Neil Young fez alvoroço durante a edição de 2014 do South by Southwest (SXSW), festival de cinema, música e tecnologia que aconteceu na última semana em Austin, Texas (EUA). Com o aval de um seleto grupo de ícones da música pop, como David Crosby, Norah Jones, Dave Grohl, Eddie Vedder, Sting, Flea, Arcade Fire, lançou uma campanha na plataforma de crowdfunding Kickstarter para financiar o Pono.
A proposta consiste em um novo aparelho, que se assemelha a um iPod. Na verdade, toda a proposta se assemelha ao iTunes e suas plataformas musicais. Mas a partir de uma tecnologia exclusiva, seria capaz de reproduzir músicas em alta resolução, disponibilizadas em uma plataforma criada para a compra dos arquivos.
Faltando 24 dias para o fim do período de arrecadação (21 de março), o projeto alcançou 4,5 vezes a proposta inicial de US$ 800 mil, chegando à quantia de US$ 4,4 milhões.
A novidade gerou debate entre os amantes da música. Em uma indústria onde é cada vez mais difícil vender discos, seria o aparelho uma alternativa que complementa os formatos existentes? Mais um aparelho de sucesso passageiro?
Os dados do mercado musical parecem soprar em favor de Neil Young. De acordo com o Digital Music Report, relatório anual elaborado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica, as vendas de música pelo mundo tiveram retração de 3,9%, queda quase que inteiramente justificada pelo desempenho no mercado japonês, que regrediu em 17%. No entanto, segundo o mesmo relatório, as vendas no mercado digital vêm mantendo crescimento regular (5,9% em relação a 2012), alcançando o número de US$ 5,9 bilhões. No ano passado, chegou ao patamar de 39% do total da receita fonográfica.
Lothar Kerestedjian é sócio fundador do site HighResAudio, fixado na Alemanha, que desde 2011 se dedica à venda de arquivos de áudio em alta resolução. Sem mencionar números, o empresário garante que esse mercado vem crescendo, mas não acredita que o Pono venha a representar um grande estardalhaço na indústria musical, já que outros gadgets já rondam o mercado. “Por que um Pono?”, questiona ele em entrevista ao Cultura e Mercado.
“Há muitos gadgets HighRes portáteis disponíveis no mercado hoje e muito mais estão chegando este ano, oferecendo características fantásticas, suporte aos codecs de áudio e grande usabilidade. Não há necessidade de um player Pono!”, defende o empresário. Segundo ele, a fonte das masters de High Resolution é o modelo para o sucesso do negócio da música digital em alta resolução, além de equipe e gestão altamente qualificadas e dedicadas. “Tem que ter infra-estrutura técnica e um bom funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, para o usuário final!”, afirma.
No site Ponomusic.com, a equipe garante que o aparelho pode reproduzir arquivos de qualquer outras fontes e que os áudios disponibilizados na plataforma também podem ser reproduzidos em quaisquer outros aparelhos. A estimativa é que os álbuns custem entre US$ 15 e US$ 25.
Mercado – A incorporação da tecnologia em smartphones também é um dos aspectos que desacreditam entendidos quando o assunto é o Pono. Para o produtor e curador musical Pena Schmidt, a novidade poderia dar certo, se tivesse sido lançada há 10 anos. “O Pono tem problemas para se firmar como um novo padrão de mercado. Primeiro porque quer ser fechado, loja+aparelho, como iTunes, só que sem a Apple. Segundo porque usa um padrão aberto para as músicas de sua loja fechada, o FLAC, que já é um padrão de mercado. Terceiro, porque, por mais evoluído e proprietário que seja seu desenho, os asiáticos irão incorporar o conceito em todos seus telefones. Não espalha? Já fizeram isso. Meus últimos dois telefones – S4 e MotoX – já tocavam FLAC 96khz, discos em arquivos bem enormes que fui ouvir emprestados. Mas, por incrivelmente melhores que sejam, estes arquivos de áudio em HD como são chamados, não geram arrepios no consumidor, não geram buzz, já foram lançados e não rolou. Pode ser que o Pono crie espaço, chame atenção para um áudio melhor. Suspiro. Pode ser.”
Maurício Gargel é engenheiro de áudio e trabalha com masterização de álbuns em seu estúdio, localizado no Tennessee (EUA). Para ele, uma das questões a serem respondidas é como serão convertidos os arquivos para a alta resolução prometida pelo aparelho. “Como as gravadoras irão proceder com relação às ‘remasterizações’ para o Pono, ou qualquer outro serviço que ofereça high resolution? Irão simplesmente converter arquivos super comprimidos para 192 kHz e FLAC? Ou será feita uma nova master em alta definição à partir da mixagem original? Como lidar com essa questão me parece fundamental para que o Pono não pareça enganação”, diz o engenheiro.
Em resumo, o aparelho parece não empolgar como uma alternativa de consumo ao mercado musical. Caso se torne um produto que chame a atenção para a qualidade do áudio ouvido pelas gerações mais recentes, já será um avanço. Mesmo com todas as estrelas amealhadas para a propaganda do produto, fica a questão se o ouvinte está disposto a pagar pela nova experiência como ouvinte.
Marcelo Costa, crítico musical e colecionador de discos, diz que a inovação o deixa curioso. “Acho que é uma discussão mais ampla: o que Neil Young está propondo é prestarmos mais atenção ao que estamos ouvindo, porque a música passou a ser um acessório na vida de muita gente, ela perdeu o impacto que já teve em outras épocas da história. Então eu, que sou um apaixonado por música, independente do formato, acho a discussão toda ótima, mas preciso ouvir pra saber se vou realmente conseguir aproveitar o que o Pono tem a oferecer.”
Para Pena Schmidt, o telefone ainda é uma melhor opção. “Um aparelho de US$ 400 para tocar seus discos que agora vão custar US$ 30, de novo, para ouvir em fones de ouvido de US$ 300? Fico com o telefone. Acho que não vai dar certo, aqui para nós. Por melhor que seja a campanha, os amigos, o produtinho feito na China, todo esse marketing. Se fosse 10 anos atrás, quando saiu o FLAC? A tecnologia estava lá, poderia ter mudado a História da Música. Porque não fizeram isso quando era um avanço para a indústria?”