Participação e Cultura

É sempre complexo falar de participação, principalmente, quando o foco centra-se sobre as questões culturais. De certa forma é falar de um assunto comum a todo e qualquer indivíduo no universo comum. É como chover no molhado. Todo mundo acredita piamente saber do que se trata, tem previamente elaboradas frases prontas para defender este instrumento social e gerencial, politicamente correto. Quando, no entanto, fazemos uma análise mais aprofundada, percebemos o quão distante do nosso cotidiano ela se encontra.

Este artigo objetiva ser um instrumento de reflexão sobre a importância da participação para o desenvolvimento do ser humano e, consequentemente, da formação de sociedades mais maduras e conscientes do seu papel no ambiente coletivo busca também questionar de que maneira a questão cultural interfere ou é responsável pela realidade vivida.

Relataremos uma experiência vivenciada em meados de setembro de 1998, quando, lecionando Administração Participativa para turmas de Administração de Empresas, solicitamos uma pesquisa sobre a participação no âmbito político no Brasil. Para tanto, seria necessário a busca das propostas dos partidos políticos e seus candidatos. Tal pesquisa parecia interessante uma vez que antecedia as eleições para Presidente da República e Governadores.

O resultado de tal trabalho foi surpreendente sob dois aspectos: Primeiro, no que se refere às propostas dos partidos e candidatos em segundo, quanto à postura dos pesquisadores.

Pôde-se constatar, através das pesquisas, o amadorismo da ação desses órgãos. De 10 partidos pesquisados, apenas 3 possuíam propostas concretas, os 7 restantes não apresentavam propostas, e o que é pior, em alguns casos não apresentavam um endereço ou telefone para que o cidadão brasileiro obtivesse informações sobre aqueles que pretendiam gerir o país. Um candidato à presidência, famoso por sua intransigência e quase fascismo, fornecia, no seu programa de televisão gratuito o número de um telefone, que, quando contactado por um aluno, revelou tratar-se da portaria de um apart hotel e o “presidente”, segundo o porteiro, estava viajando. O aluno pensou haver algum engano. Mas não. O número fornecido, em rede nacional, era atendido por um porteiro tão pouco informado, no que se refere a propostas políticas de um partido, quanto qualquer um de nós. Os números mostram que esse candidato, na época, se elegeria para qualquer cargo político no Brasil, excetuando-se o de Presidente.

Uma outra situação “curiosa” foi a de um outro partido cujas propostas de ação, planos de governo e diretrizes não constavam via internet, e assim, mais uma vez, nossos pesquisadores ligaram para o telefone fornecido no horário, com ligação, gratuita e, para surpresa geral, a pessoa que atendeu deu a seguinte resposta:

– “Olha, o Presidente está viajando e eu, no momento, não posso lhe atender, porque estou com uma panela no fogo”.

Aí nos perguntamos: Por que isso? O que está acontecendo? As pessoas se enlouqueceram? Não, os candidatos à eleição e nossos governantes têm conhecimento exato das pessoas com as quais estão tratando, e para as quais dirigem seu discurso. Sabem que não faz parte da “Cultura” do brasileiro, questionar, participar, debater, ir a fundo nas questões. E, em função disso, sentem-se tranquilos para nos tratar com tal falta de respeito e profissionalismo. E aí pensamos: Quantos de nós se lembram do deputado federal e estadual nos quais votaram na última eleição? Quantos de nós fazem pressão no sentido de exigir que ao votar determinada Lei, o deputado estará representando seu eleitor, defendendo os interesses daqueles que o elegeram?

O trabalho realizado ainda teve um outro resultado surpreendente: A motivação para a realização do trabalho foi muito pequena, porque valia poucos pontos. Não havia interesse em conhecer propostas nem em debatê-las no ambiente acadêmico, porque, infelizmente, a força motriz da realização de trabalhos ainda é a pontuação formal. E mais, alguns alunos alegaram que essa discussão política “não tem nada a ver com a Teoria da Administração”.

Como falar de “Participação” sem contemplar os universos cultural, político, econômico? O âmbito organizacional deve ser contextualizado, por ser reflexo de uma postura/ vivência social maior.

