Política Cultural Perversa

O sistema econômico aí estabelecido faz com que os governos eleitos, num processo ordenado e estabelecido pelos grandes aglomerados empresariais, privilegiem seus interesses lucrativos. Portanto, não temos como fazer a disputa neste campo em que as regras já estão impostas e, mesmo os ditos partidos “progressistas”, não fazem nada mais que cumprir as diretrizes estabelecidas pelos donos do poder. Seja local, estadual, nacional ou mesmo, multinacional.

São senhores incapazes de reconhecer a cultura como uma categoria de grande capacidade produtiva. Cegos e ignorantes, conseguem entender apenas os setores que produzem geladeiras, carros, combustíveis, lucros, etc, etc…. Abastecer o sonho de uma burguesia hipócrita é o que interessa.

Os governos têm se notabilizado em implementar políticas públicas para a cultura do tipo “faz de conta” ou seja, finge que faz alguma coisa e a maioria finge que não aceita.

Cabe a nós, trabalhadores da arte e da cultura, termos consciência de que estamos alijados deste processo e, tendo que sobreviver nele, precisamos combinar as pautas com os nossos pares no sentido de garantir pontos estruturais para podermos avançar naquilo que entendemos como políticas públicas de cultura.

Sabemos que a Lei Rouanet atende aos interesses de uma parcela da arte que fortalece este sistema perverso onde só o grande produtor tem acesso. Uma política de balcão que não contribui, apenas constrange a ética.

No caso específico da dança, mesmo sendo uma expressão artística diversificada da maior relevância no que nós entendemos como civilização brasileira, as indicativas sequer foram rabiscadas. Assim como não compreendemos nossa gente, a imobilidade funcional imposta por um desenvolvimento agroexportador excludente e exploratório, decide quem pode ou não participar da peleja.

Como pode um país de tantas etnias e qualidades artísticas ter, ainda, o eurocentrismo como modelo? Sem entrar na seara da departamentalização que as academias preconizam para garantir suas migalhas na manutenção de uma cena que em nada tem a ver com a nossa existência real… Enfim, precisamos sair desta agenda estafante que em nada tem a ver com nosso fazimento e no sossego pensarmos nossas trajetórias.

Cultura é cultivo e o mercado não pode ser destino final de seu produtor. A arte, que entendemos como produção de pensamento, não pode se pautar pela garantia mínima de adereços para a exploração. Podemos até estar enfraquecidos nesta onda, mas, não devemos perder a capacidade de sonhar com outra realidade. E é justamente esta capacidade que pretendemos potencializar em nossa cooperativa.

*Carta escrita em conjunto pelos membros da Cooperativa Paulista de Trabalho dos Profissionais de Dança, lida por Alex Merino durante o Seminário #Procultura

Acessar o conteúdo