Secretário-executivo do MinC comenta o “pacote audiovisual” do governo: “a televisão não pode ver o cinema como um problema”; leia entrevista Por Israel do Vale
Enviado especial a Brasília
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14/10/2003
Tido como principal formulador das políticas do Ministério da Cultura, o secretário-executivo do MinC, Juca Ferreira, avalia que começa-se “a trabalhar dentro de uma política integrada para todo o setor audiovisual no Brasil”. Abaixo, o “vice” de Gilberto Gil comenta as principais implicações imediatas do pacote audiovisual. Leia entrevista concedida em Brasília, no dia 13 de outubro, durante a solenidade de lançamento do Programa Brasileiro de Cinema e Audiovisual.
Cultura e Mercado – É o começo de uma nova era para o audiovisual brasileiro?
Juca Ferreira – Claro. Acho que hoje [ontem] fechou-se um ciclo. Fechou-se o ciclo da indefinição e abriu-se outro. Daqui a quinze dias vamos ter Ancinav, vamos ter Conselho de Cinema e Audiovisual, e aí a gente começa a trabalhar dentro de uma política integrada para todo o setor audiovisual no Brasil.
CeM – É possível visualizar o que deve mudar na relação com a televisão aberta?
JF – Acho que tem um campo enorme de cooperação. A entrada do Ministério da Cultura no sentido de articular essa parceria deu um peso institucional. A gente sabe que tem demandas justas de ambos os setores. Tem a demanda da televisão por ser uma indústria constituída, de que não se desorganize o modelo que viabilizou o sucesso da televisão brasileira. Então isso é uma demanda justa. Agora, ao mesmo tempo a televisão não pode ver o cinema como um problema. O cinema pode dar uma contribição enorme no sentido de ampliar as possibilidades da televisão brasileira. E mais do que isso. Interessa ao Brasil, interessa à economia do audiovisual, que a gente crie um mecanismo onde os negócios e a economia do audiovisual contem com os fluxos do cinema e da televisão de uma maneira ampla. Sou muito otimista com as possilbilidades que estão sendo criadas agora.
CeM – Isso só seria possível pela vinculação da agência ao Ministério da Cultura?
JF – Era inevitável que fosse o Ministério da Cultura mesmo. É quem tem vocação de articular uma política cultural, no sentido amplo de política cultural contemporânea. Cultura é identidade, cultura é cidadania e cultura é economia também.
CeM – O governo considera a hipótese de uma cota de tela para o filme brasileiro na TV aberta?
JF – Acho que a questão não pode ser resumida dessa maneira. Eu preferiria dizer que o governo se interessa pela presença do cinema brasileiro na televisão e em outras mídias. Hoje a televisão aberta não é a única mídia que pode contribuir. É muito mais ampla a discussão e acho que seria redutor se a gente discutisse a questão da cota de tela. Prefiro falar da seguinte maneira: o cinema brasileiro cabe dentro da programação das televisões brasileiras. E tem um mundo para se avançar nessa questão, no sentido de realizar essa parceria entre cinema e televisão.
CeM – Mas essa hipótese está descartada?
JF – Não. Não é que está descartada, é que é uma conversa pobre dessa maneira. É uma conversa antiga, de um ano, dois anos atrás: o cinema batendo na porta da televisão pedindo cota de tela e a televisão protegendo o patrimônio construído nas últimas décadas. A questão é: há interesse e possibilidade de que seja benéfico para ambas as partes. Então vamos pensar que este é o caminho para a discussão e a conversa.
CeM – Quando serão definidos os nomes do Conselho Superior?
JF – Já fizemos as sugestões para a Casa Civil. Estamos esperando apenas o retorno deles.
CeM – A tendência é de haver mudança na direção da Ancinav ou esta diretoria pode permanecer no comando?
JF – Aí não sabemos ainda. Depende de muita coisa ainda. É prematuro falar qualquer coisa.
CeM – Comenta-se que o decreto que vai criar a Ancinav deve acabar com os mandatos fixos do comando da agência. Isso é uma questão definitiva?
JF – Se for criada a Ancinav, certamente. Na medida em que o Conselho deixe de ser um Conselho de Cinema e passe a ser um Conselho do Audiovisual, são outros instrumentos institucionais. Então, evidentemente, fica encerrado um ciclo.
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