Overmundo é experiência inédita de divulgação da cultura brasileira

Hermano Vianna explica a proposta desse novo projeto, que tem como bases a descentralização editorial, a colaboração coletiva e as novas ferramentas que a Internet oferece

O antropólogo Hermano Vianna é um dos nomes por trás do Overmundo, uma proposta nova e democrática na Internet brasileira de formar uma comunidade virtual de reflexão e divulgação sobre a nossa cultura.

O projeto que se encontra no ar é definido por Hermano como um pré-site, ainda fechado e com pouca informação. O Overmundo completo será apresentado em fevereiro. Mesmo assim, o site já tem agentes correspondentes em 26 estados e também no DF, que Hermano chama de overmanos e overminas.

Toda a base tecnológica do Overmundo está sendo construída para facilitar a edição coletiva de todos os textos, de forma descentralizada. Hermano explica como será o funcionamento: “toda pessoa cadastrada no Overmundo poderá enviar textos, músicas, vídeos etc. Esse material ficará por um tempo publicado nas páginas de rascunho do site, e todos os cadastrados poderão dar sua opinião: corrigindo a gramática, contestando a veracidade das informações, criticando a forma de abordagem, complementando os dados etc. Depois haverá um sistema de votação: caso obtenha um certo número de pontos, o material será publicado, com maior ou menor destaque, nas páginas mais públicas do Overmundo.” E qualquer pessoa poderá se cadastrar para colaborar: “artistas de todas as mídias, jornalistas, ensaístas, pesquisadores, fanzineiros, blogueiros, críticos das mais diversas tendências ou simplesmente gente que gosta de música ou TV ou web-arte.”

Além desse sistema, Hermano adianta que o site terá guias e agendas culturais do maior número possível de cidades brasileiras, também construídos coletivamente. E que funcionará como um banco de produtos culturais, que serão “armazenados” em bit torrent (que usa a largura de banda e os discos rígidos dos usuários para aumentar a velocidade do download de arquivos pesados como vídeos), todos classificados segundos critérios e tags pessoais.

“Nosso objetivo é que em curto tempo muita gente participe para o engenho todo passar a funcionar sozinho, sem a interferência de uma equipe editorial fixa.” Hermano cita exemplos de projetos estrangeiros que realizam o mesmo tipo de experiência coletiva e descentralizada, como o Kuro5hin, o Slashdot, o Collective da BBC e o jornal coreano Ohmynews, mas deixa claro que a idéia não é copiar nenhum deles, e sim usar o que cada um apresenta de melhor e “fazer uma experiência bem brasileira em cima disso tudo.” O Overmundo quer ser uma ferramenta que possa ser usada por todos, da maneira que desejarem.

Hermano acha que a Internet está passando por um momento interessante, em que está mais fácil notar o que realmente importa na rede. “O que hoje se chama de web 2.0 não é nada mais do que uma volta às origens hackers da rede, com a (re)invenção e popularização de ferramentas que facilitam a produção colaborativa de conhecimento, a formação de redes sociais de criação e diversão. É a Wikipedia, o Orkut, o blog, o fotolog… O mercado está’ aprendendo a lidar com essa nova realidade e não mais tentando destruí-la, impondo uma centralização que mataria a Internet.” É esse novo momento da rede que o Overmundo quer aproveitar.

O projeto pretende atacar um velho problema da produção cultural brasileira, que é bastante ampla e diversificada mas não encontra espaço suficiente para ser divulgada e circulada. Hermano nos dá sua visão a respeito: “hoje em dia nenhuma equipe de jornal, por melhor que seja, consegue cobrir a enorme variedade da produção cultural contemporânea. Nem há espaço para falar de tudo, para estar em todos os lugares. Os filtros são cada vez mais precários. Acreditamos que um regime colaborativo mais aberto pode significar mais gente, com gostos e olhares bem diferentes, falando de mais coisas, atentas ao que acontece em mais lugares. A tecnologia tornou esse tipo de colaboração possível há poucos anos.” Esse sistema mais democrático de participação cria uma descentralização editorial, que Hermano acredita que aumentará a qualidade do contéudo publicado.

O Overmundo surgiu de um convite da Petrobrás ao Núcleo de Idéias Movimento, composto por Hermano e outros três nomes: Ronaldo Lemos (diretor do Creative Commons no Brasil), Alexandre Youssef e José Marcelo Zacchi. Na época, a equipe de patrocínio cultural da empresa imaginava que o projeto seria hospedado em seu próprio site, e teria o nome de Petrobrás Energia Cultural. Hermano explica os novos rumos que se seguiram: “o projeto foi crescendo e se tornando cada vez mais aberto tecnologicamente (com preferência pelo software livre também), deixando evidente que deveria ser algo independente, com vida própria, controlado pela sua comunidade de usuários. Passamos a procurar um outro nome e chegamos ao Overmundo, título de um belo poema do Murilo Mendes, que lá nos anos 40 já parecia descrever o grito eletrônico e o estar em toda parte do melhor da Internet.”

É essa nova experiência para a cultura brasileira que poderá ser conferida a partir de fevereiro, e que para funcionar devidamente vai depender da participação de todos os envolvidos nos processos da cultura no país. Hermano aguarda os resultados com expectativa. “Queremos ser surpreendidos pelos usos que as pessoas vão inventar para a ferramenta que estamos disponibilizando.”

www.overmundo.com.br

André Fonseca

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