Em setembro de 2010, 12 escritórios de arquitetura foram convidados pelo diretor executivo da Pinacoteca, Marcelo Araújo, a participar de um concurso para a reforma do Liceu de Artes e Ofícios. O documento exigia a apresentação de habilitações jurídicas, fiscais e técnicas, e apontava que a Associação teria “o direito de julgar insatisfatórias todas as propostas, (…) sem que de tal ato decorra direito de reparação”.
No último dia 9 de fevereiro, os escritórios receberam um comunicado da Associação Pinacoteca Arte e Cultura, organização social responsável por gerir a Pinacoteca do Estado, sucinto e sem assinatura, agradecendo a participação no concurso e informando, no entanto, que “nenhuma das propostas endereçadas foi selecionada”.
Silvio Oksman, arquiteto que projetou o Instituto Criar de TV e Cinema, no bairro da Barra Funda, falou à Folha de S. Paulo em reportagem publicada nesta quinta-feira (24/2): “Foi uma falta de respeito. Durante quinze dias trabalhamos como loucos”, disse. Ele reclama que o convite era vago. “Havia poucas especificações. Tanto que os projetos finais eram absolutamente diferentes. Acho difícil que nenhum deles atendesse às demandas.”
Renato Dal Pan, que projetou o Sesc de Guarulhos, diz que a classe está “acostumada a ser mal tratada”. Ainda assim, decidiu participar: “Era um projeto estimulante, de magnitude, para criar um espaço expositivo e uma reserva técnica. Foi um mês de dedicação exclusiva no escritório.”
Lua Nitsche, que assina casas de veraneio no litoral paulista, diz ter alocado “cinco arquitetos e três estagiários” no projeto: “Foi o primeiro convite que recebemos, por isso entramos”. Ela reclama da falta de diálogo com a Associação Pinacoteca. “Eles não se comunicavam por telefone. Havia um endereço de e-mail para sanar dúvidas. Mas nunca recebíamos resposta de uma pessoa específica. Era sempre algo abstrato, em nome da Associação.”
“Fica parecendo que não houve análise, que a decisão foi política”, disse Lua. “Falta de qualidade não pode ter sido. Havia gente gabaritada. O Mario Biselli, por exemplo, venceu o concurso para projetar o Aeroporto Internacional de Florianópolis.”
Biselli, que também desenhou o Teatro de Londrina, diz ter sido acometido de uma “frustração absoluta”. “Já vi a coroação de projetos ruins, mas nunca o cancelamento assim, do nada”, diz.
O arquiteto Marcelo Ferraz – que projetou a Prefeitura de São Paulo com Lina Bo Bardi (1914-1992) -, preferiu não participar. “Convidaram mais de 20 escritórios. Trabalha-se muito e, normalmente, 90% vai para o lixo. Nesse caso, 100%”, disse.
Ferraz figurou, em 2008, entre os finalistas do concurso que escolheria a nova sede do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. “Então cancelaram tudo e recomeçaram do zero, com a presença do [escritório americano] Diller Scofidio, que acabou ganhando.”
Procurado pela Folha, o secretário de Cultura, Andrea Matarazzo, declarou que os projetos eram “ousados demais”, além de excederem o orçamento planejado pelo Estado. Disse que haverá “uma readequação” e que os arquitetos serão avisados.
Abaixo, os principais trechos da entrevista.
Folha – Por que o projeto de anexo da Pinacoteca, no Liceu de Artes e Ofícios, foi interrompido?
Andrea Matarazzo – A ideia era fazer uma reserva técnica para a Pinacoteca e para o Museu de Arte Sacra. As propostas que vi eram ousadas demais e maiores, financeiramente, do que eu esperava.
Quanto vocês pretendiam desembolsar?
Tínhamos uma estrutura para gastar cerca de R$ 5 ou 6 milhões nesse projeto.
Mas não havia especificação quanto ao valor no convite.
Pode ter havido um engano nos termos dele. Haverá uma readequação.
Isso quer dizer que os arquitetos voltarão a ser chamados?
Vou ver se é possível retornar à ideia do orçamento original. A gente faz uma nova rodada.
*Com informações da Folha de S. Paulo