A Livraria Cultura promoveu no dia 20 de julho o evento ‘Vira Cultura’, em São Paulo, onde em uma discussão realizada sobre Economia Criativa, com a participação do especialista em cultura Leonardo Brant e Natalie Assad, sócia do Partio, alguém da audiência levantou a mão para dizer que preferia assistir filmes internacionais do que nacionais, pois a qualidade era quase sempre superior. Preconceito ou pós-conceito, não era a primeira vez que eu ouvia alguém falar isso do nosso cinema.

Foto: Dino Ahmad AliA Agência Nacional do Cinema (Ancine) publicou na última semana o Informe de Acompanhamento do Mercado, que mostra o Desempenho do Segmento de Salas de Exibição. As exibições brasileiras aumentaram, representando hoje 18,6% de participação nas salas nacionais, melhor momento desde o lançamento de “Tropa de Elite 2”. Neste primeiro semestre, o cinema brasileiro recebeu 13,6 milhões de espectadores, o que gerou uma renda de R$ 141,9 milhões.

Entretanto, fica aquela dúvida ao artista: criar pela arte ou criar para que esses números do mercado do entretenimento se elevem?

Em seu Pequeno Manual de Inestética, Alain Badiou reflete:

“… a arte é, por si mesma, produtora de verdades, e não pretende de maneira alguma torná-la, para a filosofia, um objeto seu.”

É verdade que a cultura de um país deve ser de certa forma, pelo conceito de Badiou, separada da indústria de entretenimento, ou será formado um mercado cultural dependente de iniciativas que correspondam à política cultural vigente naquele lugar, sendo essa, muitas vezes, constituída pelos interesses de uma classe dominante. A cultura deve ter a preocupação de inovar linguagens e aprofundar pesquisas, afim de produzir verdades, das quais a indústria se apropriará um dia.

Temos hoje, em fase de captação de recursos, um filme de João Jardim chamado “Os Últimos Dias de Getúlio”, que contará pelos olhos do diretor, indicado ao Oscar em 2011 com Lixo Extraordinário, a última fase da vida do estadista. Como a captação de recursos para filmes de grande qualidade, iguais a este, depende de contribuições de grandes valores – os quais vêm geralmente de empresas – existe uma grande dificuldade destas empresas se interessarem pelo filme, pois muitas enxergam que associar suas imagens à questão política pode ser arriscado. Nesse caso, a História e a cultura brasileira perdem. O financiamento colaborativo pode ser uma boa alternativa para casos como esse, onde as pessoas físicas têm interesse em fomentar tal iniciativa, sem preocupação com essas políticas culturais.

A questão da falta de qualidade está certas vezes relacionada à visão de curto prazo por parte de alguns produtores culturais. Este é o outro lado da discussão. Pelo desafio e dificuldades na captação para o projeto de suas vidas, alguns artistas tendem a enxugar investimentos em marketing ou recursos técnicos.

É necessário, de toda a forma, apesar do que diz Badiou, que o produtor comece a enxergar projetos como futuros negócios, ou como planos que criem extensões orgânicas na sociedade, seja com discussões a serem abertas ou, principalmente, focando em uma nova indústria cultural a ser formada, fortalecendo em seguida a indústria do entretenimento no país.


Produtor audiovisual. Idealizador da plataforma de captação partio.com.br.

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