e solidário de uma feira coletiva de editores independentes, a Primavera dos Livros, em que a marca é a presença do editor em estandes uniformes e democráticos. Em 2008, será realizada no CCSP, nesta capital, a 5ª. edição da Primavera dos Livros, e na capital carioca, a 8ª. edição desse mesmo evento.
Ainda sem um esquema eficiente, a Libre vem participando de feiras do livro, Brasil afora, com estandes financiados pelos organizadores das feiras. Digo “sem um esquema eficiente” porque não existem ainda concretamente acordos operacionais capazes de dar conta da complexidade da gestão de 93 editoras.
Mas mesmo isso está sendo estudado. Com o apoio do SEBRAE-SP, entidade que apóia o desenvolvimento do empreendedorismo comercial no Brasil, a Libre está promovendo encontros mensais, facilitados por um consultor especialista em redes colaborativas, com a finalidade de identificar possíveis acordos operacionais colaborativos para o escoamento da produção das editoras bem como outras questões que afetam a maioria das empresas, como divulgação, promoção, logística etc.
_ações de promoção da leitura;
Em 2008 a Libre celebra com a Prefeitura Municipal de São Paulo a retomada do projeto ônibus-bIblioteca, iniciado em 1930 pelo modernista Mário de Andrade. São 4 ônibus que realizam ao todo 112 roteiros mensais pela periferia da cidade, levando um acervo rico e variado de títulos e atividades diárias de encontros do leitor com autores das editoras associadas para as comunidades.
_promoção de acordos comerciais solidários;
No quesito acordos comerciais solidários, o lançamento do portal da Libre, site em linguagem Web 2.0, um Orkut das editoras, chega com resultados precoces e surpreendentes e uma filosofia de respeito ao papel de cada ator no mercado editorial. O site da Libre não efetiva vendas on line, mas permite que cada editora direcione suas vendas para até sete endereços virtuais e mais sete endereços físicos.
A Libre fez uma parceria com a ANL e em futuro breve vai disponibilizar o banco de dados atualizado de livrarias que a entidade acaba de atualizar.
O site é um grande passo no sentido de projetar um espírito coletivo e colaborativo entre os editores e o fator de sucesso do site foi justamente o respeito à diversidade das empresas _ suas escolhas editoriais, comerciais e estratégicas. O site está possibilitando que todas as editoras, em conjunto, sejam procuradas por outros atores do mercado editorial para negociar parcerias e soluções conjuntas.
_respeito a uma ética comum;
Mesmo tendo atuado fortemente por políticas públicas éticas e democráticas, a entidade apenas recentemente conseguiu definir sua missão, visão, objetivos, bem como chegar a uma definição consensual do que é ser editor independente.
Todas essas informações, que juntas compõem uma visão ética do mercado editorial, estão, depois de muita discussão, disponíveis no site.
_respeito à diversidade lingüística dos países;
Nesse quesito, o Brasil tem uma vantagem especial – trata-se aqui de 180 milhões de pessoas que falam a mesma língua. No entanto, a diversidade das manifestações culturais regionais mobiliza forças editoriais locais e nos demanda estar muito atentos a uma representatividade mais ampla da entidade, uma vez que, infelizmente, 90% das editoras associadas estão entre o Rio e São Paulo.
Creio que sobre isso os editores colegas da mesa poderão dar sua contribuição, já que, pelo que pude apurar na internet, estão reunidos numa associação de editores galegos que tem, entre outros propósitos, o de cultivar e estimular a produção editorial no território lingüístico específico de sua região.
Para finalizar, gostaria de deixar aqui uma frase de reflexão, cunhada por Aldo Manuzio, mestre quinhentista da edição:
“Um bom editor é aquele que atua concentricamente nos três âmbitos, ou que tenha pelo menos destacada sensibilidade intelectual, artística e cultural.”
Diante dessa afirmação que ultrapassa 5 séculos e continua atual, gostaria de dar minha contribuição: o editor, no meu modo de ver, é síntese e sensibilidade. E uma das mais poderosas forças que o editor pode ter na atualidade é a visão da importância do trabalho em rede como esse que estamos fazendo no Brasil, na Galícia, a partir da França com a Aliança, entre outras inúmeras iniciativas que surgem mundialmente.
A LIBRE realiza de 25 a 28 de setembro de 2008 a feira PRIMAVERA DOS LIVROS no Centro Cultural São Paulo, reunindo 93 editoras e quase 10 mil títulos.
Discurso proferido por Renata Farhat Borges no 7º Congresso Ibero Americano de Editores, cujo tema central é O Livro, a Leitura e a Construção da Cidadania, em 13 de agosto de 2008