Pelos teatros independentes

Pelos teatros independentes

Um mapeamento realizado recentemente em São Paulo identificou que há diferenças estruturais relevantes entre os teatros independentes e os demais (públicos, patrocinados e SESC). Uma delas é a produção de cultura.

Foto: Susanne NilssonA maioria mantém uma agenda de apresentação de espetáculos importante. Os independentes, no entanto, além de apresentarem espetáculos de terceiros em seus espaços, ainda produzem os próprios, na maior parte das vezes inéditos e autorais. Isso acontece, segundo o diretor teatral Ricardo Karman, pelo fato desses espaços estarem nas mãos de artistas ativos na sua função social, que talvez por essa razão se esforcem para manter seus espetáculos em cartaz mais tempo.

Karman é fundador do Teatro Centro da Terra e um dos integrantes do Motin – Movimento dos Teatros Independentes de São Paulo, lançado há cerca de um mês, após dois anos de conversas. “O que nos atraiu no início foi a mobilização em torno da isenção do IPTU para os pequenos teatros. Mas, com o tempo, percebemos que havia outras demandas em comum que nos afligiam e que também deveríamos contemplar”, conta Karman. Entre essas, está um sistema de organização que preserve a diversidade, mas que também represente e identifique esses espaços.

O Motin, continua o diretor, era uma possibilidade de romper o isolamento artístico, administrativo e legal (com desdobramentos e atuações coletivas nas políticas culturais) que acometia a maioria dos teatros independentes da cidade. Rapidamente, isso evoluiu para a necessidade de ter um portal na internet e uma cartografia dos espaços existentes.

Portal no ar (www.motin.org.br), pesquisa publicada (clique aqui para acessar), lei de isenção do IPTU aprovada (a valer em 2016). O próximo passo é estabelecer uma rede e dar maior visibilidade à importância da atuação dos teatros independentes na cidade. O movimento, que no último ano reuniu representantes do Ágora, Redemunho, Centro da Terra, Ruth Escobar e Pequeno Ato, entre outros, agora quer lutar pelas condições dos espaços teatrais e ampliar sua capacidade de comunicação com o público.

“Os teatros que integram o Motin configuram uma rede de produção de arte heterogênea, em inúmeros territórios socioculturais diferentes espalhados por toda a cidade. Uma manifestação livre, autêntica e autóctone da nossa diversidade cultural contemporânea, sem curadoria de terceiros sobre nossos trabalhos. Isso representa uma diferença estrutural importante entre o movimento e os demais teatros e possui um valor inestimável”, afirma Karman.

Pedro Granato, dramaturgo e diretor teatral, responsável pelo Pequeno Ato, acredita que com a ascensão do universo virtual, o teatro reforça sua importância de olhar para o essencial, de colocar as regras sociais, políticas e pessoais em questão. “O teatro segue sendo um canal muito forte de relação entre público e artistas, olho no olho, um fórum de debate e percepção de nossas características. A humanidade está em análise no teatro e em nossa cidade gigantesca essa rede de espaços culturais cumpre a função vital de não ter uma função utilitarista. E o mais impressionante é a variada gama de estilos e propostas que estão em cena em São Paulo, uma diversidade poderosa e com potencial para fortalecer sua relação com a sociedade.”

Um dos próximos projetos do Motin é realizar um seminário para fomentar o debate sobre qual o espaço do teatro com relação às novas tecnologias. Karman acredita que, com o tempo, as artes e eventos presenciais podem ganhar força diante das mídias virtuais e definir melhor seu espaço. “Pessoalmente, acredito na interatividade e hibridização das mídias”, defende.

Sustentabilidade – A cartografia lançada pelo Motin identificou que apenas um terço dos teatros independentes da cidade de São Paulo está com a documentação de acordo com a legislação. Segundo Granato, isso acontece devido à “legislação antiquada, burocracia e uma falta de representatividade dos teatros”, fato que o movimento pretende mudar, colocando essa rede nos holofotes e facilitando a troca de informações, a atualização das leis e a regulamentação dos espaços.

“Muitos espaços sofrem também com a especulação imobiliária, são reféns de uma falta de proteção e identidade de uma atividade que se desdobra muito além de uma função meramente comercial. Nesse sentido, isso é um sintoma de inadequação que estimula essa ação coletiva, porque representa um problema estrutural da relação da cidade com os teatros, não pontual de algum administrador”.

A questão da especulação imobiliária – bastante falada pela mídia nos últimos meses, com a possibilidade de fechamento de espaços como o Brincante, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e Célia Helena – ainda é uma questão para os gestores dos teatros independentes. “A atividade cultural tem que ser protegida disso. Veja o exemplo da Praça Roosevelt: os espaços teatrais foram fundamentais na transformação da praça, não podem de repente ser expulsos porque justamente por sua ação o espaço se tornou melhor para a convivência e circulação de pessoas. Teatros melhoram ruas e vizinhanças, desempenham uma função preciosa no entorno e esse papel tem que ser protegido”, defende Granato.

Outra questão levantada na cartografia do Motin diz respeito às fontes de recursos desses espaços. Foi identificado que os independentes têm fontes muito diversas e nenhuma muito representativa, enquanto os públicos dependem de suas entidades mantenedoras e os patrocinados dividem seus recursos entre empresas e bilheteria.

E a meia-entrada continua sendo um debate. Ainda que o diálogo com estudantes, aposentados e outros beneficiários da meia-entrada seja fundamental, segundo Granato, esse é um benefício concedido pelo Estado com ônus para os artistas. Assim, o ideal seria que houvesse algum tipo de compensação aos espaços. “Ainda não há um mecanismo eficiente que ofereça uma contrapartida desse desconto. As contas dos teatros não podem ser pagas pela metade, então apenas um lado está cedendo algo, não existe troca”, explica o diretor.

E qual seria a melhor equação para a manutenção dos espaços, sem sufoco? “Quem tiver a resposta que junte-se a nós!”, convoca Granato. Segundo ele, são muitos fatores, que variam de acordo com as especificidades do espaço e do trabalho artístico que ali se apresenta. “Queremos quebrar uma relação dependente do Estado, mas temos que clarear a percepção pública de que um espaço cultural transcende uma atividade meramente comercial. É um ponto de encontro, de reflexão e troca sensível entre as pessoas. Queremos que o público reconheça mais a rede de teatros da cidade e nossa produção cultural. Ela seria motivo de orgulho em qualquer cidade do mundo e estamos importando exemplos bem-sucedidos de iniciativas que ampliaram o público em outros países.”

 

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