“Qual seria o custo da criação de um Pólo Audiovisual de São Paulo? O equivalente a uma OSESP, cujo orçamento é hoje estimado em 42 milhões de Reais. A bem sucedida experiência da Orquestra, referência no Brasil e no mundo, adveio de uma política de investimento contínua do Governo do Estado, com a criação da Sala São Paulo e de outros investimentos ligados à iniciativa privada”
São Paulo, o Estado mais rico da América Latina, com um PIB maior que muitos países da região, carece de igual relevância no universo audiovisual. Vários motivos podem ser arrolados, mas talvez o principal seja que nunca houve uma articulação governamental capaz de elevar a produção audiovisual local a um nível equivalente ao da força e pujança econômicas do nosso Estado.
Uma comparação com o Rio de Janeiro é esclarecedora: não por acaso, o estado brasileiro onde mais se produz cinema e TV é o que recebe o maior volume de recursos das estatais federais. O BNDEs e a Petrobrás, os maiores investidores, favorecem o Rio com 60% a 70% dos investimentos. São Paulo e o resto do país têm que se contentar com os cerca de 30% restantes.
Mesmo sem um apoio governamental efetivo, São Paulo é sede das emissoras de Televisão do Brasil (com exceção da Globo), das grandes produtoras, dos melhores estúdios, dos principais locadores de equipamentos, das mais premiadas agências de publicidade. Daqui saem os produtos audiovisuais de maior repercussão nacional e internacional, vide Cidade de Deus, de Fernando Meireles.
A presença de tantos talentos propicia ao Governo do Estado que assume em 2007 uma situação que, devidamente articulada, pode elevar nosso Estado ao posto de maior produtor audiovisual da América Latina. O que se propõe é a criação de uma nova Política do Audiovisual para o Estado de São Paulo, na qual caberá ao Governo do Estado capitanear e consolidar o que hoje é disperso em iniciativas isoladas.
Um caminho viável para se obter tal fim é a criação de um Pólo Audiovisual de São Paulo, ação capaz de reunir, com o apoio do Governo do Estado, produtores independentes, distribuidores de cinema e DVDs, emissoras de TV, estúdios, locadores de equipamento, sindicatos de artistas e técnicos. O objetivo, imprimir sinergia, melhorar a qualidade de resultados à crescente cultura de investimentos na produção audiovisual.
A articulação do Governo do Estado se faz necessária face à timidez das iniciativas atuais, tanto de capital privado quanto estatal. Cito alguns exemplos: os baixos investimentos da Petrobrás e da FIESP em comparação ao que receberam os produtores do Rio de Janeiro; as poucas produções do DOC-TV, do Programa de Apoio ao Cinema – PAC da Secretaria de Estado da Cultura, o programa Documenta Brasil, com exibição na SBT (apenas 4 documentários!). Se juntarmos todos os produtos oriundos destes investimentos, ainda será um número ínfimo se considerado o volume de projetos que carecem de suporte financeiro e as potenciais horas livres da grade televisiva.
Qual seria o custo da criação de um Pólo Audiovisual de São Paulo? O equivalente a uma OSESP, cujo orçamento é hoje estimado em 42 milhões de Reais. A bem sucedida experiência da Orquestra, referência no Brasil e no mundo, adveio de uma política de investimento contínua do Governo do Estado, com a criação da Sala São Paulo e de outros investimentos ligados à iniciativa privada.
Grandes metrópoles precisam ter suas orquestras sinfônicas, mas podemos imaginar quantos telefilmes, documentários, mini-séries, longas e curtas seriam exibidos em cinemas, emissoras diversas, em cópias em DVDs, no Brasil e no exterior, se a indústria do audiovisual de São Paulo estivesse articulada num esforço conjunto? Se compararmos, por exemplo, o custo-benefício em relação ao da OSESP, serão atingido milhões de espectadores além dos milhares que a OSESP consegue alcançar em seus concertos no Brasil e no exterior. Em termos de custo-benefício, o alcance do Pólo Audiovisual de São Paulo é muitas vezes maior.
A diferença do custo da OSESP, o Pólo Audiovisual requer um menor investimento direto do Estado, em torno de 25% do total do orçamento da orquestra, ou seja, 10, 5 milhões de Reais. Um montante apenas um pouco maior do que a quantia hoje investida pela Secretaria de Estado da Cultura na produção audiovisual. Os demais 75% viriam da iniciativa privada ou de empresas estatais (estaduais ou federais) que também já investem recursos expressivos no audiovisual, porém de forma esparsa e desarticulada.
O tripé estado-estatais-iniciativa privada dará um input crescente aos diferentes setores envolvidos na produção audiovisual. Pensamos em um investimento inicial de 50 milhões de reais no primeiro ano. No segundo 60 milhões, no terceiro 80 milhões e no quarto chegando a 100 milhões. Importante frisar que a participação do Estado não será maior que um quarto do total dos recursos, em qualquer das etapas.
Do lado da iniciativa privada, o Pólo Audiovisual, poderá contar com a mediação da FIESP para articular instituições já envolvidas no apoio ao cinema, como Bradesco, Santander, Telefônica, Vivo e Casas Bahia, como também cooptar outras grandes empresas para fazer parte do bolo, cuja cereja será colocar São Paulo na merecida posição de líder na produção audiovisual da América Latina.
Convém enfatizar que o sucesso do Pólo Audiovisual de São Paulo dependerá da capacidade de articular projetos de produção com as três emissoras de Tv que tem sede em São Paulo: SBT, Record e Bandeirantes, visando a produção e exibição de telefilmes, mini-séries, documentários, longas e curtas-metragens. As emissoras estão abertas para iniciativas do gênero, seguindo uma tendência internacional, onde a produção audiovisual é descentralizada.
A Tv Cultura será parte natural desse esquema, mas a nosso ver como coadjuvante. Não seria conveniente um esforço de tal magnitude reduzir a exibição dos novos produtos à rede cultural, restrita em termos de audiência. Trata-se justamente de romper esse circulo pouco virtuoso.
A articulação do Pólo Audiovisual de São Paulo poderia ser feita pela Secretaria de Estado da Cultura por meio de estratégias como: a)criação de uma Film Commission; b) atração da iniciativa privada por meio das leis de incentivo; c) criando parcerias distintas com cada uma das emissoras sediadas no nosso estado.
Com o Pólo Audiovisual de São Paulo, São Paulo verá a geração de milhares de empregos diretos e indiretos, a renovação de seu parque de equipamentos, uma intensa atividade para artistas e técnicos, enfim, a real criação de uma indústria do audiovisual no Estado. A multiplicação dos produtos audiovisuais impulsionará a imagem de São Paulo, tornando-o mais conhecido internacionalmente, o que direta ou indiretamente também poderá gerar e atrair mais e melhores investimentos.
Cláudio Kahns