Personalidades refletem sobre era Lula na Cultura

Produtores, consultores de marketing e economistas dão suas impressões sobre o primeiro ano da nova gestão do Ministério da CulturaPor Deborah Rocha
www.culturaemercado.com.br
23/12/2003

Para a última edição de 2003, Cultura e Mercado convidou personalidades do setor cultural a darem seus depoimentos sobre os efeitos da era Lula na Cultura. Abaixo a opinião de algumas delas, que respondendo à pergunta ?Como você sintetizaria o primeiro ano da nova gestão do MinC??, refletiram sobre o primeiro ano de atuação da pasta liderada pelo ministro Gilberto Gil.


“2003 foi um ano de grandes avanços para o MinC, com conquistas importantes, como a ida da Ancine para sua esfera de atuação, o aumento do valor destinado ao incentivo fiscal e a previsão de um aumento substancial para o orçamento de 2004. Também é inegável a importância de termos um homem do mundo cultural à frente do Ministério. No último ano, o MinC passou a ter um peso maior e aumentou sua capacidade de interlocução com a sociedade e de formular políticas públicas. Com relação a expectativas para 2004, acho que o MinC precisa abrir ainda mais os canais de diálogo para discutir mudanças na Lei Rouanet.”

Eduardo Saron
Superintendente de atividades culturais do Itaú Cultural

Muita falação, pouca resolução e uma fraca gestão como conclusão. Nunca foi novidade o fato de o ?showministro? Gil, saber cantar e dançar. Então: qual é o resultado do “Seminário Cultura Para Todos”, que prometia ser uma grande mobilização para se mudar os rumos da política cultural no país? Se olharmos para o que se apresenta no site do Minc teremos uma boa resposta: “Muitas vezes, as reuniões assemelharam-se a uma espécie de terapia de grupo. É que pela primeira vez, o MinC ouviu a sociedade cultural para saber de suas dúvidas, anseios, idéias, perspectivas.”
Podemos creditar à nova gestão do Minc uma grande descoberta: temos no Brasil uma “sociedade cultural” que nunca foi ouvida e, por certo, porque nenhuma gestão anterior tinha descoberto essa tal de “sociedade cultural”. Grande feito esse, revolucionário, diria a Heloisa Helena aplaudida pelo Mão Santa do Piauí. Pelos números do Minc essa “sociedade cultural” é composta por: 5 mil pessoas que vivem em quinze cidades e produziram 93 documentos. Essas pessoas passaram 150 horas em debate, onde 340 usaram o microfone. Ou seja, menos de 10% (trata-se de uma sociedade ultra/pós-democrática). No final, geraram 436 páginas de um relatório. Tentei ler os relatórios mas o sistema Minc não abre os documento via internet. Querem mais? É só ficar esperando na janela, ai, ai, que o espetáculo do crescimento já vai começar!!!

Joatan Vilela Berbel
Consultor de marketing cultural

Nós do Grupo Cultural Afro Reggae somos suspeitos para falar da atual gestão do MinC. Ao mesmo tempo, também nos sentimos legitimados a falar do mesmo já que temos uma relação bastante estreita com o ministro Gilberto Gil e com boa parte dos seus assessores. Como sabemos, o MinC não dispõe da mesma verba dos anos anteriores e, de maneira excepcional, vem conseguindo estabelecer parcerias com os diversos setores: empresas privadas, estatais e sociedade civil. Só mesmo Gil, Juca Ferreira, Risério, Roberto Pinho e Turiba para promoverem encontros e misturas tão inusitados como a que eu vivi no dia de hoje (acabo de chegar de Brasília). Nós tivemos a honra de ser agraciados com o Prêmio Ordem do Mérito Cultural. Premiação essa que colocou no mesmo saco o Grupo Ponto de Partida e Meninos de Araçuaí de Minas Gerais e a atriz Marilia Pêra. Do meu lado estava a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano e atrás a galera do Jongo da Serrinha.
Em breve o MinC estará implantando um dos seus programas mais importantes, o Bac – Base de Apoio a Cultura. Mais do que um centro cultural, essas bases serão núcleos de produção de cultura, gestão e de fortalecimento das regiões beneficiadas. Os locais escolhidos serão periferias, favelas, subúrbios, acampamentos do MST, aldeias indígenas e todo e qualquer lugar onde a cultura tem e deve ser fomentada. Esse é um dos caminhos idealizados numa estrada longa, esburacada e com um pedágio dolarizado.