No Brasil, especificamente, não há como abordar “Participação” sem trabalhar a cultura do “jeitinho, nossa característica paradoxal que nos enche de orgulho e vergonha, dependendo da situação, conforme trabalha tão bem DaMatta(1990). Ficamos orgulhosos quando o “jeitinho” consegue solucionar problemas pessoais em detrimento do coletivo e levamos vantagem pessoalmente, mas, quando alguém “dá um jeitinho” e a situação é publicizada, morremos de vergonha e somos capazes de discursos que se posicionam contra essa característica que sobrepõe regras, leis, normas, etc.

E as nossas empresas? Marcadas desde o início dos tempos com características paternalistas e personalistas? MOTTA & ALCADIPANI (1999) fazem uma recuperação muito interessante da formação da cultura da pessoalidade brasileira, ou seja, o grande valor atribuído à pessoa. O “cunhadismo” foi a primeira maneira de dominar pessoas para trabalharem a favor dos interesses europeus quando da exploração do pau-brasil. “Ele se deu porque, pelo casamento com uma indígena, o esposo passava a ser parente de toda a tribo à qual a índia pertencia e o europeu utilizou-se dessa relação de parentesco, estabelecida por seu casamento, para fazer com que seus “parentes” índios trabalhassem na extração de pau-de-tinta”. Desta mesma forma personalista, se manifestava o poder dos senhores de engenho, que exerciam seu domínio e cujas decisões eram orientadas por sentimentos afetivos que, por um lado amenizavam e, por outro, reforçavam sua autoridade.

Nossa formação enquanto nação tem um peso fundamental nesta análise. Quando passamos a ser brasileiros? Quando deixamos de ser negros, índios ou europeus e assumimos a nossa chamada brasilidade? O Brasil é uma mistura de todo tipo de cultura, talvez por isso, ainda soframos do complexo de “ninguendade” defendido por Darcy Ribeiro, que se resume no seguinte: o negro é negro, do ponto de vista cultural, sofre inclusive de banzo, o índio não se adapta, é índio, e o brasileiro, filho de índios e portugueses, portugueses e negros quem é? Ninguém. Sofre muito com uma falta de identidade, cultura, valores que o diferenciem.

Talvez este sentimento de vazio cultural seja o responsável pelo individualismo, pela imperação da lei de Gerson, pela corrupção. E nossa apatia talvez também derive deste sentimento de ninguendade “eu não sou dono de nada”. O bem público não é meu, é do público, qual público?…

É uma busca incessante por levar vantagem, para garantir “o seu”, o individual, porque afinal de contas, não é capaz de sentir nada como NOSSO realmente. Falta responsabilidade, falta identificação, falta compromisso, que são fatores que garantem a luta, o amor e o apego às questões coletivas.

De repente, nos enxergamos no limiar do ano 2000 (como achávamos que demoraria a chegar!) reproduzindo toda essa cultura que privilegia poucos em detrimento do bem-estar coletivo. Chegamos aqui, preocupados com o nosso conforto momentâneo. E o nosso futuro, qual a estratégia para garanti-lo melhor? Quem garantirá nossos direitos? Será que a nossa omissão de cada dia não irá refletir num futuro de medo, de grades, de alienação? Conhecendo nossas origens, dificuldades e limitações, poderemos superar barreiras e transformar com nossa forma de agir toda uma história. Esta tomada de consciência deve ser independente de classe social, de grau de instrução. Precisamos a passos largos, desenvolver a consciência de ser brasileiro, para que nosso futuro possa refletir a beleza desta miscigenação cultural, racial da qual somos, orgulhosamente, fruto.

Simone Marília Lisboa é consultora e administradora de empresas. Mestre em Marketing e Planejamento Estratégico pela Universidade Federal de Minas Gerais, autora do livro “Razão e Paixão dos Mercados”, técnica licenciada da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e diretora da Faculdade PROMOVE de Sete Lagoas. E-mail: smlisboa@uai.com.br – Fone: (31) 772-3770

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Simone Lisboa

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