José Junior
Coordenador Executivo do Grupo Cultural Afro Reggae

2003: O ano em que a cultura brasileira apareceu
Neste primeiro ano de gestão do novo Governo, a equipe do MinC empenhou-se na tentativa de fortalecer o Ministério, que recebeu bastante desprestigiado política e financeiramente. O procedimento foi o de rediscutir o papel e a importância da cultura para o país, tentando superar o conceito de enfeite, de supérfluo e de encargo com que sempre os governos e mesmo a sociedade vinham tratando. A outra tarefa em que se empenhou era elevar o ranking de classificação, quanto ao aporte orçamentário com que vem sendo contemplado . E finalmente, o MinC concentrou esforços na reforma de estrutura interna, redesenhando os setores às funções desempenhadas, realinhando instituições e reposicionando vinculações. O impacto dessas ações só poderá ser avaliado dentro de algum tempo.
Com relação às operações propriamente ditas, no setor audiovisual, elas iniciaram-se mais para o final de 2003, não tendo havido tempo para consolidar ainda a visão sobre os resultados, a não ser o de reconhecer que foram direcionadas segundo as expectativas do setor. A interlocução com a representação do audiovisual, não foi todo o tempo harmoniosa, o que consumiu parte considerável de esforços dos dois lados.A divergência quanto à vinculação da Agência Nacional de Cinema ao MinC , como propugnou a direção do Ministério e não ao MDIC , como estava previsto em Lei, foi responsável pela principal turbulência nas relações MinC/cinema . As normas que algumas estatais divulgaram para selecionar projetos a serem incentivados bem como as exigências de contrapartidas sociais , provocaram uma polêmica entre a Secom, o MinC e posições divergentes de diferentes setores do audiovisual o que exigiu esforços de apaziguamento entre as partes. Mas a visão da equipe dos novos dirigentes do MinC , propondo o estabelecimento de um plano nacional com políticas públicas para a cultura do país, trouxe maior alento para o setor. Também o reconhecimento , do audiovisual como uma atividade econômica/cultural estratégica para a Nação, resultou num impacto positivo junto à classe. Os esforços que o MinC desenvolveu para redimensionar os recursos orçamentários , foram apoiados pela comunidade cultural e contou com a ação decidida dos representantes do audiovisual a favor da iniciativa, atuando junto à sociedade e o poder legislativo. Porém , é inconteste, o maior êxito alcançado nesse primeiro ano de gestão , deveu-se à ação do próprio Ministro Gil, que emprestando ao MINC seu extraordinário carisma e popularidade, junto a todos os segmentos da sociedade , no Brasil e no exterior, alcançou uma visibilidade , para a cultura brasileira, nunca antes vista . Pode-se afirmar que em nenhum momento da nossa história , tivemos para a cultura, o prestígio e o respeito que temos hoje. Só por esse resultado, pode-se afirmar que este primeiro ano de gestão do MINC foi altamente positiva para o fortalecimento e a importância da cultura e do audiovisual do Pais. Que venha 2004.

Assunção Hernandes
Produtora de cinema

Dentre as ações implementadas em 2003 pela dupla Ancine/SAV creio que a mais promissora para o audiovisual brasileiro foi a implementação de mecanismos de sustentação da atividade cujos recursos foram originados da própria indústria audiovisual. Com a Condecine, a Ancine pôde deslanchar o embrião de um fundo público que, na minha opinião, deveria ser a principal fonte de recursos para a produção cinematográfica do país. Os incentivos fiscais deveriam ser complementares a uma política que procurasse uma auto-sustentabilidade relativa para o setor. Por meio de fundos públicos, a concessão dos recursos – que são públicos – podem ter critérios que sejam verdadeiramente públicos, de conhecimento de todos. E, se tais fundos são alimentados com taxas advindas da exibição/difusão de obras audiovisuais, isso torna a atividade cinematográfica menos dependente dos recursos do orçamento geral do Estado brasileiro, cujas demandas por gastos sociais são gigantescas.

Alex Patez
Economista e estudioso do mercado audiovisual

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